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MALHAÇÃO DAS ELITES OU O CAMINHO DE QUALQUER COISA
Esmeraldo Lopes

A Ditadura Militar mudou o curso da economia, produziu desarranjos institucionais que nos afligem até hoje, mas quero me referir a algo que conduziu quase todos nós a um tipo de cegueira crônica, a um apego dogmático a certas posturas que até hoje vicejam sem crítica. Vou me deter em duas delas: a condenação intransigente a todas as elites e a veneração a tudo que pudesse ser identificado como popular, como oriundo do povo. É verdade que mesmo antes da Ditadura estas tendências já estavam em esboço, mas no curso dela tomaram fôlego e se consolidaram. Embalados por elas, chegou-se a tal ponto que tudo o que cheirasse ou pudesse ser acoimado de elite ou elitismo era esconjurado, associado a posição escravista, opressiva, degradadora, exploradora, enfim, era malhada como se malha Judas no Sábado de Aleluia. O filme, o livro e tudo o que se possa imaginar tinha que se enquadrar dentro do discurso e da estética antielitista. A coisa chegou a tal ponto que o sujeito enfronhado nas universidades ou em ambientes intelectualizados, quando não se quedava em hábitos mal arranjados, encontrava complicação e logo era taxado de burguês, pequeno-burguês, etc. Chegaram até a determinar que o popular tinha que ser feio e se encantavam com a beleza dessa feiúra, porque era popular.


Joãozinho Trinta foi que fez a primeira denúncia desse absurdo, quando criticado pelos intelecas por esbanjar luxo na avenida, berrou: “Quem gosta de pobreza é intelectual”. Mais adiante, ou antes, não lembro, Pelé estourou outra que se juntou à de Joãozinho Trinta: “O povo não sabe votar”. Foi um festival de excomunhão. Os intelecas rugiam diante de tal ofensa à divindade povo, encarnada no quinteto: popular, pobreza, miséria, feiúra, opressão. Eu, na onda, partilhava dessa imbecilidade. É que como imbecil acreditava na infalibilidade de gurus tipo Paulo Freire, D. Helder... Evidentemente que havia pessoas no meio intelectual que percebiam o absurdo de tais posições, mas estas faziam voto de silêncio, temendo as pauladas que por certo receberiam, caso expusessem seus pensamentos. E procedendo assim renunciavam à condição de intelectuais, visto que intelectual é aquele que se lança no mar revolto na tentativa de desvendar, compreender situações, de dar sentido às ações humanas ou de um grupo, de mostrar, de abrir caminhos, mas com independência, sempre com independência, sem se deixar capturar por quem quer que seja. Se não adotar esta postura o sujeito, por muita que seja a sua potencialidade intelectual, pode ser considerado no máximo um erudito, mas nunca um intelectual. Faça-se justiça, no entanto. Habitava aquele ambiente divinizador do povo um paradoxo, pois ao mesmo tempo se gritava por educação de qualidade, os professores incentivavam, e até obrigavam, a leitura dos clássicos e se alimentava um clima cultural permeado por orientações filosóficas, discussão e leitura. Mas com tudo isso, o pensamento estava dentro de uma camisa de força, e embora se falasse muito em crítica, não havia espaço sincero para ela. Só era crítico o pensamento que concordasse com o combate de tudo o que fosse considerado elitismo.


A coisa foi tão séria que até as elites passaram a fingir vergonha de si e a adotar o discurso do popular. E tudo se “popularizou”. Agora eu pergunto, em algum momento houve alguma discussão em torno do conceito do que viria a ser elite? Não lembro. Só sei que ser de alguma elite era algo altamente censurável. A postura elogiável era o rebaixamento, rebaixamento até a altura do popular. Aí a cegueira crônica, que permaneceu e que se fez e se faz resultado no que vivemos: degradação musical, educacional, dos costumes, do comportamento e até das ambições. Aquele discurso plantou o vulgar como sinal de prosperidade. Mas o que é elite? Vou ficar com uma definição simplificada: é a minoria que detém o prestígio e o domínio sobre um grupo social. Nesse sentido todo grupo tem sua elite, que é constituída pelos melhores dos seus, que formam um subgrupo referencial.


Mas se tomarmos o termo no sentido de classe dominante, aqueles que se postem ao lado da classe dominada, proletariado, chame-se lá como quiser, não podem destruir seu acervo de conhecimentos e o conjunto de suas experiências, porque mesmo que nutridos pela exploração e opressão dos dominados, são ricos e imprescindíveis para a criação de padrões dignificantes. A elite se faz pela sua capacidade de elaboração, de depuração e de apropriação do que há de melhor - que fique claro que não pode ser considerado elite um subgrupo que emergiu e se mantém através de processo espúrios. Por outro lado, queira-se ou não, todo grupo precisa e tem uma elite. E precisa porque ela o referencia e o dirige, dando-lhe forma. Mas para que ela seja referencial é preciso que não se constitua com base na origem, mas pelas qualidades meritórias de seus membros. O que é necessário discutir e definir é o caráter das elites. Como não se fez isso, ao invés de simplesmente malhá-las, as velhas elites permaneceram quase intocadas e se renovando com o pior que há na sociedade. O que todo ser humano procura é o seu reconhecimento, é a sua distinção. Não há como negar isso. Quando alguém se acomoda no nadismo da vida renuncia à humanidade e se transforma numa coisa que chamarei de miséria. Como dizia Milton Santos, o pobre é aquele que luta, que quer conquistar, o miserável é aquele que perdeu a capacidade de lutar, que se aquietou no conformismo do nada ser. É nisso que minha indignação com a divinização do povo, apoiada no quinteto popular, pobreza, miséria, feiúra, opressão, aflora.


As pessoas não querem isso para si, ao contrário, elas sempre fugiram disso, e fugiram disso tomando como referência as elites. Mas o que fizeram e fazem os discursos que tomam o povo como divindade? Fizeram o povo entender a decência, o autocultivo, o refinamento do gosto, a auto-superação como sinônimo de frescura. Levaram-no a buscar o reconhecimento e a distinção na busca desesperada por acesso a bens materiais e por títulos e posições vazias de conteúdo, que não denunciam nenhum mérito. Verdadeiro crime de lesa humanidade. O resultado é a auto-afirmação, a elevação da auto-estima no nada do ser pensando que é, conseqüente de uma valorização furada. E um verdadeiro exército de mutilados desliza pelas ruas, pelas universidades, por todos os cantos, carregando em seus corpos e em suas mentes o retrato da vulgaridade e da incapacidade.


Como não há referência outra, como só poucos desse exército a sabem criar para si, o seu caminho é o caminho de qualquer coisa. E amarga uma frustração entorpecida pela bruteza da vida vazia, dormitando na vulgaridade, que é o único algo que lhe assemelha à sombra de humano, e chafurda na lama da impostura, alardeada pelo grito: “E aí, galera!”. Grito que proclama o reino da estética da feiúra, do mau-gosto e de tudo o mais que possa espelhar a miséria humana. Nesse acinzentado, o populacho se esbalda e sai a degradar tudo o que ainda possa restar do que não se assemelhe a si, ampliando caminho, o caminho de qualquer coisa, empunhando num funesto estandarte a inscrição: somos todos iguais.

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