Árbitro relata pedra e ofensas de Diego Souza, mas não cita pênalti polêmico.
Tite elogia Bélgica e admite favoritismo do Brasil: "Pela história e o que vem fazendo"
Maioria das mortes violentas em SP é causada por conflitos interpessoais ou pela polícia.
Renca: governo revoga decreto que liberava mineração em reserva na Amazônia

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
BREVE OBSERVAÇÃO SOBRE PROGRAMAS DIRIGIDOS À CAATINGA
Esmeraldo Lopes

Parecer breve e superficial sobre alguns programas executados na Caatinga por órgãos governamentais e por ONGs, a pedido de Luis Manoel Siqueira, na época (2004) desenvolvendo atividades no Projeto Renascer no interior de Pernambuco.
O presente parecer teve por base minhas observações pessoais sobre as práticas e discursos que se colocaram ao alcance de meus olhos e de meus ouvidos e o exame de algumas publicações orientadoras dos programas mencionados.

Luis,

Após uma breve apreciação do material que você me enviou, lá vai minha opinião sobre o Projeto Renascer, naquilo que deu para eu captar.

Primeiramente, quero fazer breves considerações sobre as concepções dos projetos de iniciativa dos governos após o fim da Ditadura Militar.

No correr da ditadura foram gestadas, por parte da resistência, e na proa a Igreja, proposições de participação popular nas decisões da vida das coletividades e do país. Daí as CEBs, os Núcleos de Participação Popular, tudo isso embasado nos postulados de Paulo Freire. Lembro-me bem que na Universidade uma discussão colocada era a da consciência, se ela vinha de “cima” ou de “baixo”. O certo é que se caiu em um endeusamento do “popular” e, concomitantemente, em uma postura bastante violenta contra o que se chamavam de “elitismo”, onde elitismo era tudo aquilo que se aproximava de qualquer posicionamento fundado em conhecimento teórico. Evidentemente que essa questão não era consensual, mas aqueles que partiam do princípio da necessidade de conhecimento teórico eram ridicularizados, principalmente pelos setores com ligações com a Igreja e com o PC do B que se aferravam, como ainda continuam se aferrando, a um pragmatismos dos mais cegos que até os cegos, com certeza, resistirão.

Na prática, a única forma de atuação, de fato, era a vinculação a sindicatos, associações, formação de conselhos populares, trabalhos educativos nas periferias, ou junto à parte menos protegida da população. Por trás disso, jazia o interesse de trazer para a participação na luta contra a Ditadura esse filão da população. O que inspirava esses posicionamentos eram os escritos de Marx, pois estes afirmavam que só o proletariado era capaz da transformação efetiva da sociedade. Estudantes, professores, jornalistas, enfim, a classe média comprometida, se colocava o papel de assessorar a população menos favorecida para que esta se fortalecesse e empreendesse ação eficaz de luta contra a Ditadura e pela emancipação do proletariado, e nesta tarefa se colocava como instrumento. Em verdade, olhando de hoje para o passado, o que fica claro é que a maioria absoluta das pessoas de classe média envolvidas no processo estava descobrindo o povo, olhando-o abstratamente, vendo-o quase como uma entidade redentora.

No seguir da história, com a abertura política e posterior reestruturação política do país, o poder buscou a cooptação (e efetivo esvaziamento reivindicativo) da base organizada no bojo do processo de luta pela redemocratização, e passou a adotar estratégias idênticas àquelas usadas pela resistência, fomentando uma suposta “participação popular”, “ouvir o povo”, “fomentar ações a partir das necessidades do povo”, etc. Para tal, convocou muitos daqueles que tinham efetivo envolvimento nesses movimentos, que foram empregados - na condição de técnicos (acreditavam eles que pelas suas competências) e passaram - alguns de boa fé e outros por mero oportunismo – a responder aos programas de governo com suas ações e elaboração de estratégias sempre voltadas para a participação – onde participação não era mais que o enquadramento da população nos programas de governo previamente estabelecidos. O discurso e a prática exclusiva, da resistência à Ditadura ou de luta em prol das transformações efetivas da sociedade, pouco a pouco, foi sendo utilizado pelos canais oficiais com o objetivo da cooptação e conseqüente esfriamento da população “organizada”, de modo que as velhas bandeiras perderam sua tonalidade ideológica e se transformaram em puro discurso do poder, embalado por ações práticas – a política que denomino de “fazismo” -, porque desprovidas de uma discussão política que possibilitasse a avaliação de suas implicações, seus alcances e reais objetivos.

Mais adiante, o “povo”, que como o nome já indica, tinha uma forma extremamente difusa, foi saindo da moda até que a Igreja, através das campanhas da CNBB, descobre os “excluídos’. Estes passam, então, a ser o foco da atenção, como no presente ainda é. Como sempre, pela pouca reflexão teórica, nem se definiu com precisão o que é ser excluído, onde, pelos discursos parece ser aquele que é miserável, ou seja, aquele que não come, e nem o que é inclusão, e menos ainda de que forma essa inclusão pode ser processada, caindo-se outra vez em uma situação profundamente confusa e difusa.

O interessante disso, é que, nesses empreendimentos, não se encetou, ou não coube estudos teóricos sérios a respeito daquilo em nome do que se atuava e nem menos o que realmente se queria, avaliando-se concretamente as possibilidades de sua concretização, resultando em uma metodologia de meia luz, quando esta havia. Um empirismo total sempre norteou as ações das pessoas e entidades que atuaram nesse território. O sucesso da cooptação do governo deveu-se e se deve a isso.

O fato do governo oferecer aquilo que as pessoas e entidades envolvidas com “organizações populares” não podiam oferecer, mas apenas criar canais para reivindicar, tendo como objetivo uma luta maior – a luta pela criação de uma sociedade menos desigual e mais participativa, para uns, e socialista para outros – levou os “setores populares” , diante das necessidades imediatas, do horizonte cultural que possuíam, a, inicialmente, trafegar de um lado para o outro, até serem definitivamente amalhados na rede institucional, transformando-se de “reivindicantes” – coisa que só os foram em nível ideal, uma vez que não possuíam um projeto efetivo para suas organizações ou coletividades – em mendicantes nas portas das instituições, a correr atrás de políticos e de técnicos, e também a freqüentar seminários, muitas vezes como meros figurantes, enchedores de plenário.

Um outro aspecto que acho importante falar aqui, é que entidades e a grande maioria das pessoas envolvidas nessas lutas, nunca deram atenção à importância do bem definir e utilizam-se de conceitos totalmente irrefletidos e impróprios para a compreensão da realidade e que trazem confusões metodológicas sérias. Exemplifico com o conceito de COMUNIDADE. Partiam, e partem ainda, da idéia de que as localidades, sejam elas imaginadas como bairros ou como núcleos rurais, estão organizadas sob a forma de comunidades. Ora, pela experiência que tenho, esse termo é totalmente impróprio para classificar qualquer localidade que conheço. No máximo as localidades que conheço podem ser classificadas como coletividades, na medida em que há alguma partilha de alguma forma, e também alguns vínculos que oferecem certa identidade aos membros de uma área. Mas muitas vezes, o que há de comum é tão pouco, os vínculos são tão frouxos que essas localidades ganham mais a imagem de aglomerados. Mesmos os vínculos de parentesco, como era de se esperar que fossem bastante sólidos e garantidores de unidade nas zonas rurais, estão perdendo cada vez mais a sua força, pois em muitos – e muitos mesmos – casos, nem os pais, nem os irmãos e nem os filhos são autorizados ou querem se envolver nos problemas da parentela, colocando-se com indiferença diante dos problemas que surgem. A precisão de um conceito é fundamental para o delineamento da ação, se não fosse assim não precisaríamos das palavras. Comunidade, como penso, se caracteriza por comunhão de valores, interesses, partilha, relações e condições de vida com alguma eqüitatividade, baixo grau de diferenciação social. Não é o que se vê por aí, pois mesmo onde as pessoas se colocam em condições idênticas, percebe-se que a ligação entre elas se dá por vínculos bastante frágeis. Entretanto, a idéia de comunidade veiculada pela maioria das pessoas e entidades que trabalham com “as organizações populares”, pelo que percebo, é de um idealismo tal que só pode encontrar correspondência em algum ambiente divino. Mas essa confusão ocorre precisamente pela pouca clareza com que tal conceito é utilizado. Voltando. Em minha concepção, o termo comunidade remete a uma ação dirigida não para o indivíduo “A” ou “B”, mas para a situação que melhor produzir os efeitos desejados para todos. Nesse caso o que se tem no horizonte é o benefício da coletividade, que agindo assim toma a tonalidade de comunidade. Será que se encontra algum núcleo humano por estas nossas bandas onde este princípio ainda seja aplicado? Mas o que chamam de comunidade é um ajuntamento de gente que só tem em comum o fato de morarem em espaços contíguos e até mesmo certos ajuntamentos artificiais, como é o caso dos assentados rurais. Governo, técnicos e ONGs juntam algumas pessoas e lhes diz que formam uma comunidade e assim passam a tratar o ajuntamento. Também costumam chegar a uma localidade qualquer e tratar o seu conjunto de moradores dentro do espírito que eu classifico aqui como romantismo comunitário. E a coisa é tão bem desenhada que as pessoas que até outro dia não sabiam que formavam uma comunidade passam a se expressar dizendo: “Sou da comunidade tal”. Feito e assimilado o batismo, passam os agentes externos a induzir aquelas pessoas a fazerem determinados encaminhamentos, ou simplesmente a aceitarem os pacotes que portam debaixo do braço. Distribuem os benefícios via cooperativas ou associações “comunitárias”, mas estes são utilizados individualmente e em muitos casos, senão na maioria deles, os membros das tais “comunidades” entram em rota de colisão por entenderem que não devem satisfação a ninguém, além de não se sentirem com o compromisso de devolverem parte do que produzem à cooperativa, o que leva a estrondosos fracassos e frustrações. Por outro lado, os equipamentos de uso coletivo acabam não sendo vistos como de responsabilidade coletiva e logo se degradam por falta de bom uso e de manutenção, quando não são apropriados pelo chamado “líder”. É preciso que se assuma que há uma distância muito grande entre o ideal e a realidade tal qual ela se apresenta. Como as ações dos agentes salvacionistas se pautam no plano da idealidade o resultado é sempre o desastre, e pior: em muitos casos gera ou acende um conflito que dormitava.

Conversando com um “líder comunitário”, este me revelou que estava envolvido com problemas de intrigas em sua coletividade porque a associação que presidia havia recebido alguns kites para criação de peixe, e ao chegar à reunião apresentou a notícia e todos os associados queriam um kite. Como não dava para todos, resolveram que os primeiros que chegaram ficariam com eles. O resultado foi que uma parte dos associados se retirou da associação e quase todos daqueles que se inscreveram para receber, não tinha nem idéia do que se tratava, sendo que alguns, pelo conhecimento prévio a respeito de suas condutas, não teriam a mínima condição de proporcionar resultado com a utilização de tal equipamento.

Milton Santos disse, no seu livro “Por uma outra globalização”, que vivemos na era do emagrecimento intelectual e, portanto, das fabulações. Associações, cooperativas, comunidades, eis aí algumas dessas fabulações. Em Curaçá estão registradas mais de 150 associações comunitárias. Só uma se aproxima daquilo que o nome indica. Todas, sem exceção, surgiram com o objetivo de serem contempladas pelos recursos que o governo destina a estes tipos de entidades. Esta é uma das armas da cooptação e do esvaziamento da possibilidade de organização da população: “Só forneceremos financiamento, recursos para infra-estrutura e benefícios gerais às comunidades que estiverem organizadas em associação”, noticiam as linhas de financiamento, os programas. Assim nascem os “líderes comunitários” ajuntando o povo às pressas para assinarem papéis, aprovarem estatutos e tomarem deliberações, sempre com a ajuda de um vereador, de algum técnico ou de algum ser altruísta disfarçado com o nome de membro de conselho disso ou daquilo, ou presidente da união das associações, etc.

DESENVOLVIMENTO. Preste atenção nesse termo. Ele é evolucionista e fortemente ideologizado, levando-nos a uma mentalidade colonial. Pressupõe que somos subdesenvolvidos e que deveremos atingir o desenvolvimento, cujo único caminho é perseguirmos o modelo dos países chamados desenvolvidos. Não há outra linha a seguir, outra possibilidade de ser sociedade para o futuro que não o que é dado pelo modelo (EUA, Inglaterra, com suas tecnologias e formas de vida) ou cair no mais profundo fracasso. Ele dificulta o olhar de outras possibilidades, de busca de outras alternativas. E nisso veja a contradição: não é a própria AGENDA 21 quem sugere que é impossível o mundo trilhar pelo mesmo caminho pela impossibilidade de sustentabilidade do planeta, em decorrência do imediatismo das práticas mercantilistas? Que termo seria mais próprio dentro de uma linha que respeite a cultura, o pluralismo? É necessário encontrar um termo apropriado.

OS PROGRAMAS DE GOVERNO
Os programas de governo, ao se esconderem por trás da chamada elevação do padrão de vida do povo, acabam destruindo aquilo que existia como potencial para o povo articular seus próprios interesses e idéias, produzindo um tipo de desfiguração. É que os programas vêm prontos. O que o povo faz em “sua participação” é discutir se “A” ou se “B”, sendo que esse “A” e “B” já estão marcados. O espaço está fechado para alternativas locais. Exemplo: o governo da Bahia está distribuindo kites de energia solar. Em uma localidade foram prometidos mais de 10 deles. O povo os quis, evidentemente. Ocorre que a prioridade nessa localidade é água. Com o dinheiro investido nos 10 kites daria para colocar um poço potente em um ponto e canalizar água para todos os sítios da fazenda, o que inverteria em melhoria até, ou talvez principalmente, sanitária da população, propiciaria a produção de hortaliças para o consumo doméstico, instalação de banheiro, bebedouro para os animais, etc. Mas o que aconteceu? Ou era a energia solar ou nada. Não havia campo para negociação.

Nestes últimos dias está sendo veiculado na televisão da região um encontro patrocinado pelo PROGRAMA CABRA FORTE, do Governo da Bahia. Todos os participantes (segundo a propaganda, 3000) vestidos de branco, com bonés brancos, sentados em cadeiras brancas de plástico, bem organizadozinhos em um plenário. Como vi várias vezes a mesma propaganda e olhei com atenção, não percebi ninguém usando chapéu de couro, com jeito de caatingueiro. É isso o que esses programas fazem: destruição da identidade, desenraizamento e desterritorialização. O SEBRAE atua no meio dessa gente, como o PROJETO RENASCER, falando em pequenos negócios, empreendedorismo, competitividade, exportação e outras babulengas mais, sem levar em consideração que essa gente encara suas atividades como meio de sobrevivência e não como capitalistas. Trancam-nos numa sala e começam a proferir ensinamentos a respeito de como progredir. Empurram cursos em cima de cursos e acha-se que por esse meio se chega a algum lugar. Diga-se sempre que cursos estruturados em cima de um discurso e de prática abstratas e alienantes, porque estão descontextualizadas e muito distantes das possibilidades concretas dos receptores das informações. Ironicamente, ao passo que os “assessores” se vangloriam de seus feitos, a matutada vê tudo aquilo como um tipo de um espetáculo, e utilizam o momento para encontros sociais, passeio etc. O triste é que entidades como a Igreja se traem pelo oposto. Superestima as condições de existência do povo e se conduz por uma metodologia e concepção de manutenção das coisas tais como estão, ou na palavra de um matuto: “Fica aí ensinando a gente a continuar a ser pobre”. Tanto uma ação como outra gera frustração e estranheza, além de abrir caminho para os grandes empreendedores.

O discurso empreendedorista para a área da Caatinga é no mínimo uma grande irresponsabilidade. A Caatinga é um bioma frágil. Avançar sobre ele com práticas mercantis é decretar sua morte. Portanto qualquer ação na área da Caatinga deve ser precedida de estudos sérios, não esses estudos da turma da academia que busca mais o grau de mestre ou doutor que a compreensão de suas problemáticas.

O PROJETO RENASCER, como o INCRA, está conseguindo o impossível: assentar pessoas em área de caatinga para criar ovinos e caprinos colocando uma cabeça de caprino em 0,2 hectares, com cada unidade possuindo entre 30 até 50 animais, quando os estudos técnicos dizem que é necessário pelo menos 2 hectares por cabeça em condições naturais, e que cada família deve possuir no mínimo 300 cabeças para se manter em grau de sustentabilidade mínima. Será que os assentamentos feitos com essa base oferecem renda suficiente? Como disse a consultoria na parte 284, no caso do POROJETO RENASCER, com a implantação do programa em uma localidade (comunidade como dizem), houve impactos na saúde, na higiene e habitação, mas nenhum impacto sobre a renda. Isso quer dizer que o Projeto não está melhorando efetivamente a condição de ninguém. Outro aspecto é o da parcialidade do projeto com relação à demanda da população: só atende alguns aspectos, deixando outro a descoberto, o que por certo gerará desânimo e abandono, com graves conseqüências sociais. Como as intervenções são pontuais não contribuem mesmo para alterar o panorama da pobreza. Mas esses aspectos não são específicos do RENASCER. Infelizmente é uma marca de todos os projetos e programas até então apresentados. Nenhum desses projetos têm uma propostas de alteração estrutural da realidade.

A revista do Projeto Renascer tem um visual bonito, o povo é apresentado como bem sucedido (para os idiotas) e é claramente um material de propaganda. Se analisarmos os números que ela contêm logo denunciam sua farsa. A fotografia da página 38 fala por si mesma. Será que é possível falar em renda, em ação bem-sucedida quando se estampa o sujeito vendendo uma bacia de feijão, alguns molhos de couve, coentro e cebolinha, produtos que são vendidos a R$ 1,00 a unidade? Ou 42 cabras para 21 famílias como sinal de sucesso do Projeto?

Projetos como o RENASCER adquirem sua fecundidade na nossa incapacidade de avaliação sincera. É necessário reconhecer que estamos sem saída, que precisamos criar saída, que isso que apresentam é pura fantasmagoria.

FINALMENTE

O discurso é de ouvida do povo, de partida da realidade do povo, de levar em conta a cultura do povo, etc, mas não é o que se vê. Nesses projetos o que se tenta é enquadrar o povo em um projeto de desenvolvimento totalmente alheio a ele. Não sei se a cultura tradicional daria conta da nova realidade. Tenho por certo que não, mas se não se partir dela nenhum êxito será conseguido, a não ser o aprofundamento de seu desenraizamento e de sua desterritorialização e conseqüente quebra de identidade, onde ela ainda existir. Se se escutar o povo direitinho, ele fornece pistas, com isto eu não quero dizer que ele sabe qual é o problema, mas é necessário que ele seja captado e só o será se alguém se aproximar dele, depurar seus choros e lamentos, coragens e esperanças, convertendo em ação concreta. O problema é: agir em que direção e com que metodologia?

Uma coisa que aprendi nesses anos de vida é que se se investir no fracassado, o fracasso é certo. No meu entender esse paternalismo, oriundo de um certo sentimento de culpa, que produz a sensação de que se quer colocar os excluídos no colo, lhes dá mamadeira, etc., não gera capacidade de reação. O povo precisa lutar, sendo necessário, evidentemente que se ofereça os instrumentos para que aqueles que se achem em condições lutem. Essas políticas tipo FOME ZERO, permissividade com pobre nas escolas e em todos os lugares, aceitando-se tudo como natural, distorcem ou desconhecem todos os ensinamentos da ciência política. É necessário disciplina coletiva, definição de critérios, de graus de tolerância. O que eu acho é que, com estes programas, estão criando uma casta de inúteis, de gente que vive apenas o dia presente, que não alimenta a esperança da luta e que mesmo assim vive a desejar por um milagre. Tenho certeza que se se fizer um programa de investimento dentro da realidade, desde que se coloque o recurso nas mãos daquelas pessoas que têm capacidade de luta, o retorno mesmo para aqueles que não forem contemplados diretamente, produzirá resultados bem melhores (é uma história longa).

Conheço uma localidade que desde 1984 vem recebendo incentivos de vários órgãos governamentais e não-governamentais. Levantaram quilômetros de cerca, adquiriram, a fundo perdido, trator, caminhão e alguns equipamentos sociais. Pura fantasia. Esta coletividade é utilizada como campo para vários pesquisadores, como exemplo nas tribunas políticas e como ponto de exibição pelos órgãos com atuação nela. Mas eu digo: É tudo pura fantasia. Os vizinhos riem da capacidade que os membros desta localidade desenvolveram em enrolarem aqueles que se fazem de enrolados, para apresentarem o sucesso de suas ações e assim acabarem se justificando também. Os “lideres” dessa coletividade se profissionalizaram em andar de gabinete em gabinete de ocupante de órgãos públicos. No dia que suspenderem as “ajudas”, ver-se-á que toda a lona do circo descerá ao chão, revelando todas as inconsistências, não só dos discursos como também dos investimentos mal dirigidos.

Outro aspecto que percebi é que o RENASCER trabalha tanto com gente que já tinha uma afinidade gestada localmente como com gente sem raiz nenhuma. Não se pode adotar a mesma metodologia, as mesmas estratégias para realidades tão diferentes.
O assunto é extenso e merece muita reflexão, mas paro por aqui. Como não se trata de um parecer oficial, dou o dito por suficiente.

Voltar
escort bayan
Júpiter.com.br - Esmeraldo Lopes - Todos os direitos reservados