Independência da Catalunha pode causar rescisão de Messi no Barça; entenda
Tarifas de ônibus sobem no fim de semana em Imperatriz
Terapia genética que corrige cegueira será vendida a R$ 2,7 milhões nos EUA
À espera do furacão Wolff

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
A BARRAGEM DE RIACHO SECO E A APREENSÃO DOS BEIRADEIROS DO RIO SÃO FRANCISCO
Esmeraldo Lopes

A BARRAGEM DE RIACHO SECO E A APREENSÃO DOS BEIRADEIROS DO RIO SÃO FRANCISCO



Esclarecimento imprescindível. O presente relatório é parte do Estudo de Impacto Ambiental relativo à construção e implantação da Barragem de Riacho Seco – Rio São Francisco - e se restringe aos aspectos relacionados ao impacto social no entorno imediato do empreendimento. O presente relatório foi fruto do meu trabalho (Esmeraldo Lopes) e do trabalho do sociólogo Amurabi Pereira de Oliveira. Enquanto eu me ocupei da margem direita do rio – lado baiano, exceto o aldeamento indígena Atinkun – além dos quilombos Inhanhum e Curpira, no lado pernambucano no município de Santa Maria da Boa Vista, Amurabi cobriu a margem esquerda do rio - lado pernambucano e fez o estudo do aldeamento indígena Atikun. O trabalho de campo foi realizado no final de 2008 e o relatório concluído em março de 2009, entregue sem a devida revisão gramatical, dada a pressa do responsável pela  compatibilização e edição do estudo global. Decorridos 10 anos e achando que o conteúdo do presente relatório contribui para o alargamento do conhecimento da região e das problemáticas da população beiradeira e de suas apreensões, resolvi, por achar devido e obrigatório, inclusive sem consultar Amurabi, deixar este material exposto ao público. Para preservar a autenticidade do texto, não fiz nenhuma modificação ou correção. Está como foi enviado, até com a indicação de correção que não foram feitas.



 



CONFLITOS REAIS E POTENCIAIS DA POPULAÇÃO BEIRADEIRA, RIBEIRINHA E DA ÁREA DA CAATINGA, ADJACENTES AO RIO SÃO FRANCISCO, NA REGIÃO DO SUBMÉDIO, QUE DECORRERÃO DO AHE RIACHO SECO.



 



 



BEIRADEIROS E RIBEIRINHOS DA REGIÃO DO SUBMÉDIO DO RIO SÃO FRANCISCO



 



INTRODUÇÃO



O presente relatório é resultado de uma sondagem solicitada pelo dirigente do Escritório da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco –  CHESF, instalado da Boa Vista, visando identificar os modos de vida e os conflitos reais e potenciais que virão a envolver a população que tem vida fundada na Área de Impacto Direto (AID) do AHE (Aproveitamento Hidrelétrico) Riacho Seco.



O tempo efetivo para a realização do trabalho de sondagem foi breve, motivo que não nos possibilitou a realização de um trabalho mais exaustivo, circunscrevendo-se no espaço de tempo de duas semanas de ação no campo, em ambos os lados do Rio e em algumas ilhas, sendo, entretanto, realizado por dois pesquisadores com formação em sociologia, que contaram com apoio integral de transporte, disponibilizado pelo Escritório da CHESF, instalado da Boa Vista - PE. Embora a área de estudo tenha compreendendo toda a extensão do Rio que será atingida pelo AHE Riacho Seco, de 64,33 km, que abrangerá, pelo lado pernambucano, o território de Santa Maria da Boa Vista a partir do marco situado pelo povoado Inhanhuns, até a divisa com o município de Lagoa Grande e uma pequena parte do território deste, situados à montante da barragem; pelo lado baiano, a extensão do Rio, abrangida pelo município de Curaçá, a partir do povoado Cerca de Pedras até a foz do Riacho Curaçá, e o município de Juazeiro, do Riacho Curaçá, até o distrito de Itamotinga, marco zero do remanso, também situados à montante da barragem. 



Em face da exigüidade de tempo, e até mesmo do caráter da solicitação, optamos pela escolha amostral de localidades representativas do universo, levando em consideração a heterogeneidade da estruturação da realidade dos beiradeiros e dos ribeirinhos, sem deixarmos de nos preocupar também com as diferentes perspectivas em que se encontram os agentes envolvidos no processo. Embora nosso enfoque tenham sido as lideranças das localidades, de segmentos representativos da sociedade e da municipalidade, com quem fizemos entrevistas semi-estruturadas, na maioria das vezes, essas entrevistas transcorreram na presença de outros membros das localidades e/ou de pares, que tiveram a oportunidade de, também, exprimir seus pontos de vista. Entrevistamos ainda, isoladamente, algumas pessoas comuns, além de recolhermos impressões e expressões isoladas, por intermédio de conversas ou da simples audição e visão, daqueles que se puseram ao nosso alcance, o que nos foi de substancial importância para a compreensão da dimensão da vida cotidiana do ambiente e da problemática observação dos lugares por nós visitados, quer seja no aspecto organizacional, espacial, ou no que se refere aos relacionamentos, se constituiu como um dos focos de nossa atenção.



Informamos que, excetuando-se os membros dos quilombos Cupira, Inhanhum, e as duas comunidades dos Atikúm-Bahia e, e o prefeito-eleito de Curaçá, e o prefeito de Santa Maria da Boa Vista todos os demais entrevistados, e moradores presentes às entrevistas nas demais localidades, entrevistados sem agendamento prévio, o que, se de um lado pode ter causado alguma lacuna nas informações, do outro, pode ter contribuído para proporcionar maior grau de autenticidade informacional.



Neste empreendimento, mantivemo-nos vigilantes quanto a diversidade de agentes a serem atingidos pelo AHE Riacho Seco, bem como às condições específicas de suas existências.



Foram objeto de ouvida através de entrevistas semi-estruturadas,



Do lado da Bahia:



- Prefeito-eleito de Curaçá (entrevista individual);



- 02 vereadores de Curaçá, eleitos para a próxima legislatura, sendo um



 da oposição e outro da situação (entrevista individual);



- 03 ex-presidentes do STR de Curaçá, sendo que dois diante dos



   membros das localidades onde residem e um isoladamente;



- 12 moradores da localidade denominada Ipueira Dantas, incluindo o



   presidente da Associação;



   (entrevista coletiva);



- 01 proprietário da terra ocupada pelos índios Akitúm-Bahia (entrevista



   individual, com participação da esposa);



- 02 meeiros (um, entrevista individual, e outro conversa individual);



- 01 barqueiro (conversa individual);



- 6 moradores da localidade denominada Rompedor (pertencente ao



  quilombo Jatobá) (entrevista coletiva);



- 03 moradores da localidade denominada Jatobá (quilombo), incluindo a



   presidente da Associação (entrevista coletiva);



- 15 moradores das localidades denominadas Caraíbas e Surubim,



   incluindo a presidente da Associação de Caraíbas (entrevista coletiva);



- 08 moradores do povoado denominado Ferrete, sendo três professores



  (entrevista coletiva);



- 02 moradores do povoado denominado Fazenda do Meio (ambos



   entrevistados com a participação de membros da família);



- 12 moradores do povoado denominado Cerca de Pedras (entrevista



   coletiva e uma entrevista individual);



- 01 moradora da Fazenda Logrador, distrito de Riacho Seco,



  distante do Rio São Francisco(conversa individual).



Do lado de pernambucano:



 



- 01 proprietário rural com atividade característica do agronegócio



  (conversa);



- 02 comerciantes. Um ligado ao comércio e outro à atividade receptiva.



Do lado pernambucano:



- 19 moradores do povoado de Cupira (quilombo), (entrevista coletiva);



- 12 moradores do povoado de Inhanhum, (quilombo) incluindo o



   presidente da Associação, (entrevista  coletiva);




  • 4 moradores da comunidade denominada Tamaquius, que atualmente encontra-se em processo de reconhecimento enquanto território quilombola.

  • Uma representante da Fundação Palmares

  • 3 membros da comunidade dissidente dos Atikúm Bahia que habitam uma das ilhas que serão atingidas.

  • 3 Membros da Comunidade Atikúm Bahia que habitam em Curaça

  • Uma liderança indígena local, dos Truká.




  • 3 moradores da Ilha do Saco, incluindo o presidente da associação local.

  • 6 assentados

  • 3 pescadores

  • 2 membros do sindicato dos trabalhadores rurais de santa maria da boa vista

  • A presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Lagoa Grande

  • Dois trabalhadores que possuem vínculo empregatício em Santa Maria da Boa Vista

  • Um padre

  • 3 membros da pastoral católica

  • 3 vereadores de Santa Maria da Boa Vista

  • Um médico

  • O prefeito de Santa Maria da Boa Vista.



- 08 moradores da Ilha da Missão, incluindo a professora (entrevista coletiva);



  



Por entendermos que sempre há uma certa distância entre a interpretação do dito pelas pessoas e do escrito e pensado pelo analista, já que não se pode aqui colocar o visto e o sentido, anexamos a transcrição de algumas entrevistas - daquelas que nos foi possível transcrever.



 



 



CONFIGURAÇÕES E RECONFIGURAÇÕES DA REGIÃO DO SUBMÉDIO SÃO FRANCISCO



 



O material bibliográfico sobre a formação histórica e social da região do Submédio do Rio São Francisco é escasso. Contudo, é suficiente para que se perceba que esta região passou por vários processos de desconfiguração e de reconfiguração.



Estudos históricos sobre a região, como o de Pedro Calmon – História da Casa da Torre –, Donald Pierson – O Homem no Vale do São Francisco – e de F.A. Pereira Costa - Anais Pernambucanos -, demonstram que quando das primeiras penetrações dos portugueses na região, no final do século XVI e início do século XVII , em busca de reconhecimento da terra, atraídos pela expectativa de encontrar metais preciosos, ela se caracterizava como um refúgio de índios. Esses, escorraçados do litoral, dirigiram-se para o interior, onde encontraram abrigo no ambiente da Caatinga, fixando-se em algumas serras e, principalmente, nas margens do Rio São Francisco, de alguns de seus afluentes e também nas ilhas. Segundo esses estudos, a região do Médio e do Submédio do Rio São Francisco assumia feições de um caldeirão, onde vários povos se entrecruzavam em disputa pelos espaços propícios às suas existências.



Em um segundo momento, por volta de meados da primeira metade do século XVII, os mesmos autores, apoiados em documentos históricos e cronistas da época, apontam para a ocupação da região com gado vacum e a disseminação de currais na Caatinga, situação que deu início aos primeiros confrontos pela ocupação das áreas mais apropriadas para a implantação da prática pecuarista. Com esse processo, aos índios, restaram tão-somente as áreas consideradas impróprias para o estabelecimento da pecuária, como as margens do São Francisco, seus afluentes e as serras. Mas, paulatinamente, a pecuária avançava cada vez mais, até que, a partir de 1670 os conflitos entre índios e fazendeiros se acentuam, pelo fato destes, diante das secas, terem recorrido às ilhas onde jogavam o gado vacum dentro das plantações daqueles.



Nesse período, os jesuítas vinham implantando alguns aldeamentos para fins catequéticos que, diante das perseguições impetradas pelos fazendeiros e pelo governo colonial, acabavam por se transformar no único ambiente capaz de proporcionar alguma segurança para os índios. Nem esses, entretanto, se viam livres dos assaltos do gado vacum às suas plantações nas ilhas. Aos índios arredios – aqueles que não aceitavam a submissão até mesmo à ordem religiosa, entretanto, nada restava, a não ser se lançar contra os fazendeiros e seus rebanhos e se refugiar nas margens inóspitas do Rio São Francisco. Essas disputas tiveram seu ponto culminante em 1676, quando, após um levante dos índios arredios, os fazendeiros jogaram todas as suas forças sobre eles, quebrando o foco de resistência aberta, conforme testemunho do Frei Martinho de Nantes (Nantes, 1979, p. 53).



A partir, do início do século XVIII, a pecuária se consolida, assim como o poderio dos fazendeiros sobre toda a região. No entanto, como as margens do Rio oferecessem perigo ao rebanho - pelos atoleiros, pela existência excessiva de canudos, pela ameaça dos jacarés, pelos embaraçados e fechados dos paus -, dificultassem o controle sobre ele e fossem também cheias de alagadiços “propícios à propagação de doenças endêmicas, predominando a malária, e empestada por insetos” (Sobrinho, 1951, p. XXII), os fazendeiros preferiram estabelecer seus currais a partir de três quilômetros delas, aprofundando-se na Caatinga. Mas as terras das fazendas que se situavam a certa distância do Rio compreendiam também sua margem. Todavia, as margens, que pelos aspectos já mencionados, eram, quase sempre, deixadas em estado de abandono. Nelas, como último abrigo, continuam a viver alguns índios, com quem vieram se misturar foragidos da justiça de Pernambuco e da Bahia (Sobrinho, 1951, p. XVII), além de escravos fugidos, sendo que dentre estes, alguns conseguiram montar núcleos quilombolas (Sobrinho, 1929, p. XLII). Nesse quadro, devido ao caráter da ocupação humana do ambiente por pessoas não integradas à ordem vigente, vez por outra, foram desenvolvidas ações de desmantelamento dos agrupamentos aí instalados, até a submissão completa de seus membros. Uma submissão marginal, diga-se, pois os moradores das margens não se integravam no sistema produtivo pecuarista, a ele só se integravam em caráter residual.



Os habitantes das ilhas também eram beiradeiros, mas sofreram o processo de dominação com precocidade, devido as características físicas do espaço em que viviam ser menos hostil ao rebanho, e ofertar alimento em abundância e maior condição de controle sobre ele. Por isso, com maior brevidade, os fazendeiros, desde os prelúdios da ocupação da região, avançaram sobre ele. No mais, em nada mais se diferenciaram dos beiradeiros das margens, com quem sempre tiveram relacionamentos intensos, indiferenciados e compartilharam as mesmas atividades e o mesmo modo de vida. Como os beiradeiros das margens, ao primeiro sinal de seca, viam suas plantações serem destroçadas pelos animais dos fazendeiros, e, quando elas estavam devoradas, punham-se no trabalho de retirar da margem inundada do rio o capim-d’água e o zozó para alimentação do gado vacum, dos eqüinos. Não podiam e nem tinham a quem reclamar, pois desde 1658, não só as terras das margens do Rio, como também todas as ilhas situadas na região do Submédio do Rio São Francisco, através de carta de sesmaria do Governador de Pernambuco, haviam sido concedidas à Casa da Torre (Freire, Felisbello, 1906, p. 34).



A partir da fusão física e cultural de índios alquebrados em sua cultura, portugueses e escravos foragidos, circunscritos às margens do Rio e a viver do que o Rio tinha a lhes oferecer, sob o olhar, mesmo que distante, dos fazendeiros, e relacionando-se entre si, como se em um mundo a parte estivessem, surge o beiradeiro: o homem que aprende a viver “na lama do Rio” e do Rio, conforme os imperativos da natureza e do ambiente, pondo-se na condição de agregado marginal.



Embora a população beiradeira tenha sido submetida aos imperativos dos fazendeiros, alguns agrupamentos persistiram mantendo parte de suas características no atravessar dos anos, se distinguido, em alguns aspectos, dos demais moradores das margens, ainda que não haja documentos que evidenciem as circunstâncias vividas e as estratégias de sobrevivências adotadas por eles. É o caso, por exemplo, das comunidades que, hoje, reivindicaram e conseguiram o reconhecimento como quilombolas: Tamacuiú, Cupira, Inhanhum, do lado pernambucano, e Jatobá, do lado baiano. Da mesma forma, os índios Truká, na Ilha de Assunção (Pernambuco), e os Tumbalá, na Bahia.



Mesmo havendo alguns traços distintivos entre os agrupamentos mencionados e o restante da população beiradeira, no geral, estavam sob as mesmas condições de vida, partilhando entre si uma identidade como beiradeiros. Vivendo no mesmo mundo, se entrelaçando social e biologicamente.



O mundo dos beiradeiros: rio, molhado do rio. Alimento: peixe, preá, jacaré, capivara, pato, jatobá, mari, genipapo, juá, quixaba, feijão, farinha-de-mandioca, rapadura, milho, beiju, batata, abóbora, melancia. Moradia: casa toda de palha, depois, casa de taipa com cobertura de palha. Indumentária: chinelo, chapéu-de-palha; uma, duas mudas de roupa. Instrumentos de trabalho: canoa, enxada, faca, facão, rede de pescar, tarrafa, anzol, espingarda de bucha, caçuá, cesto, corda de caroá. Utensílios domésticos: trempe de pedra, chocolateira feita de lata, panelas e aribé de barro.



Entre meados do século XVII e final do século XIX, a situação dos beiradeiros e de apropriação das terras das margens do Rio permaneceu estável. Na entrada do século XX, após a acentuação da decadência das grandes fazendas, decorrente da desvalorização do gado vacum produzido na região e incrementada pela partilha das terras por herança, dá-se grande fragmentação, também, das terras situadas nas margens do Rio São Francisco. Entre várias causas que justificam o acelerado processo de fragmentação dessas terras, como divisão por herança e venda de parcelas, pode ser encontrada na estrutura fundiária inaugurada no período colonial. Nesses períodos, muitas sesmarias foram concedidas, no formato uma légua de frente por três de fundo (Costa, 1983, p. 190 e 192, Volume 7). Em face disso, persistiu a crença de que aquele que obtivesse uma posse de terra em uma das margens do rio, teria, automaticamente, direito a três léguas de fundo. Mas isso não era só crença. Tanto assim, que é comum encontrar escrito nas escrituras lavradas em cartório, na primeira metade do século XX, a expressão: “... adquiriu uma posse de terra de 25 braças na margem direita do rio São Francisco, nas terras da fazenda..., e fundo”. Também não pode ser relegado o fato, de estando as margens do Rio menos afetadas pelos perigos de predadores de animais e sua população sob controle, se tornavam cada vez mais ponto seguro para refrigério dos rebanhos em épocas de seca.



A convivência entre beiradeiros e fazendeiros, na abertura do século XX, pelo que indicam pistas deixadas por “casos” recontados ao longo dos anos, era submissão dos primeiros aos segundo, não havendo registros significativos de atritos. Nessa época, as terras situadas na Caatinga eram bastante cultivadas e, lá, havia oferta de mão-de-obra abundante, desejando os fazendeiros, das terras situadas nas margens do Rio, além de ponto referencial para afirmação do domínio das terras do fundo, apoio para o refrigério do rebanho nos períodos de seca, o que se fazia com a extração do capim-d’água e do zozó.. Chega-se a essa conclusão devido ao fato da faixa de terra umedecida pelo Rio ser bastante estreita e de nelas, os beiradeiros, praticarem os mesmos cultivos que se fazia nas áreas de caatinga em extensão maior.



Pelas indicações das histórias reproduzidas pelos mais velhos, a transformação de simples agregados dos beiradeiros em meeiros, se fez em torno da mandioca. Como a farinha era um produto indispensável, tanto para beiradeiros como para caatingueiros, em torno dela se amarraram os primeiros contratos informais de meação.



Mandioca, seca, e “aceitação” de relação de submissão por parte dos beiradeiros, proporcionaram o encontro destes com os fazendeiros tradicionais e com aqueles que emergiam da condição de vaqueiro para a condição de fazendeiro. Desse encontro tanto alguns beiradeiros se transformaram em vaqueiros, como alguns caatingueiros se transformaram que isso, pouco a pouco, alguns fazendeiros, sem deixar suas atividades na Caatinga, passaram a se aproximar das margens do Rio, instalando nelas casas-de-farinha e engenhos, e cultivando cana para a produção de rapadura. Cultivo que era desenvolvido em maior monta nas ilhas e em alguns pontos das margens onde a faixa de terra umedecida pelas águas do Rio era mais extensa.



De todos os cultivos praticados, até meados do século XX, nas margens do São Francisco, o único que, embora se desenvolvesse completamente com a mão-de-obra dos beiradeiros que se mantinham na condição de agregados ou meeiros, não lhes pertencesse ou estivesse fora do contrato de meação foi a cana. Mas, se de um lado, os meeiros e os agregados não tivessem parte na produção da cana, era dela que retiravam algum ganho, tanto nos trabalhos de cultivo, como nos trabalhos relacionados com a moagem.  Relacionado ao cultivo, apenas o trabalho em torno da cana, proporcionava um dinheiro extra, configurado como pagamento. No mais, os beiradeiros conseguiam dinheiro com a venda do excedente de suas plantações. Fora isso, outra fonte de renda era o fabrico de bocapis, vassouras, esteiras e a extração da cera de palha de carnaúba.



A realização da venda dos produtos beiradeiros ocorria nas feiras das cidades e povoados situados às margens do Rio, em cujos portos as canos se apinhavam carregadas, para onde se dirigiam, também, os caatingueiros e os tropeiros.



É de se supor que durante todo o processo de formação regional, parte da população pobre com vida nas caatingas tenha buscado asilo às margens do Rio, transformando-se em beiradeiros. Contudo, não é possível encontrarmos confirmação documental a respeito desse passado, mas do início do século XX em diante, até 1950, são muitas as fontes testemunhais e histórias rememorativas sobre a origem de muitas famílias que vivem às margens do Rio São Francisco e que comprova ter havido um grande processo migratório no sentido Caatinga-Rio. As explicações para esse processo estão ligadas a dois fenômenos básicos: seca e Lampião. A seca tangia os caatingueiros na direção do Rio por dois motivos básicos: o primeiro: alguns criadores, proprietários de parcelas razoáveis de terra nas margens do Rio, traziam parte de seus agregados para nesta condição permanecerem às margens do São Francisco, e cuidar de seus rebanhos nas épocas críticas, sendo-lhes facultado o direito ao uso da “lama do rio”; segundo: premidos pelas secas, de iniciativa própria, por verem fugir as condições de sobrevivências nas caatingas, muitos de seus moradores “arribavam” na direção da beira do Rio, onde buscavam o merecimento do favor de algum proprietário que lhes deixasse levantar morada em algum ponto de sua terra. Lampião, pela sua forma de ação indiscriminada de violência, ao deixar a população caatingueira em sobressalto, levava esta a fugir para lugar mais habitado, sendo as margens do São Francisco um dos pontos de busca.



Nesse quadro de apreensão, a população beiradeira sofreu alterações em sua composição demográfica desde o início de seu processo formativo e em nenhum momento conheceu pausa. Embora isso, as mudanças quanto ao estilo e condição de vida e às formas de trabalho são imperceptíveis até meados do século XX. O que mudou para parte dos beiradeiros foi a relação com a terra, pois vários deles, dentro do processo de fragmentação da propriedade das terras das margens do Rio, por herança ou por compra, conseguiram transformar-se em proprietários de algumas braças. Note-se que a aquisição de um pedaço de terra, por menor que fosse, fixava o seu proprietário definitivamente no lugar e ao mesmo tempo conferia-lhe segurança e algum grau de dignidade, além de lhe oferecer a condição de situar ou desenvolver qualquer atividade caatinga adentro, na linha imaginária dos limites de sua propriedade. A mesma situação era verificada com relação às terras das ilhas, que entraram em processo acentuado de retalhamento, com o diferencial de estarem comprimidas pelo rio.



Aspecto notável, é que os beiradeiros, mesmo os proprietários das terras onde viviam, até o ano de 1960, raramente possuíam reses, não obstante a sua grande admiração por elas. Mesmo aqueles que se colocavam no propósito de construir um chiqueiro, geralmente criavam poucas miunças.



Até o final da década de 1940, a produção desenvolvida na área beiradeira do Submédio São Francisco destinava-se exclusivamente ao mercado local, sendo que seus produtos considerados essenciais - rapadura e farinha -, não conseguiam atender a demanda, principalmente a rapadura que era importada de outras regiões do Vale. No abrir da década de 1950, inicia-se, de forma tímida, o cultivo de cebola, que, a partir de Cabrobó e Belém do São Francisco, vai se difundindo como produto essencialmente comercial.



O cultivo da cebola fugia de todas as características do que era produzido na região, pois que tinha feições totalmente diferentes de tudo o que se conhecia e se fazia até então: sementes compradas, uso de inseticida, irrigação, roda d’água (logo, logo substituída por motor), preparo e adubação de canteiros, compradores específicos, preço aleatório e um cheiro que nunca tinha sido sentido nas roças. Era alheia, distante do mundo do beiradeiro. Mas nesse mundo ela foi infiltrada por alguns comerciantes ou por gente bem posicionada, habitante das cidades.  Os beiradeiros sendo envolvidos, na condição de meeiros, produzindo apenas cebola. A cebola se apresentou como um produto do ganha e perde. Antes havia perdas, aquelas advindas das intempéries da natureza, do ataque de pragas. Com a cebola, a sorte se acrescenta: sorte para pegar preço bom, sorte para achar comprador, sorte de não chover. O contrário disso: azar.  De qualquer modo, a cebola se apresentou como um produto de rompimento, abrindo nova perspectiva. A partir dela, a possibilidade de ascensão, da aquisição de bens.



No entrar dos anos 60, o cultivo de cebola estava espraiado nas terras próximas às margens do São Francisco. O emprego de motor havia rompido o pequeno limite dado pela pequena faixa de terra que o rio umedecia com suas enchentes.Os altos ganhavam utilidade agrícola e as cercas eram ampliadas em mais alguns metros, na direção contrária a do rio. Isso, mais do lado pernambucano que do baiano.



 



 










MODOS DE VIDA DOS BEIRADEIROS E DOS RIBEIRINHOS DO RIO SÃO FRANCISCO



 



Necessário que se faça, para efeitos de esclarecimento a respeito dos agentes envolvidos neste trabalho, a distinção entre os termos beiradeiro, ribeirinho e caatingueiro, de notório saber que os termos empregados nos processos de definição e de auto-definição de um povo ou de um agrupamento humano, estão diretamente relacionados à sua identidade, à sua transformação ou à sua destruição.



Todos os habitantes das margens do Rio, até a década de 1950, exceto aqueles que viviam nas cidades e com funções citadinas, eram considerados e se consideravam beiradeiros. Beiradeiro, como já dito acima, era todos os que viviam às margens do Rio e desenrolavam suas vidas em torno dele. Denota, mais que a localização geográfica de um ambiente, um modo de vida. O termo ribeirinho é uma nomenclatura abstrata e, portanto, genérica que enquadra a todos que morem nas proximidades de um rio, independente de sua situação ou modo de vida. Na região do Submédio São Francisco, ele foi utilizado por intelectuais e por adventícios para assim designar todos quantos vivessem nas proximidades do Rio indistintamente. Para o citadino, assim como para o caatingueiro, o beiradeiro tinha suas características próprias. De tanto assim serem rotulados, os beiradeiros passaram a utilizar para si também o termo ribeirinho, mas quando perguntados o que são, caem logo no “somos beiradeiros porque vivemos na beira do rio, na lama do rio. Na caatinga, caatingueiro; quem é da cidade, da rua, é da cidade, aqui beiradeiro”.  Os caatingueiro, por outro lado, são todos aqueles que vivem nas caatingas e das caatingas, dentro do padrão de trabalho e estilo de vida forjado historicamente.



Grosso modo, caatingueiros e beiradeiros são os agentes tradicionais básicos na região do Submédio São Francisco. Nos idos da década de 1960 para trás, havia um outro agente: o fazendeiro, normalmente, vivente da cidade, de onde gerenciava seus vaqueiros. Nos tempos recentes, com o advento da agricultura irrigada e do avanço do comércio e das relações empresariais, apareceram o ceboleiro, o meeiro (de cultivo comercial), o produtor rural, o empresário rural, o assalariado permanente, o trabalhador volante, e um leque de agentes ligados ao setor de serviços. Estes, sim, são ribeirinhos, sem ser beiradeiros, vez que mesmo quando estão vinculados a atividades agrícolas, têm o Rio apenas como meio de onde extraem água, podendo desenvolvê-las e viver em qualquer outro espaço. O que significa dizer que enquanto os agentes tradicionais desenvolvem a trama de suas vidas em um lugar, os outros agentes, para tal, precisam apenas de um espaço. Essas distinções são imprescindíveis no contexto do estudo do AHE Riacho Seco.



            O cenário encontrado na região da AID seria o que poderíamos denominar de Sociedades Camponesas, seguindo a definição de Eric Wolf que as compreende enquanto populações que subsistem da agricultura porém diferenciando-se das demais populações, como indígenas, quilombolas etc, a partir da interface, em especial produtiva, com a sociedade envolvente, marcadamente relações sociais, econômicas e políticas. Para o Wolf outra distinção importante que se deve fazer com relação às sociedades camponesas é que estas compõe uma unidade produtiva que tem enquanto foco de manutenção a unidade familiar.



Encontramos no município e na região agricultores que em geral devido às baixas condições técnicas e escassos recursos desenvolvem atividades agrícolas quase que exclusivamente para a sua manutenção. O que distou consideravelmente as populações encontradas foi o seu grau de sociabilidade e conseqüente elaboração e reelaboração do território, fatores como historicidade e etnia pesaram de forma considerável para este cenário.



Podemos afirmar que apesar de possuírem caráter símiles, as comunidades encontradas da AID  não são homogêneas, variando as suas características produtivas entre a economia de mercado (quando aí incluímos também aqueles que prestam serviços como diaristas para fazendas ou na cidade) e a economia moral como proposta por James Scott, na qual a noção de justiça e de permanência das relações de reciprocidade na comunidade ganha destaque.



Ainda acerca do modo de vida dos membros das comunidades destacamos que as políticas públicas não chegam em geral de modo enfático até eles, o que provoca um certo descrédito ante as instituições públicas, além das remissões constantes à memória coletiva, que enquanto tal sempre se pressupõe verdadeira.



Circunscreve-se ainda na comunidade relações como casamentos e as demais relações de parentesco, sendo em muitos casos estas relações estabelecidas de modo interrelaciona com a dinâmica territorial como demonstraremos mais adiante. De modo geral poderíamos enquadrar as comunidades da AID em quatro tipos principais: Comunidades “Tradicionais”, que seriam aquelas ligadas por laços históricos há no mínimo duas ou três gerações ao lugar, Comunidades Recentes, na medida em que representam aquelas cujos membros que as integram são principalmente de primeira geração no lugar, as comunidades étnicas, cuja definição de Weber recaí sobre a crença numa ligação e origem comum entre os membros, sempre ampliada por Barth ao propor além desta característica o caráter organizacional e de auto-reconhecimento destas comunidades e, as comunidades políticas representadas por órgãos oficiais como prefeitura, sindicatos, igrejas, etc.



 




 



 



 



 



 



 



 



 



 



CONSIDERAÇÕES SOBRE AS COLETIVIDADES VISITADAS NO LADO DE PERNAMBUCO



 



 



CONTEXTO DO MUNICÍPIO DE SANTA MARIA DA BOA VISTA



 



O município de Santa Maria da Boa Vista, localiza-se a 611 km de Recife no do sertão pernambucano, às margens do Rio São Francisco. Limita-se ao norte pelo município de Parnamirim e Santa Cruz. Ao sul com o estado da Bahia, a leste com Orocó, e a oeste, com Lagoa Grande. Possuí uma área de 3.001,17 km² e, uma população de 44.053 habitantes, segundo o censo do IBGE de 2006, seu Índice de Desenvolvimento Humano situa-se em 0.669 (PNUD 2000).

            Localiza-se no sertão e tem como clima predominante o semi-árido quente, característico do sertão, com estação seca prolongada e um curto período de chuvas no verão, o período chuvoso concentra-se de janeiro a março, com precipitações médias anuais entre 400 a 600 milímetros e temperatura média anual de 35 ºC.



O principal rio que corta o município é o Rio São Francisco do qual depende a maior parte dos habitantes do município, de forma direta ou indireta, em especial através da agricultura. Seus afluentes na região, em geral, são periódicos. Na época das chuvas estes rios alimentam pequenas barragens particulares as quais garantem no período de estiagem a manutenção das fazendas beneficiando desta forma as áreas mais distantes do Rio São Francisco.

             O principal afluente do Rio São Francisco é o Rio Das Garças, no qual existem uma série de barragens sucessivas, alimentadas pela barragem mãe denominada Açude Saco II. As principais atividades econômicas do município são as atividades agropecuárias e o comércio, enfatizando-se todo o processo de reconfiguração sofrida na região após o advento da barragem de Sobradinho, que veio a intervir no ciclo do rio, de modo a alterar o modo como as atividades eram desenvolvidas, havendo o caso de muitos agricultores que passaram a adotar a agricultura irrigada, em maior ou menor escala e, outros que não conseguiram se adaptar, de toda forma mesmo aqueles que se “adaptaram” sentem os problemas causados com a mudanças ocorridas, como se sucede com os corriqueiros casos de roubo de bombas d’água, emergentes no processo de desestruturação das sociabilidades nestes espaços.



Ressaltamos ainda que a agricultura de vazante combinada com a agricultura de sequeiro, a pesca e a criação de animais era o modo tradicional na região que atravessou quatro séculos de colonização sem grandes transformações. Porém o advento das barragens e dos projetos irrigados alteraram este cenário, havendo uma redefinição das atividades produtivas e, como conseqüência as relações de produção e a estrutura do poder local.



Faz-se importante também enfatizar nesse momento que o município foi fortemente impactado pela construção não apenas da barragem de Sobradinho, que alterou drasticamente o cenário da região como também pela construção da barragem de Itaparica, cuja relocação de um contingente considerável de famílias, oriundas dos municípios de Floresta e Belém do São Francisco, implicou em impactos consideráveis sobre a realidade local, formando o chamado Projeto Fulgêncio (antigo Projeto Caraíbas), incluindo o aumento do índice de violência e o avanço do tráfico na região.  A ausência de políticas públicas faz com que os habitantes sejam empurrados para a realidade em que a plantação lítica lhe renda X e a ilícita dez X, diante desta problemática levantamos a indagação sobre quão eficaz se pode ser um processo de relocação, necessitando de um trabalho contínuo e presente por um tempo que vai além do assentamento, mas necessita também de um acompanhamento e presente.





 



COMUNIDADES RECENTES



 



Assentamentos



 



            Os assentamentos visitados: Brilhante e Vitória caracterizam-se por um claro processo de contínua pauperização de seus habitantes, as condições de existência se mostram difíceis,  de modo que tal realidade altera a perspectiva dos mesmos com relação à possível vinda da barragem, sendo recorrente o discurso que enfatiza a crença nas melhorias com a vinda da mesma, pois “pior não fica”, neste sentido o almejo por mais “beira de rio” é recorrente nas narrativas, o que aponta para a necessidade de maiores esclarecimentos por parte da empresa que vá executar a obra, de modo q não criar falsas expectativas e deixar claro o cenário que será delineado com a vinda da barragem.



            No caso dos assentados encontramos um cenário sui generis, na medida em que se tratavam em sua maioria de sujeitos que seriam considerados de “primeira geração” naquele local, não possuindo laços sociais profundos naquela região, porém há de se enfatizar que os grupos não são homogêneos, sendo encontrado mesmo sujeitos que há mais de 60 anos residem naquela região, sendo ex-agregados da fazenda que deu origem ao assentamento.



            No decorrer do processo de pesquisa percebemos que o cenário existente nos assentamentos marca-se por um processo de ligação predominantemente econômica com a terra, sendo os processos reivindicatórios focados nas melhorias das condições de existência. A falta de uma estrutura mínima que viabilizasse a produção levou a quebra da lógica produtiva, com um contínuo processo de deslocamento dos assentados para outras atividades, visando desse modo, garantir a subsistência mínima, seja através do trabalho em outras terras (diaristas) ou na cidade.



            Também em decorrm este desajuste produtivo ocorreu um contínuo processo de desestabilização das relações sociais, sendo recorrentes nos assentamentos casos de roubos, em especial no que diz respeito à utensílios de trabalho (como bombas d'água) e à animais de pequeno porte. O que nos indica que possíveis alterações mais drásticas no modo de vida dos mesmos, caso não sejam acompanhadas de medidas que visem minimizar estes impactos, causariam modificações ainda mais profundas, impactando de forma negativa na dinâmica por eles instaurada.



            Em termos de potencialidade de conflitos percebemos que no que tange aos assentamentos os maiores problemas com relação à barragem seriam no âmbito da informação, que gera grande desconfiança por parte dos assentados, além da memória coletiva que remete às experiências da barragem de Sobradinho e Itaparica. Havendo um contínuo processo de esclarecimento, e elaboração de propostas condizente com a realidade dos mesmos o potencial de conflito pode ser minimizado. Enfatiza-se ainda o baixo grau de articulação e mobilização dos assentamentos, ao menos neste momento, o que não quer dizer que elementos exógenos posam surgir mobilizando as massas na direção oposta aos interesses daqueles que almejam construir a barragem, volta-se neste ponto a enfatizar a importância de um processo claro e objetivo de informação que vise minimizar a potencialidade de conflito naquele tipo de agrupamento.



            Alguns aguardam melhoras com o advento da barragem, como no caso de João Bosco presidente da associação do assentamento Vitória:



 



“Nos pensamento que a gente tá o que, se vier mesmo a barragem, que sei que vem, independente a negociação da gente pode ser bom, porque em vez da gente ir lá para pode trazer a irrigação aqui pra cima, pra onde a gente tem 3 hectare e meio de terra, um sistema de irrigação aqui caí muito bem pra nós aqui”



 



            Ainda no que diz respeito ao sistema de irrigação é apontado como um dos problemas o pagamento da conta de energia neste sistema de rateio das contas.



 



“A gente tem dificuldade na questão do pagamento porque além da gente não ter uma renda fixa cada um, pesa muito pra gente todo mês, pagar vinte, vinte e cinco real, aí varêa. Acontece de ter o seguinte: de ter dois grupo coligado para um só motor, acontece de um grupo ficar discutindo com o outro. ‘Não, o grupo de fulano gastou mais energia, eu num vou pagar’, o outro: ‘Quem gastou mais foi você’. Fica naquela, acontece muito na maioria das vezes, a CELPE chega e corta.”



 



Entre as reivindicações mais presentes encontramos:



Escola para a comunidade,



Mais projetos (não especificaram o tipo)



Adutora



 



Na opinião do assentado: “Tem uma parte que se tudo ocorrer bem vai melhorar cem por cento”, porém percebemos também o elemento do conflito na medida em que se busca maximizar os ganhos para com a vinda da barragem: “A gente tem que é, se unir aí junto ao sindicato, ao próprio movimento, e agente ir fazer passeata”.



 



 



            COMUNIDADES ÉTNICAS



 



Quilombolas



O Decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, em seu artigo 2º, considera os remanescentes das comunidades dos quilombos, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra, relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. No ano de 2008 foram emitidas as certidões pela Fundação Palmares referentes às comunidades quilombolas de Inhanhuns, Cupira e Serrote.



Referente à comunidade de Tamaquiús devemos enfatizar que a mesma ainda não possuí o certificado da Fundação Palmares, porém encontra-se em processo. Além do mais das comunidades visitadas de remanescentes de quilombos é aquela que se encontra em situação de maior fragilidade, suas terras se estendem ao longo da margem do São Francisco, seu território tem sofrido com a fragmentação decorrente não apenas pelos assentamentos como pela venda de terras por parte de alguns membros, em decorrência das parcas condições de existência da comunidade. Houve inclusive a tomada de terras da comunidade em local onde há inscrições rupestres, no qual se manifestam expressões da religiosidade local, tal lugar é chamado pelos membros da comunidade de “Pedras Riscadas”, no qual tais expressões são eminentemente sincréticas, havendo uma preponderância dos cultos afro-brasileiros, mas também com influência indígena, como se pode perceber no uso da Jurema.



            Foquemos neste momento nas comunidades cujos laços de ligação se baseiam na etnicidade, partimos para tal compreensão da definição dada por Weber na qual comunidade étnica é aquela que acredita está ligada por laços por laços diversos, podendo ser os mesmos reais ou não, o importante na formulação da comunidade étnica não é o fato histórico de um grupo ter sido mais ou menos isolado que os demais, pois como aponta Franz Boas  dificilmente encontraremos comunidades estritamente isoladas ao longo da história. A marcação, neste sentido, se dá através do auto-reconhecimento e da demarcação das fronteiras étnicas com relação aos demais grupos, sendo este processo intermediado pela alteridade.



            Comecemos nossa análise pela comunidade de Tamaquiús. Esta comunidade se encontra  atualmente em processo de reconhecimento junto à Fundação Palmares enquanto comunidade remanescente de quilombo, o que em nosso entender terá diversas implicações geradoras de conflito naquela região, tendo em vista que parte considerável do território da comunidade é habitado por membros diversos não pertencentes originalmente à Tamaquiús, fruto de um processo histórico e contínuo de compra e venda de terras. Neste cenário, assentamentos e propriedades de médio porte se circunscrevem no território da comunidade.



            Há de se ressaltar ainda que este processo que observamos neste momento é o que é definido na antropologia enquanto processo de etnogênese, ou seja, encontramo-nos diante de um cenário em que as identidades estão sendo formuladas, e rearranjadas, observamos que obviamente tal cenário atrela-se ao contexto histórico no qual nos inserimos, inclusive, se não principalmente, em decorrência das políticas públicas instauradas nesta direção, o que não desmerece tal processo, apenas enfatizamos este aspecto para situá-lo dentro do contexto histórico mais amplo.



            A comunidade possuí claramente traços culturais significativos que lhes demarcam socialmente, não apenas o fenótipo o diferencia, mas modos de produção, sistema de parentesco no qual boa parte dos casamentos se dá de forma endogâmica, não apenas os casamentos como também as uniões, a ligações com práticas religiosas históricas, como as celebrações que ocorrem nas chamadas “Pedras Riscadas”, nas quais ocorrem cultos marcadamente de influência indígena e africana.



            Assim como ocorre em boa parte do município de Santa Maria da Boa Vista o que predomina em termos de condições de vida é a produção agropecuária de subsistência, sendo recorrente jovens que trabalham como diaristas ou na cidade. Alguns membros da comunidade possuem terras em ilhas, o que lhes dá uma condição diferenciada, na medida em que lhes permitem viabilizar a sua produção, tais moradores, assim como os demais que dependem das ilhas para a sua sobrevivência merecem um olhar diferenciado por parte da empresa que venha a construir a possível barragem, considerando a especificidade da realidade encontrada bem como considerando um processo de busca por minimização dos impactos e conflitos.



            No que diz respeito às comunidades quilombolas denominados Inhanhus, Cupira e Cima e de Baixo, estas serão mais diretamente afetadas pela possível construção da barragem, o que implica numa postura contrária à construção da mesma mais fortemente marcada. Também há de se enfatizar que estas comunidades já receberam o reconhecimento da Fundação Palmares enquanto remanescentes de quilombos, o que implica num maior grau de articulação da comunidade a partir do fator étnico, configurando nesta localidade o que Cardoso de Oliveira denomina área de fricção étnica, marcada pelo movimento de alteridade entre a comunidade  a sociedade envolvente, em especial quando lidamos com interesses contrários.



            Entre os mais jovens o discurso étnico aparentemente ganha mais ressonância, sendo recorrente a afirmação de que não haverá a saída dos membros da comunidade naquele local. Neste caso apontamos para um alto potencial de conflito nestas comunidades, em especial se não forem consideradas as suas peculiaridades, o momento de etnogênese no grau em que se encontra estas comunidades deve ser tomado com cuidado, pois há claramente uma articulação entre fatores étnicos e políticos, pois neste momento a auto-afirmação identitária da comunidade passa pela auto-afirmação política, sendo necessário um processo dialogal que se reflita em termos de propostas e mesmo de indenizações, já que neste caso não falamos apenas de terra.



            De modo geral enfatizamos que no caso das comunidades étnicas, e no caso da região de AID as quilombolas ganham destaque, a questão da terra se complexifica, pois não se trata apenas de terra, mas sim de território, enquanto categoria socialmente construída num processo histórico. Merece atenção o fato de que todo e qualquer possível processo de relocação deve buscar a manutenção das relações sociais existentes, inclusive quando falamos disso em termos geográficos, as vizinhanças devem ser mantidas preferencialmente. Para além disso, como a posśivel vinda da barragem implicaria num processo de desestruturação do modo de vida dos mesmos, necessita-se que haja ressarcimentos e investimentos na comunidade visando deste modo a minimização destes impactos,  ou mesmo ocorrendo tais políticas como carater "idenizatório".



            Destaca-se neste moment que a atuação do Estado junto à comunidade é muito pequena, no sentido em que a mesma não é amparada por um amplo sistema de políticas polítcas, sendo assim a vinda de ações que visem o melhoramento das condições materiais da comunidade teria um impacto bastante positivo. Ações como formação escolar e profissional, incremento das técnicas de produção, que visem também a sustentabilidade, proposta de reelaboração produtiva que vise viabilizar a produção para além da agricultura de subsistência.



            No que tange ao conflito, por se tratar de uma comunidade que se encontra em processo de etnogênese os processos são múltilplos e mesmo instáveis, há destaque aqui para a participação da Fundação Palmares enquanto fator de mobilização da comunidade. Quando entrevistamos a representante da Fundação no município encontramos claramente um discurso que se posiciona contra a barragem, e vislumbra um forte potencial de mobilização, é-nos claro que quando tratamos de comunidades tradicionais a questão vai para além da terra, pois o território se encontra aí enquanto uma construção social.



            De toda forma deve-se enfatizar o caráter de mizerabilidade no qual se encontra a população de Tamaquiús, de modo que ante ao cenário da vinda de uma barragem há a possibilidade de intervenção e melhoria da qualidade de vida dos mesmos, acompanhado de ações efetivas em especial em termos de educação, trabalho e saúde. Neste cenário o conflito se mostra em potencial, porém diante das condições objetivas vivenciadas pelos mesmos este pode ser diminuido ante a um cenário de esclarecimento da população sobre a realidade que se configurará com a construção da barragem, e neste ponto deve-se enfrentar e pontuar os temores principais da população, quais sejam: o medo de ficarem desabrigados, sem produção e a forte presença na memória coletiva das experiências de Sobradinho e Itaparica. Além do mais o process deve ser dialogal e nogociativo, realizando-se propostas que demonstrem ganhos significativos para a população, que chegue a representar uma mudança estrutural na vida dos memo, em especial na questão do trabalho.



            Ainda com relação às comunidades há de se enfatizar que aqueles possuidores de terras em ilhas possuem outra lógicaprodutiva que deve ser respeitada, de modo que se deva buscar viabilidade técnica para a reprodução destas condições o mais símile possível, isso não apenas com relação às comunidades quilombolas, mas com todos aqueles que dependem das ilhas para viver, isto se mostra essencial para minimizar possíveis conflitos que se mostram ainda em potencial.



            No que diz respeito á barragem encontramos algumas falas como:



 



“Eu acho que nós só temos a perder. Oia a gente perderia o lugarzinho da gente, que a gente já tem a tantso anos, tem gente que não quer sair do seu canto porque já é de herança de seus pais, de avós. E a gente aqui já mora há tanto tempo, né? Que tem as amizade, já tem suas pranta, até pode ser idenizado mas nunca vai ser como se você já tivesse ali. (...) Craro que a gente vai sair perdendo. Sabe quem é que vai ganhar? O rico, aquele grande, o grande agricultor, agora o pequeno ele só perde, porque o pequeno agricultor não tem vez no Brasil, só os grandes empresários, esses é quem têm vez, esses que vão ganahr, nós vamos perder. Sempre o coitado do pobre é explorado, e o rico tá lá em cima”



 



Encontramos ainda um forte processo de desinformação com relação ao processo de construção da barragem, como podemos perceber na seguinte fala:



 



“O que eu penso é que quando essa barragem for construída a água nao vai ficar só aqui, eu digo que elas vão invadir pra lá, que é muito baixo aqui, a gente já tem a idéia pera enchente quando vem, quando dá aquelas enchente grande, ela [a água] fica aí na pista”



 



Consideramos tais narrativas reafirmamos a necessidade de se repactuar com estas comunidades, de modo a recuperar a credibilidade da CHESF junto às mesmas. O fator étnico deve ser considerado ante a um possível processo de relocação, de modo que se possa minimizar o impacto causado, isso se reflete num processo de relocação que vise reproduzir a estrutural social atual mas com melhorias significativas para a vida  da polução, em espcial no que diz respeito ao âmbito do trabalho, da saúde e da educação.



 



Comunidades Indigenas



 



            Encontramos na região de AID duas comunidades indigenas, em verdade asmesmas constituiam inicialmente as mesmas constituiam uma única comunidade, porém houve uma divisão entre os mesmos de modo que atualmente uma comunidade habita em terra firme no município de Curaçá (BA), e a outra habita uma ilha. Este grupo pertencia inicialmente aos Atikúm, que habitam historicamente a Serra do Umã, localidade na qual se circunscreve a sua história inclusive mítica, como nos aponta Grünewald, tanto que a maior parte dos indivíduos destas duas comunidades nasceram na Serra do Umã.



Segundo Silva (APUD ATHIAS, 2007):



 



“O grupo Atikum está localizado na Serra do Umã, na cidade de Carnaubeira da Penha, sertão pernambucano , a 494 quilômetros da cidade do Recife. A reinvidicação étnica ocorreu em 1949, sob a atuação do extinto Serviço de Proteção ao índio (SPI), que conferiu a ‘identidade indígena’ à população da Serra do Umã, após a objetivação da prática ritual do toré, festa tradicional de caráter sagrado” (Ibidem, p. 195)



           



Apesar da ocupação inicial deste grupo se dá na Serra do Umã as dinâmicas envolvidas nesta comunidade levaram à sua apropriação de territórios diversos na região de Santa Maria da Boa Vista e Curaçá. 



            Realizamos entrevistas com ambos os grupos, primeiramente com aqueles que habitavam as ilhas, em  special pelo fato de que o cadastro inicialmente foi impedido pela comunidade, fato este que se deveu por uma confluência de fatores, dentre eles a ligação política deste grupo que não mais reconhece como líder  Djanira, que é a cacique do grupo que habita em Curaçá, passando a ter como referencial "Dona Lourdes" cacique dos Truká.



            Esta ligação se mostra importante ser enfatizada devido ao contexto histórico no qual se inseriu o processo de Etnogênese desta comunidade, pois os Truká, assim como este grupo dissidente, também habitam ilhas e seu processo de reconstrução identitária se deu a partir das consições produtivas que a ilha viabiliza. Porém todo este processo de reterritorializaão esbarra no fato de que estamos falando de uma região na qual os contornos fundiários já foram delimitados desde os séculos XVII e XVIII, como aponta João Pacheco de Oliveira, e as populações que habitam tais terras também são tradicionais neste sentido, porém não autóctones.



            O grupo que habita a ilha encontra-se em processo de organização, até por serem originários de uma dissidência, cujas motivações não nos foram esclarecidas, eles ainda não possuem cacique nem pajé, apesar de possuirem uma liderança que é "Manuel Alvino" e a referência à "Dona Lourdes", em conversa com esta percebemos alguns fatores que se mostraram bastante presentes, como a desconfiança com relação à CHESF, também encontradas em outras comunidades, bem como a enfase a necessidade da presença da FUNAI neste processo, como os mesmos são tutelados por esta fundação decididade esta presença se faz essencial, ainda que por limitações técnicas a mesma não possa atender todas as demandas reais da comunidades indigenas.



            O processo de resistência já era esperado, tendo em vista que todo o processo de formulação identitária perpassa a questão territorial como já enfatizamos. O "ser índio" passa por pussuir terras indigenas. Porém no caso da comunidade que habita as ilhas sua ocupação é recente, contando cerca de 5 anos na região e em torno de dois na ilha, encontrando-se ainda em processo de formulação sua identidade territorial.



            De toda forma eles se percebem enquanto portadores de uma situação atual privilegiada, tendo em vista as condições referentes ao fato de morarem em ilhas, sendo importante de destacar neste momento que a Serra do Umã se localiza em uma região de baixos índices pluviométrico o que faz com que a percepção dos mesmos com relaão à uma região onde o acesso à água não configura um problema seja diferenciada. Logo no que tange a este grupo as ligações políticas dos mesmos, em especial com os Truká, a necessidade de afirmação identirtária através do território e a percerpção de que se encontam em sua situação privilegiada – ainda que em termos produtivos eles só consigam produzir o mínimo para a subsistência – são fatores que se posicionam de forma enfática no que diz respeito ao conflito.



            Deste modo uma proposta que vise minimizar o mesmo deve contemplar não apenas um processo franco e massivo de comunicação e esclarecimento, como também elaborar uma proposta de relocação e reorganização produtiva que se mostre interessante, neste sentido o acess

Voltar
escort bayan
Júpiter.com.br - Esmeraldo Lopes - Todos os direitos reservados