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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
CAÇOADA CRUEL
Esmeraldo Lopes

Darcy Ribeiro pensou... Ele vivia a pensar nas coisas do Brasil. Por isso deu pontapés nos muros da academia e chegou até as cozinhas, olhou os quartos, sentou-se nas salas das casas de Joãos, de Josés, de Marias, de Firminas... Pisou no chão de ruas de morros, de favelas, de cidades próximas, de cidades distantes... Darcy Ribeiro acocorou-se em rodas de conversa, escutando, falando com índios, com desalentados, com gente suada, quebrada pelos maus-tratos das labutas suarentas. Circulou entre ricos, médios, remediados e judiados. Deparou-se com o brilho de esperança acanhada circulando nos olhos de mães, de pais, de avós que só conseguiam vislumbrar algum futuro para seus filhos através da crença forte na força da fé. Deparou-se com o descaso de pais, de mães com as crias de sua rebentação sexual, de sua parição. Darcy Ribeiro não se acostumou a ouvir os lamentos, os suspiros de impotência dos brasileiros. E se atordoou diante dos sorrisos alegres da inocência abandonada nadando em rostos infantis. Vislumbrou a eliminação dos caminhos de desgraça ofertados às crianças, aos adolescentes filhos do povo Brasil. Por tudo isso e por muito mais disso, Darcy Ribeiro se aprofundou em pensar. E, nesse pensar, também invadindo sua mente o estar nutrido, estar de bem-estar de pessoas bem nascidas, bem criadas, bem posicionadas na escala social, brotadas no solo brasileiro. Estar de bem-estar desenhado nos corpos saudáveis, nos trejeitos do andar, do sentar, do falar dessas pessoas; estar de bem-estar indicado por suas posições, aspirações e até por suas frustrações.  E essas pessoas em estar tranquilo, acalentado pela coberta do sentimento de culpa, paga com migalhas decoradas com atos de piedade passiva, de caridade; e elas em estar tranqüilizado pelo aroma, pelo afago suave da indiferença; em estar tranquilo, tranquilizado pela auto isenção de quaisquer responsabilidades sobre os problemas sociais do país. E emergindo de seu pensar, Darcy Ribeiro constatou que no Brasil a distância entre as pessoas de bom estar e as de estar dificultoso em medida maior, bem maior do que a do tamanho de um oceano grandão. E bateu a cara na verdade mostrada pela razão: Para os filhos do povo Brasil, o caminho de fuga do mal-estar, educação. Mas educação, educação de verdade, com a missão de fazer do Brasil um Brasil nação, um Brasil país.



Educação... Os pais... Muitos pais ancorados na prostituição, nas drogas, no tráfico, engajados em quadrilhas bandidas... naufragados na meliência, sem condição moral, desprovidos de disciplina, de amparo psicológico e cultural para suster suas crias. Muitos, muitos pais consumidos por atividades extenuantes em empregos formais, em subempregos, submetidos a jornadas excessivas de trabalho, a deslocamentos longuíssimos, a períodos curtos de sono, sem poder, sem dispor de condições econômicas, intelectuais, mentais e de tempo para agasalhar, acompanhar, orientar, conviver com os filhos. E as crianças envoltas em ambiente bruto, degradado, entregues a si, ao dispor dos ensinamentos desbragados do mundo, aflorando animalidade, deitadas no desregramento, na frustração, orientando-se pela batuta da estupidez do querer sem freios de consciência, sobrevivendo nos traçados das regras ditadas pela lei do mais forte. Por esse ir, crianças nascidas no Brasil crescendo sem pegar o cheiro, o paladar, os trejeitos, os costumes, os sentimentos, o comportamento da gente brasileira, distantes de qualquer vento de compaixão, incapazes de autocompaixão. Escola? Diretores, coordenadores, professores, simplesmente “funcionários” se plantando em comodidade, aguardando o dia do pagamento, reclamando dos salários, complacentes com a baderneira dos estudantes, ofertando-lhes notas, atribuindo-lhes presenças, eximindo-se de responsabilidades, culpando o sistema. Alguns desses “funcionários” culpando o sistema para, no puro, no puro da irresponsabilidade, justificarem sua quietidão; outros vendo saída apenas pelo caminho de revolução: “O  problema é o capitalismo!”. E esses, em obra de doutrinação cerrada, estimulando desregramento, condutas de contestação barata, sem fazer, sem querer fazer desempenho do trabalho contratado. E tanto a postura desses como a daqueles, desaguando não apenas na perpetuação da situação, mas no aprofundamento da desgraça dos estudantes. Foi em ver mais ou menos como esse que Darcy Ribeiro propositou criar escola, estruturar plano de educação para fazer dessa gente, gente. Plantar-lhes hábitos, querer, consciência de existir, desejo de conquista por suor de mérito, perspectivas de ser ser humano. Escola assim, educação para esse assim, CIEP – Centro Integrado de Educação Pública. Um novo sistema, longe do padrão vigente. Suprimento alimentar, provimento higiênico, de saúde, assistência e acompanhamento educacional dentro e fora do período de aula, prática de novos hábitos, aprovisionamento de meios necessários para a superação das dificuldades do aprendizado dos estudantes, cultivo de dignidade, vislumbre de futuro. Essa escola, outra escola. Professores, diretores, coordenadores na regra do comprometimento enquadrado em procedimentos de responsabilidade, acompanhados; estudantes cobertos por direitos, obrigado ao cumprimento de deveres. E tudo correndo na linha do objetivo da busca de desenvolvimento de personalidade autônoma, de capacidade, visando o desenvolvimento das potencialidades das crianças e adolescentes pobres em condições idênticas a de estudantes afortunados pelo sacrifício ou pela fortuna dos pais possuidores de melhores condições, comprometidos com o futuro dos filhos.



Darcy Ribeiro buzinou CIEP no ouvido de Brizola. Brizola, Governador do Rio de Janeiro, não titubeou. Gritou: “CIEP, não, CIEPs”. E a obra levada a acontecer. 1985, o começo. Planos, reflexões, discussões, preparação, treinamentos, adequações... Prédio projetado nos traçados ditados pela atenção de Niemeyer. Ventilação, luminosidade... instalações adequadas, segurança, tudo dentro de atendimento de existir sadio, decente, digno. E, com pouco, vozes e corpos, infantis, adolescentes enchendo os Cieps de alegria. Professores inquietos, buscando nova compreensão, defrontando-se com os limites de si, procurando superação; diretores em resolução de problemas e problemas muitos. As crianças, os adolescentes contemplados, em novo estar; seus pais satisfeitos. Mas os opositores de Brizola em revolta. Opositores: a esquerda, a elite carioca, a elite do Brasil. E a eles se juntando contra o projeto Cieps, tachando-o de eleitoreiro, de elitista, os sindicatos de professores e professores do sistema convencional. Eleitoreiro porque na graça do povo e o povo o abraçando como via de solução para a saída de seus filhos da crueldade do abandono; elitista porque implicando gastos elevados, porque percorrendo caminho de busca do desenvolvimento de mérito, conduzindo os estudantes a vida de disciplina, a domínio consistente de conhecimentos, a adoção de posturas dignas, à busca de querer querer ser mais. E se os políticos de direita, de esquerda, atacando os Cieps pelos aspectos já ditos. Professores da rede convencional e suas representações, aumentando as condenações, batendo contra o processo de seleção e contra a situação de diferenciação dos membros do dos quadros funcionais dos Cieps; batendo contra os procedimentos pedagógicos neles adotados. E os argumentos dessas contestações espetados na bandeira da mediocridade paulofreiriana, mediocridade deitada na colcha da vitimização. Vitimização pintada com o fingimento de manifestação de solidariedade aos oprimidos.



Enquanto os opositores em obra de detratação, os Cieps navegando, subsistindo aos ataques, fazendo-se vigência, cativando atenção, fertilizando o nascer de um povo com sorriso dentado, falante em sotaque afinado, expressando-se sem tropeço na escrita, perseguindo a compreensão de seu mundo. Cieps, modelo em promessa para o Brasil. E assim indo. 1994, Brizola deixa o governo do Rio, não é eleito presidente da República. E veio vingança combinada com desprezo. Os Cieps entraram em espatifo. Prédios sem manutenção, quadros profissionais estraçalhados, estudantes re-entregues ao mundo do descuido. E, dos Cieps, o que perseverou, perseverou como sombra estuprada. O que seria centro integrado de educação foi tomado como escola com frequência em tempo integral. Educação tendo como medida o tempo dos estudantes jogados dentro de um prédio. Tempo preenchido com qualquer qualquer. Logo, logo nem o tempo integral. E o retorno exclusivo a discusseiras, a falatórios vazios. Falatório: educação de qualidade; desenvolvimento da consciência critica; pedagogia do oprimido; educação de acordo com a realidade; educação como base da nação, educação inclusiva. E os Cieps foram plenamente condenados ao esquecimento, ao apagamento de seu existir. O retorno à exclusividade da culpabilização do sistema como justificativa para nada fazer ou para fazer qualquer fazer sem prumo de responsabilidade.



O país no bagaço educacional. E a solução da bagaceira procurada através de tapeação. Tapeação “democrática”. E por essa tapeação, a imposição de regras que forçam as escolas a se adaptarem às exigências de realidades, de situações degradadas, de mediocridades; tapeação pela adoção de procedimentos para reduzir exigências e impor a promoção dos estudantes a todo custo; tapeação pela feitura de leis, de medidas industriosas para garantir o acesso, a permanência de discentes dentro da escola e obrigar os professores a se curvarem não só aos estudantes como também aos pais, aos caprichos das instâncias pedagógicas e administrativas. Para o êxito desse empreender, recompensa aos “professores” indiferentes, cúmplices, desmazelados, com guarnição de autoestima no bolso, fertilizados no sossego de vida miúda. Recompensa aos “professores” progressistas por se limitarem ao discurso doutrinador, abstrato, distante; por não causarem incômodo para a administração; por fazerem uso conveniente dos procedimentos pedagógicos recomendados, das normas educacionais e do desleixo administrativo; por promoverem os estudantes sem observância de desempenho intelectual; por se mancomunarem com a direção e com os “professores” indiferentes em pacto de cumplicidade tácita visando convivência tolerante. A estes, “professores” tolerantes, “professores” progressistas, a recompensa: tolerância aberta a todo o proceder e até ao nenhum proceder, cargos, ausência de cobrança. Aos professores professores, punição. Punição por exigirem e cobrarem, de seus alunos, responsabilidade, disciplina, desempenho das atividades, por exigirem o empreendimento de esforço para a superação das dificuldades; punição por se indisporem com os descalabros de diretores, do corpo pedagógico, por se conflitarem com os “colegas” progressistas, com os “colegas” indiferentes. E como medidas de punição, representação e exposição desses professores como seres intolerantes, incompreensíveis, cruéis, rígidos, frustrados; prontidão de reprimenda por motivo qualquer; distribuição de carga horária, horários e turmas na medida de vingança; criação de situações fomentadoras de indisposição de “colegas” visando o seu isolamento; indiferença e atribuição de razão a alunos indisciplinados em atos praticados contra eles. E tudo isso sob a batuta de diretores irresponsáveis, coordenadores à-toa, da polícia antieducação disfarçada com o nome de corpo técnico pedagógico.



No descambo do acontecer educacional, o surgimento de mais um fruto genuíno do Brasil: o estudante que não precisa estudar, só precisa do corpo. E o corpo submetido a deslocamento empurrado na direção da escola, embalado pela expectativa de vida liberta, farejando prazer miúdo. No caminho das escolas, nas escolas, a massa caótica de crianças, de adolescentes em postura de relaxo, de vagabundagem, reproduzindo traços malandros, soltando gírias, esbanjando indisciplina, desrespeito, elevando a autoestima pelo vínculo com gangs, absorvendo valores de subcultura bandida. E quem fora desse ritmo, quieto-calado, acocorado, no canto!, para não apanhar, para não tomar vaia. Professores desses alunos, dessas escolas? Professores professores como já dito: escarnecidos, odiados. Os “professores” progressistas, os “professores” indiferentes, planejando viagem, calculando a aquisição do próximo veículo, cuidando para pagar as parcelas de suas moradias, esforçando-se para colocar seus filhos em escola bem diferente das que “lecionam”, participando de seminários, de reuniões, de congressos, apresentando atestado médico para abonar faltas e quando de corpo presente nas salas, discursos ideológicos, vômito de qualquer qualquer de algum assunto, mandando os alunos fazerem trabalho de grupo, discutir temas pelo puro achar do próprio achar sem apoio em textos, com apoio textos de uso em cursos de graduação, de mestrado ou pegos em jornais. E isso sem direção de plano, com o  mero objetivo de encher tempo. Observância de conteúdos programáticos? Hum!!! Hum, hum. E assim como os alunos não precisam estudar e observar normas, esses tipos de professor também não, nem cumprem regras. Contudo possuem o atributo mágico de ensinar sem nada ensinar a quem nada aprende e a quem nada quer aprender, e conseguem obtenção de sucesso pleno através da aprovação geral das crianças, dos adolescentes que têm a infelicidade de ser colocados nas classes regidas por eles. Estou sendo leve, nem falei do jeito como alguns professores se trajam para se apresentarem nas escolas: bermuda, chinela, camisa regata, boné, decotes sexualizados, vagina estufando em briga com a calça, calcinha acenando, calça se afundando na bunda de professoras, professores com calça em jeito de pijama, calça descendo, cueca olhando o mundo querendo cair, o rego!... Celular durante a “aula”? Atendem, param a “aula” e atendem. É rosário para reza longa!...



No seguir do debulhamento do rosário de desgraças, a política de redução de exigências para promoção e permanência de estudantes nas escolas, de promoção empurrada, de tolerância sistemática de indisciplina dos alunos. E aí, os alunos sem cuidado em proceder de estudo, sem capacidade de concentração, sem conhecimento para acompanhar os programas das séries em que foram colocados e achando que o assim é assim porque é assim mesmo que deve ser. A maioria dos professores, por seus atos, por suas posturas, alimentando esse pensar, facilitando, arremessando os alunos para frente, fazendo o jogo dos pedagogos, dos diretores, dos coordenadores, do governo. A ação educacional consistente inviabilizada pela falta de pré-requisito dos estudantes, por falta de capacidade intelectual e moral de muitos professores, pelas barreiras postas pelas normas, pelo corpo administrativo e técnico. Empastelamento.



Os estudantes de escola pública avistados pendurados nas pontas do rabicho educacional, arrastando os pés no chão, ficando pelo caminho. Ficando pelo caminho por motivo de evasão, de reprovação. Evasão por não suportarem a agressividade, a relaxidão do ambiente; por não verem sentido no nada fazer oferecido pela escola; por serem atraídos pelo mundo de vadiagem plena. Reprovação pelo fato de não comparecerem às “provas” por motivo à-toa, por não entregarem os “trabalhos” solicitados. Qualquer riscado em papel valeria, mas até disposição para isso, rara. Mesmo assim, às vezes, aprovados, como o acontecer aprovados também alunos há muito transferidos, desistentes, mortos.  No seguir do sucesso empurrado à força de tapeação, os estudantes de escola pública fracassando em provas de seleção para o mercado de trabalho, para concurso, para acesso a cursos de segundo grau, para acesso a cursos universitários. E diante dessa topada, os antigos opositores dos Cieps, “professores” progressistas, “professores” indiferentes, indignados, repudiando o acontecer, reclamando da situação, classificando-a como prática discriminatória, como prática de exclusão resultante de critérios “selvagens” baseados na meritocracia, no elitismo da sociedade promotora de injustiças, de desigualdades sociais. E contra a meritocracia, contra o elitismo, contra as desigualdades, medidas de inclusão social. Medida de inclusão social: cotas; redução de exigência de conhecimento, e até eliminação de qualquer modo de avaliação, para acesso a cursos; expansão da rede educacional sem observância de critério de qualidade; alargamento da oferta de cursos; distribuição de bolsas de estudo; acesso a financiamento para custeio de cursos universitários. Cota para estudantes de escola pública, cota para pobre, cota para negro (e aqui a alquimia de acabarem os mestiços do Brasil, transformando os pardos em negros). Cursos presenciais, semipresenciais, à distância... Faculdades plantadas nas esquinas de cidades grandes, em cidades pequenas. Empresários do setor de educação com os dentes arreganhados, sentindo os bolsos pesando, olhando os estudantes com o mesmo olhar de comerciante verificando mercadoria estocada. Professores, diretores de universidades públicas, de faculdades privadas, falando em pesquisa, em qualidade de ensino, em produção acadêmica... Mas a produção acadêmica, produção de quem faz de conta que faz se apoiando em dizeres vazios com experimento, com pesquisas 90% saliva ensebada; e o “ensino de qualidade” baseado na redução ampliada de exigências com os alunos. E os alunos sem nível para fazer curso de segundo grau de qualidade média, mas pedantes!, u n i v e r s i t á r i o s  sapientes em sabedoria de refrão. Professor criterioso? Ou cai fora ou reprova quase todo mundo. Os alunos cotistas com alegria explodindo pelos cantos da boca, prenhes de orgulho por não precisarem cultivar competência, repudiando caminho de mérito; os alunos dos cursos de instituições privadas, e até de instituições públicas plantados nas esquinas de cidades grandes, de cidades médias, nas cidadezinhas, arrotando analfabetismo aureolado com rótulo universitário. As estatísticas mostrando sucesso. É melhora piorada. É o não sair do lugar, tendo-se impressão de estar caminhando. “Inclusão abstrata, exclusão concreta”. E quando a OAB divulga o resultado da prova de proficiência, bagaceira. E quando é publicado o resultado de concurso público, frustração. “Inclusão!”, inclusão! “A OAB exige demais! Repúdio à exigência da Ordem.” “Cota para negros no serviço público!” Empresas privadas também fazendo recrutamento, impondo critérios. E em resposta aos critérios adotados por elas, acusações de racismo, de discriminação, de não observarem a realidade.



A situação da educação ladeira a baixo... e descambando. Apreciação de incompetência como ato revolucionário, popular, democrático. Solução dos problemas por meio de falsificação, de negação dos fatos, de alteração de nomenclaturas, de criação ou refutação de realidades através da construção de narrativas (narrativa, discurso arbitrário para invenção, para alteração, para desprezo, para anulação de ocorrências, de fenômenos naturais, sociais, históricos). Assim, tudo simples. Para se compreender e explicar uma sociedade basta decorar alguns jargões: “sistema”, “desigualdades sociais”, “racismo”, “capitalismo”, “injustiça”, “exclusão”, “exploração” “formas de opressão”... e botar uns verbos entre as palavras. E, no seguir da mesma linha, para a solução dos problemas, o toque da magia inclusão social e o uso de engenhos astuciosos que elevam os indivíduos, alocando-os nos postos desejados, definindo-lhes papéis, “assegurando-lhes” direitos. Tudo isso sem nenhuma contrapartida com cor de dever, de conquista, de mérito, de autossuperação. Nesse pensar, nada que gere reprovação, tolerado. Reprovar, enquadrar, disciplinar, atos de exclusão. E os comandos: “pagamento de dívida histórica”, “reparação das desigualdades sociais”.  E “os excluídos” postos em postura de incapazes, inválidos, passivos, esmolés, esperando migalhas com sorriso de esperança, acomodando-se, deitando na mediocridade do que lhes for dado. Deixando-se dominar mais e mais, e mais e mais se degradando enquanto guardam o sentimento de que estão superando a sua condição. E a dificuldade para que vejam que esse sentimento é ilusório, inimigo. Dificuldade fortalecida pelo aparente sucesso certificado pela progressão escolar facilitada, pela ocupação de vagas em escolas, em faculdades e em repartições públicas através de cotas; pelo acesso a faculdades particulares, quase sempre fajutas, por meio da combinação cota, bolsa de estudo, financiamento. E os negros sem perceberem que as cotas, ao invés de lhes elevar, confirmam, fortificam o preconceito de sua inferioridade racial. E negros e pobres sem perceberem que as cotas os carimbam com a marca de incapazes, camuflam problemas, perpetuam o descaso educacional. O povo, o nosso povo, tratado como besta. E isso é uma verdadeira caçoada. É uma caçoada cruel. Caçoada cruel vinda dos atos, das palavras, do pensar dos mesmos que condenaram os Cieps.



                                          - X -



Mão no queixo, cabeça triste. 2002. Na UnB alma compadecente se deu que lá quase não havia negros nem como estudantes, nem como professores. “Negro excluído.” Foi aí que veio a ideia: arranjar meio dos negros entrarem na universidade. E o meio engenhoso, cota. E cota foi feita. A discussão se assanhou Brasil adentro. E no bafo dela, a constatação de raros estudantes universitários provenientes de escola pública. “Estudantes de escola pública também excluídos”. Motivo: o caráter ruim-horroso-péssimo-medíocre da educação pública nos níveis fundamental e médio. Mas na escola pública, negros, pobres e pobres mais pobres. Então também cotas entre os pobres. Aí, cotas raciais, cotas sociais para os estudantes de escolas públicas. Ano 2012, Lei de Cotas para correção da dificuldade de acesso de negros, de alunos da rede pública à universidade no Brasil todo. Estudantes negros, estudantes da rede pública em ascensão pelo subir de empurrão, por carona em elevador. Mas o pai, a mãe do problema, lembrem-se, deitado na educação não elitista, na estrutura e funcionamento das escolas “democráticas”. E aqui vem: de 2002 até 2012, qual foi a pá mexida para corrigir o problema da educação pública? E o que foi feito de 2012 até 2017? Silêncio silencioso. Onde andam os inimigos dos Cieps? Inimigos dos Cieps: políticos de esquerda, a elite, professores progressistas, professores indiferentes, sindicatos de professores. Andam defendendo inclusão. E enquanto defendem a inclusão, as escolas públicas pioram, os índices educacionais do Brasil caem, a universidade afunda, os serviços públicos se degradam. E olhe que tivemos treze anos de “governo popular”. E durante o governo popular rachadura, fofo, aceleração da deterioração material, moral, organizacional.



17-10-17


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