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A PROPÓSITO DO PRECONCEITO
Esmeraldo Lopes

Multidão, esse nome temeroso, que se forma à imagem de monstro-sem-cabeça é algo que causa calafrio em qualquer sujeito que não tenha sido atingido pelo mal da demência ou que dela tenha se curado. Nos séculos e séculos afora as multidões sempre praticaram as maiores barbaridades, sempre com a aparência de motivo justo. Não é preciso que haja reunião de milhares de pessoas para que se tenha uma multidão, basta uma idéia, um valor em torno da qual centenas, milhares, milhões de pessoas se encegueirem para que apareça esse monstro-sem-cabeça, exibindo suas entranhas horripilantes. Por vezes, vários são os monstros que simultaneamente aparecem, impondo conclusões, digladiando-se, sem a permissão do alimento da sanidade. Refletindo sobre esse assunto, Charles Mackay, vivente do século XIX, expressou: “Os homens, já se disse muito bem, pensam em bandos; e se verá que eles enlouquecem em bandos, ao passo que só recobram a lucidez lentamente, e um a um”. Acontece que é rara a possibilidade de sobrevivência desse “um”. É que quando esse “um” aparece, é tomado como traidor, inimigo... e logo é postado para escárnio, vingança e alimento do monstro-sem-cabeça. Inimigo. Toda multidão se faz em uma idéia, em ação contra um inimigo.

Ainda que lato o mundo e longo o percurso da humanidade, as multidões construíram um ponto, ou como na linguagem dos feiticeiros, uma encruzilhada comum para purgatório das impurezas do mundo.

Preconceito. Está aí o inimigo das multidões de nosso tempo. É contra ele que elas agrupam seus corpos sem cabeça, e, de vários caminhos, convergem na direção da mesma encruzilhada. E na encruzilhada, o vozeiro atabalhoado decretando o fim do preconceito, exigindo tolerância, condenando julgamentos, malhando toda sombra de discriminação. E quando esses monstros-sem-cabeça se percebem, se tomam como inimigos, e na reciprocidade se acusam de discriminar, de julgar, de intolerância, de preconceituar. E ninguém mais sabe o que falar, o que fazer, o que pensar, que tudo é condenação, e toda condenação vem no som estridente de um grito: preconceito! E o grito de preconceito se faz acompanhar de uma oração batizada com o nome de tolerância. Tolerância das sentenças: não me julgue, não me discrimine, me aceite.

No passado a oração contra o preconceito era inteligível. Ela se dirigia contra as atitudes de uma elite enobrecida pelo massacre de subjugados a ferro e dor. Sobraram heranças malignas disso. E a oração ainda tem fundamento de amparo pelos rescaldos vivos da história. Mas não é esse o caso que alimenta a grande parte dos gritos contra o preconceito, no agora de nossas vidas. Agora tudo é preconceito, e de tudo o ser, não se sabe mais distinguir conceito de preconceito. E de tanto haver condenação contra preconceito, sem a devida conceituação do que ele de fato seja, virou dito vulgar não ter preconceito.

As multidões invadem os centros de difusão, os centros de decisão. Declaram em alto brado condenações contra o preconceito. Transformam suas sentenças em leis, e ter preconceito passou a ser crime. Condenação moral, condenação legal. “Eu não tenho preconceito”, “Isso é preconceito”, “Aquilo é preconceito...” e vai o suceder do rol sem fim. E as pessoas temendo deslize, se esforçando, reprimindo seus íntimos, querendo se enquadrar. Nesse que nesse, titubeiam, fingem aceitar e até fingem gostar. Vivem que vivem na tolerância do que não toleram, se fazendo indiferentes. Assumindo a feição da indiferença fria dos anjos. Mas os anjos são anjos porque não têm vida. “A indiferença é o peso morto da história”. Foi isso que você disse Gramsci?

O amorfo social. Como não é permitido censurar, a não ser que seja o preconceito, tudo o mais é permitido, e entramos no reino da permissividade, a mãe... a mãe da promiscuidade. Medo e vergonha... Abolir o medo e a vergonha. De que mesmo as civilizações foram feitas, Norbert Elias? Mas como tudo é constrangimento, deixe-se a promiscuidade andar.

Eu não estou nesse discurso. Eu sinto, eu gosto, eu odeio, eu tolero, eu intolero, eu julgo, eu tenho conceito e tenho conceitos que chamam de preconceito, e tenho preconceito. Não tenho que gostar do que não gosto, de aceitar o que não aceito, de tolerar o que não tolero. Eu vivo e tenho na vida um campo pessoal, e que se danem os imbecis e os otários enquadrados na civilização da promiscuidade, seus promotores, beneficiários ou simplesmente omissos. Não sou anjo, detesto tudo que é angelical e temo as pessoas a quem todos fazem consideração. Faço uma proclamação: um sujeito que não tem preconceito é um insensível ao mundo externo. É um ser que já morreu, ou que sofre de tão grande demência que perdeu a capacidade de reagir. Se vivo, se sem profunda demência, todo ser tem preconceito. E a pior forma de preconceito é o silenciado, aquele adormecido na simulação.

A lei... a lei de combate ao preconceito, na maioria absoluta das vezes é burra, estúpida. Estúpida por emergir da latomia das multidões encegueiradas. Como uma lei pode dizer o que devo sentir, o que devo pensar, o que devo gostar, ao que devo ter afeição ou ao que não devo ter aversão? Uma lei assim é assassina. Invade o íntimo e assassina a humanidade de cada ser. Se a intenção do seguir é esse, porque não transformam logo em lei o receituário exposto no livro “O Admirável Mundo Novo”?

Ponhamos as melancias no acomodado da carga: quando alguém manifesta insatisfação pela fumaça do meu cigarro, não posso acusá-lo de atitude preconceituosa. É incômodo mesmo! Quando me dizem de algum europeu, de logo sinto o cheiro de ardido. É preconceito? Não. Todos sabem que os europeus não são chegados a higiene pessoal, pelo menos no nosso conceito de higiene. Se existem exceções? Claro, mas não posso fazer regra de exceção. Também não tenho que tolerar um terreiro de candomblé fazendo baticum na vizinhança de minha casa, por reconhecer o direito de existência de uma religião. Uma coisa é discriminar, outra é reconhecer a impropriedade das coisas.

Mas o que querem os que fazem parte dos monstros-sem-cabeça chamados multidões, com suas orações desafinadas na encruzilhada? Querem que seus preconceitos sejam reconhecidos como conceitos. Ou melhor, querem mudar o sentido do termo conceito, e o acoimam de preconceito para dizerem: “Não me revelem”, “Agüentem minhas inconveniências”, enfim, “Inexista”.

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