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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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MULETA E REMENDOS
Esmeraldo Lopes



O Brasil é um país, mas não é um país que se fez no jogo do acontecer franco. O seu nascer já com o mando da mão forte de um Rei agarrada a um porrete, impondo querer sobre comandados servis - funcionários da Coroa, fazendeiros, comerciantes, religiosos, enfim, membros, grupos da elite -, nutrindo-os com privilégios, cobrando-lhes fidelidade cega. Os comandados servis postados nos graus hierárquicos superiores, avançando sobre os de grau hierárquico inferior. Os de grau hierárquico inferior, encolhendo-se, pondo atenção na direção que apontam os posicionados acima. E todos eles, sob a benção da mão forte do Rei, avançando sem regra, sem freio, insaciáveis sobre a tropa amarrotada de ninguéns apelidados com o nome povo: índios, brancos pobres, escravos, mestiços. Os ninguéns, atarantados, curvados, pondo-se em prontidão de atenção e obediência generalizada. Assim fomos sendo feitos e nos fizemos no suceder da história. E até pegamos uma frase, não sei se genuína ou se trazida de outras terras, para lubrificar nosso caráter: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Reatualizando, lapidando continuamente esse dizer, a introdução do Poder Moderador na primeira constituição do Brasil. Com esse poder, o Imperador se mantendo acima de tudo, em pose e condição de segurar o porrete na mão, garantindo seu livre arbitrar. No surgimento de briga entre grupos da elite, o Imperador fazendo ditado, remendando solução de agrado, botando cada um em seu canto, decretando determinação de vida em paz: “Entendam-se”! “Não briguem!” “Obedeçam!” Mas frente ao povo, o Imperador usando o porrete sem clemência: “Onde já se viu o povo querer querer?!” E toda vez que apareceu algum movimento do povo ensaiando insatisfação, botando cara de rebeldia, o porrete deitou. Gente foi quebrada, mortos foram exibidos aos pedaços em praças, corpos inteiros pendurados em postes, outros deixados embalançando em forcas. E mesmo quando o Brasil já estava respirando debaixo da bandeira da República, a elite se agarrou às botas dos militares pedindo intermediação deles nas desavenças entre si, na proteção contra o povo. E os militares abraçaram sorrindo o Poder Moderador. E se já haviam lançado mão dele ao proclamarem a República, o fizeram pela segunda vez ao responderem aos viventes do Arraial de Canudos - um bando de beatos com querer de querer próprio – com o grito: “Fogo neles”! E quando não foi morte por fogo de chumbo, foi morte por “gravata vermelha” – sangramento na altura do pescoço para a vermelhidão descer se enlarguecendo em faixa na direção do umbigo. O mesmo proceder com outros movimentos vindos da gente vivente no mundo amarronzado por poeira, por mistura de sangue. É a história! E até em situações de acontecimentos de inclemência do tempo, o povo foi cuidado com tratamento de chicote. Ceará, 1932. A seca tangendo o povo. E ele, aturdido, em debandada das fazendas, das cidades pequenas, açoitado pela fome, pela sede. Mãos levantadas na direção do céu, olhos em aperreio de agonia, miados chorosos saindo das bocas de restos de vidas infantis, mortos lastreando os caminhos. “Deixar o povo sair não! Confiná-lo em Campos de Concentração, para não criar perturbação em Fortaleza, nas cidades grandes”. E nos Campos de Concentração, o povo gritando, rezando, clamando, morrendo. Os mortos fedendo insepultos, mas o governo, a elite, distante. Assim, o povo colocado, lá, no canto, de cócoras!

A elite nunca quis correr o risco de conquistar, de reivindicar, de fazer a si por si. Botou em mira apoiar-se debaixo da proteção de porrete, transformando-o em muleta de seu existir. Quer tenha sido no Império, quer seja na República, apóia-se nele e vai vivendo, costurando seus desacordos com linha de conchavos. Toda vez que não consegue se equilibrar por acordo ou conchavos, uma parte dela procura apoio nos militares e implora que lancem mão do Poder Moderador. E os militares desfilam sorridentes, fazendo intermediação, apontando rumo. Mas os problemas nunca resolvidos, sempre adiados, acumulando-se. Eis que nesse andado a classe média aparece, cresce. Aparece e cresce no jeito, gosto e cara da elite, agarrada a privilégios, cuspindo nas ordens do direito. Distancia-se do povo em terreno concreto, mas, paradoxalmente, muitos de seus membros se infiltram nas organizações dele, e cooptam suas lideranças ou se fazem suas lideranças. Surrupiam o seu querer, castram sua autenticidade, colocam palavras em seu vocabulário, plantam pensamentos em seu pensamento e o utilizam na obra de obtenção de vantagens pessoais e fortalecimento do estar de sua classe. Após ocultarem suas origens e condições, através do expediente de disfarces, membros da classe média se apresentam como vanguarda, como salvadores dos sem-voz, oprimidos e explorados. E fazem isso pelo ardil do artifício da conquista da afeição do povo pela adoção de posições e ações enganosas, pela manifestação de solidariedade vazia, pela difusão de fantasias, de ficções mirabolantes.

Insatisfações, frustrações de um lado, de outro, e mais de outro. Atritos crônicos. Os problemas se expandido, se acumulando irresolutos, fertilizando terreno para germinação de monstros. E todos põem os olhos nos militares, auscultando seus pensamentos, movimentos, intenções. E há quem repudie, em discurso, soluções vindas pela intervenção deles; há quem se inquiete pela demora dessa intervenção; há quem diga que não é hora. No entanto, a sociedade na certeza de que os militares não deixarão a situação degringolar em tormenta. E de novo o Poder Moderador se assanhando.

Escrevi o que escrevi para dizer que o Brasil está doente e geme.
Quer solução, quer definição, quer saber o que é, o que será. E isso só acontecerá quando o campo se abrir para ocorrência de jogo franco entre suas partes, culminando com a escrita de uma ordem real, sem remendos. E esse jogo, jogado pelas regras das forças de cada um dos grupos, setores e classes do país, sem o amparo da muleta denominada Poder Moderador. Jogo jogado na conta da responsabilidade de todos, sem licença de neutralidade, sem desculpa de inocência, de omissão, de ignorância. Que a sociedade, por esse jogo, encontre seu caminho, seja lá qual seja ele, independente dos métodos e recursos que venham a ser utilizados. Barbárie? Já vivemos a barbárie. O povo sempre foi lançado na barbárie e tratado como bárbaro. A elite, a classe média sempre se utilizou de métodos bárbaros para garantir seus privilégios, para se manter nas posições que ocupam. Guerra civil?! Que seja! É uma pena que com o abrir de uma guerra civil, lágrimas rolem, gritos esturrem, desgraças germinem. Esse, o preço a ser pago por uma definição do nosso ser. Quem não participar do parto e não suportar o aflorar de agonias, tape os ouvidos, feche os olhos e espere, para se submeter à ordem do vencedor..., se sobreviver.

No chegado do momento dos confrontos, que as tropas fiquem quietas nos quartéis, atentas apenas para ameaças internacionais e para a manutenção da integridade territorial, e esqueçam a sua função constitucional de garantir a ordem, porque a ordem sempre foi artificial, acochambrada e está demente, esfarrapada, podre.



02-17

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