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INDIGNIDADE BEATIFICADA ou Estrela Apodrecida
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Década de 1970. Na rua, misturados com o barulho caótico oriundo do som de aparelhos eletrônicos, de passos e vozes de camelôs e de transeuntes, de motores e buzinas de carros, os gritos expressando palavras de ordem como “abaixo a Ditadura”, “Anistia ampla, geral e irrestrita”, “fim da corrupção”. E ao acréscimo da zoada causada por latidos de cachorros, do barulho provocado pela tropa de choque, das explosões de bombas, do tropel de cavalos da polícia montada, do soar das sirenes de viaturas, o pânico dos manifestantes, correrias desesperadas em tentativa de fuga de pancadas, de dentadas de cachorro, de prisões. Dispersão. Os transeuntes em pavor, atarantados, procurando asilo em porto firme. Alguns em concordo silencioso com os manifestantes, muitos aplaudindo a ação vigorosa da polícia. E, de repente, os manifestantes brotavam com seus gritos em pequenos grupos, em vários pontos da cidade, forçando a dispersão da polícia. Como saldo, prisões. A entrada em campo de defensores: advogados de estampa corajosa empenhando seus nomes, arriscando suas vidas, advogando por comprometimento com a causa democrática, inscrevendo-se na lista de perseguidos.

Contra a Ditadura, ações de vários tipos. Como rebordosa, perseguições incessantes, aterrorizantes, sumiços, cadeia, tortura, morte. Em contraposição a isso, o aparecimento de Dom Paulo Evaristo Arns gastando seu prestígio, sacrificando sua paz, acolhendo os perseguidos, transformando sua Catedral em tribuna, esbravejando contra as arbitrariedades e atrocidades da Ditadura, com sua voz serena e segura. Nessa conta também Dom Pedro Casaldáliga, Dom Pelé, Dom Helder Câmara, Dom José Rodrigues - outros bispos, muitos padres assim. Aí, parlamentares intercedendo a favor de opositores da Ditadura em momentos difíceis, fazendo-se presentes em funerais de assassinados na luta, dando cobertura a familiares de perseguidos, transformando seus corpos em escudos em eventos públicos, em eventos privados: Ulisses Guimarães, Pedro Simon, Lysâneas Maciel, Eduardo Suplicy, Chico Pinto, Jarbas Vasconcelos – esses apenas alguns. Como combustível mental, as vozes, os pensamentos de nossos inspiradores proferindo palestras, participando de seminários, escrevendo em jornais, analisando: Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Darcy Ribeiro, Fernando Henrique, Francisco de Oliveira, Francisco Weffort, Raimundo Pereira – não dá para citar todos. Vários, jornalistas transformando seus postos de trabalho em tribuna, criando jornais alternativos. E o movimento sindical, e o movimento estudantil, agentes ativos, combativos, agitando a luta, conquistando espaços, criando fatos.

Todos os oponentes da Ditadura exigindo justiça, condenando atos de corrupção, gritando necessidade de retidão, respeito aos direitos do cidadão: um monólogo virtuoso. Enquanto a Ditadura assoprava de sua boca labaredas, sem dó, sobre aqueles que se lhes opunham ou não aceitavam sorri com aplausos para seus feitos e ações, a seus agentes e cúmplices, privilégios variados, enriquecimento ilícito como prática corriqueira, permissividade desenfreada, impunidade genérica, benesses.

Entre os adeptos da Ditadura e seus opositores, um mar de omissos, de coniventes, almejando ascensão econômica, almejando ascensão social; um oceano de indiferentes, movendo-se pelos impulsos instintivos e pelo pânico diante dos temores de forças transcendentais. Os indiferentes, mortificados, forjados em vida bruta, imersos em violência e em carência, ganhando a vida pelo consumo do corpo, encontrando na adoração a santidades, amparo alentador da vida, fazendo dos ambientes considerados sacros, pontos de veneração, lavanderia da alma. Para esses lugares, o encaminhar-se em romarias, submetendo-se a intempéries, a privações, a deslocamentos doloridos e em condições precárias, a dormidas ao relento. “Romaria só vale se for com sacrifício”.

Pula, pula, pula. Fazendo salto no tempo, eis-nos no aqui e no agora de 2013, bestificados, dando ouvido à letra de um cantar:

“Meu partido/É um coração partido/E as ilusões estão perdidas/Os meus sonhos foram vendidos/Tão barato que nem acredito... (...) Meus heróis morreram todos”... (Cazuza).

Aqueles líderes religiosos envelheceram ou morreram. Não há registro da existência de canalhas entre eles. A morte... Entre políticos, sindicalistas, intelectuais, militantes, alguns morreram impolutos. Para estes como para aqueles religiosos, o respeito eterno, enquanto perdurar a lembrança de suas existências. Aos que não morreram e permaneceram fieis a seu passado, reconhecimento, respeito, gratidão, carinho, admiração. Mas, que desgraça, muitos daqueles advogados, bravos defensores dos injustiçados, agora engajados na defesa de políticos corruptos, de playboys assassinos, de banqueiros ladrões; daquelas entidades sindicais, daquelas entidades estudantis, no hoje, todas amarradas em compromissos com o poder ou atrofiadas por ver zarolho-zambeta; daqueles seus líderes, raro é o que não está em complacência com as forças da manipulação; os partidos políticos tomaram a corrupção como agasalho, como suprimento de existência. Daqueles políticos, quase todos praticando vorazmente o que combatiam, alguns no silêncio da omissão, outros na cumplicidade, nenhum entoando a letra do velho canto que se bradava nas ruas, nos auditórios, nos jornais, nas tribunas.

Aonde chegamos? Na indignidade beatificada. O Partido Político que mais embalou a esperança do povo foi posto no poder. Uma respiração de alívio soou pelos quadrantes da nação. Mas o tempo... Com pouco tempo, denúncias, denúncias. Políticos processados, condenados por roubo, no ato da prisão, erguem o braço com os punhos travados e cabeças erguidas, estufam o peito em pose para câmeras. Ex-Presidente da República manifesta solidariedade, pronunciando: “Estamos juntos!”; Presidente da República declara preocupação com a condição de saúde de um condenado; os condenados declaram-se presos políticos, injustiçados, reivindicando reconhecimento da história; entidades sindicais, políticos, escritores, advogados, assinam manifesto acusatório contra a condenação, vendo injustiça no ato. E o presídio como ponto de romaria. Os condenados beatificados, a gatunice dignificada, santificada. Deputados, senadores, ex-Presidente do Senado trilhando no caminho do presídio, pesarosos, emprestando-lhes solidariedade. Mas essa não é uma romaria como a de lavação de alma dos “alienados”, dos “brutos”. É romaria de sofisticados, de civilizados, de gente talhada no bom uso de verbos, de locomoção no conforto de automóveis finos, de maneiras possantes. E quem os condenados? E quem os que se solidarizam com os condenados? Alguns daqueles que combateram a Ditadura na condição de líderes; que foram postos pelo povo no mais elevado nível do poder. E as santidades, no bom investigar da natureza de seus corpos, esculpidas em madeira de pau oco, exalando o fedor da estrela apodrecida.

30/11/13

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