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INCLUSÃO A PICARETADA
Esmeraldo Lopes


A Casa Grande tem um enorme poder de ressurreição. O termo não é bem ressurreição, porque o ressurreto é aquele que volta da morte. Em verdade a Casa Grande nunca morreu. Olhe-se para o Congresso Nacional, ela está lá. Mas não é só no Congresso, ela se espalha por todos os pontos estratégicos de manutenção das estruturas de poder. Atrás de quase todos os bem-sucedidos, ou seja, daqueles que galgaram algum destaque nos postos hierárquicos, está o dedo indicador da Casa Grande. Ainda é assim. Não importa que seja de forma institucionalizada ou personalizada. Sem a Casa Grande só pouca, muito pouca gente consegue se manter em posto destacado, e ainda que consiga posição por mérito próprio, tem que fazer negociação. Se não o fizer periclita, vê as portas se fecharem, conhece os termos do decreto de seu ostracismo. Como a grande maioria dos bem-sucedidos alcançou seus lugares pelos caminhos da falta de caráter e da bajulação - termo que eles sabiamente substituem por um outro revestido de pompa: articulação. Os muito poucos que de fato têm e conjugam mérito com autonomia, se pegam reclamando para si mesmos, queixando-se sozinhos. Levante a árvore genealógica dos indivíduos em posição de destaque. Se lá tiver alguém de origem na senzala ou de suas proximidades, procure ver mais e quase certamente o pegará como mordomo, como mestre de cerimônia da Casa Grande. Entre os serventuários da Casa Grande, alguns se acreditam independentes, pois que pensam que fazem e pensam o que pensam por si mesmos. Mas não, já foram contaminados pelas idéias e benesses dela, não conseguem se livrar dela, ela os habita no profundo de suas almas. A grande maioria dos que se apresentam ou têm título de intelectuais também não fogem a isso. Na verdade não são intelectuais, visto que incapazes de pensamento autônomo. São também serventuários da Casa Grande. Uns por mera burrice, outros por omissão ou pura safadeza elaboram os discursos que servem a ela, que lhe faz permanecer forte, forte e camuflada. Muitos são os exemplos cristalinos dessa evidência, mas me apegarei a um, a apenas um. A aquele que está no píncaro: inclusão. Inclusão, sempre acompanhada por um adjetivo: inclusão social, inclusão digital, inclusão educacional... Só com sorte se ouve um pronunciamento, seja ele escrito ou falado, onde a palavra inclusão não esteja instaurada.

Inclusão! De onde vem? Vem de uma história. A Casa Grande plantou sonho de sorriso no povo: “Qualquer um pode ser, qualquer um pode vencer, basta esforço! Esforço!” O povo olhou com desconfiança, afinal, mantinha-se vivo com muito sacrifício e sofrimento. Mas alguns do povo se foram batucando na direção da busca do sorriso. Longa luta cheia de humilhações, decepções, privações... Nada disso lhes era estranho, que já estava incorporado a seus modos de viver. Não acreditavam em mudança grande para si, entretanto viam possibilidade nos filhos. Um filho doutor, um filho bem de vida... e fizeram o que puderam, fazendo-se de escada, projetando para os filhos o que não acreditavam mais para si. As paredes altas, as valas muito largas. Houve quem demonstrasse sucesso na empreitada. O povo vendo, querendo subir, querendo pular. Sem querer ficar, queria abrir o caminho da conquista. Queria “ser gente”. Olhava, vigiava, perseguia o caminho da boa-sucessão. Queria-se com outros hábitos, renegando o jeito do seu ser tão sem ser. Mirava os exemplos dos que conseguiam. E o cordão dos buscadores aumentando, a pressão crescendo. A Casa Grande matutando: “Não posso deixar que essa gente me coma, esse bando de dementes que acredita poder ser”. O estrangeiro condenando: “É inumano!, é inumano!, é exclusão!” No ouvido dela ressoava o grito da rua e do mato, mas ainda era um grito fraco: “Queremos ser!”. A casa Grande assuntou, planeou, estabeleceu: “Inclusão. Isso!, inclusão!” Despachou sua voz de comando para a Igreja, para a Universidade, para a Imprensa... Assoprou no ouvido de seus serventuários: “Agora é inclusão!” A piedade se abriu sobre o Brasil: “Os pobres são gente. Coitada dessa gente”. O sentimento de culpa se plantando nas páginas dos jornais, nos escritos das universidades, nos discursos políticos, nos sermões, nas conversas... Mas um sentimento de culpa sem culpa. Na verdade, piedade. Teses, sermões, manifestações... denúncias e denúncias: abaixo o elitismo. E o povo ansiando. Queria ser, dispor de algo que lhe aproximasse da elite, sair do seu nada ser. Os serventuários da Casa Grande, seus “intelectuais”, olhando-o de cima, com a condolência dos caridosos, buscando formas de afagar sua própria piedade. Nada mais que piedade, que é na pobreza do povo que afirmam sua superioridade. Mas, e os direitos humanos? A resposta é inclusão. Uma inclusão piedosa, na medida dos incapazes, dos oprimidos. Portanto, baixar os muros, arrastar os oprimidos pelas mãos generosas da Casa Grande, conceder-lhe participação macaqueada, igualdade fingida, direitos medidos e ditados, dignidade maquiada, cidadania falseada.

Muitos do povo percebem: é armadilha: “Quero o melhor, quero conquistar. Meus filhos precisam se desenvolver”. Do meio da lama das favelas estronda uma voz, uma voz que renega todas as práticas e discursos paternalistas impingidos ao povo: “Eu quero outro caminho, eu quero competência, eu quero dignidade”. Não é uma voz isolada. Muitas outras há, para quem as portas do caminho da busca de vivência autêntica são fechadas, contra quem a Casa Grande se previne, diante da quais seus serventuários se calam e se armam, na certeza de que suas picaretadas são competentes, mas não tanto assim.

“É preciso ter cuidado!” Os discursos se afinaram e ganharam forma. “Tudo de acordo com a realidade do povo. É preciso tolerância, é preciso aceitar. O povo é oprimido, não pode excluir”. E sacodem nos ouvidos do povo: “Cidadão!, cidadania!, direitos!, participação!, igualdade!, dignidade!, respeito!, reconhecimento!...” Reconhecimento revestido de exotismo, do exotismo dos desvalidos. Conseguir sobreviver nas dificuldades transformou-se em estratégias de sobrevivência. E descobriu-se que o povo poderia viver de reciclagem de materiais, que lixeiro era agente ecológico; que as favelas poderiam ser urbanizadas; que o faminto só precisava de uma bolsa-isso ou de uma bolsa-aquilo; que o estudante mal preparado precisava de uma cota. E o cordão incluidor não parou aí: um lugar arranjado para o negro, um lugar arranjado para o pardo, um lugar arranjado para o índio. No fusco das oferendas, o povo pensou ser o que lhe disseram que já era, e nem reclama muito por morrer nos matadouros disfarçados em hospitais, em ter seus filhos sendo enganados nas escolas... Nisso vê as portas se abrindo, o futuro brilhando, afinal, os filhos viraram professores, advogados, administradores... Nivelados pela copa dos arbustos. No seu seio têm muitos com carro na porta e a maioria tem acesso a crediário. O invólucro satisfaz, nada mais que o invólucro. Mas o povo quer mais invólucro.

É preciso incluir. O povo tem direito. Mugem os serviçais da Casa Grande. O povo querendo mais, mais invólucro e sem esforço. Não se sabe porque ainda não apareceu um tese de doutorado sobre as razões de ainda não ter havido uma greve dos bolsas-renda..

Mais que invólucro é fora do real. A Casa Grande treme e o povo quer o irreal. O povo é popular e o popular cheira a vulgar. Sua vestimenta, seus modos... olhe a rua. Está tudo no desfile das ruas, nas escolas, nos ajuntamentos das festas. A coroação da estética da breguice. Cavalo bípede, sua perfeita descrição.

Os serventuários da Casa Grande olham sua obra, vêem o povo na satisfação irrefletida do nada, sonhando vazio, sujeitando-se a tudo, a tudo na busca do puro irreal, desconhecendo o real, pervertendo e se pervertendo. Sua satisfação: música rúim, bebida, ilusão e putaria. E os serventuários sintonizam suas picaretas, e continuam competentemente a agir com elas trabalhando na arte de esculpir cavalos bípedes. Os “intelectuais” dão os fundamentos, fazem seminários, simpósios, congressos, livros, artigos. Mostram os progressos, o tanto que ainda tem que ir, o que tem que fazer e os limites, afinal, é o “pós-moderno, é a inexorabilidade”. E se consolam com uma frase justificadora: é melhor do que não fazer nada. De fato, eles fazem muita coisa, muita coisa contra o povo. De tudo o que fazem, com uma só frase é destruído: - Sujeitos, isso aí, nas palavras de Martin Barbero, é “inclusão abstrata e exclusão concreta”, nada mais.







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