Árbitro relata pedra e ofensas de Diego Souza, mas não cita pênalti polêmico.
Tite elogia Bélgica e admite favoritismo do Brasil: "Pela história e o que vem fazendo"
Maioria das mortes violentas em SP é causada por conflitos interpessoais ou pela polícia.
Renca: governo revoga decreto que liberava mineração em reserva na Amazônia

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
“O silêncio dos intelectuais”
Esmeraldo Lopes

Há, agora, um reclamo circulando em jornais, em revistas, em programas de televisão, motivando a promoção de conferências e a organização de seminários: “O silêncio dos intelectuais”. Mas esse reclamo não vem da voz do povo, que este sempre habitou em si mesmo, se providenciando com os farrapos do que aprendeu nas igrejas, com os mal-amanhados ditos pelos professores no ensino fundamental, com o ouvido e avistado através dos meios de comunicação, mas se arranjando principalmente pela orientação da memória herdada, pelos remendos costurados nas circunstâncias da vida. Para o povo, intelectuais são pessoas especiais, mas especiais pela importância que se dão, pela sofisticação de si mesmos, pela distância que se põem. No dizer franco e direto, o povo admira o intelectual na mesma proporção que uma madame admira sua prataria. Não é uma comparação estúpida, pela postura daqueles que, no Brasil, se apresentam como intelectuais.

Voltando ao caso, o reclamo é chão apenas para a elite da elite do conjunto de pessoas que voltearam os corredores de faculdades. Elite da elite, que tirando esta, os componentes do resto do conjunto são “analfabetos letrados”, copiando o dizer de Milton Santos. E não importa que parte dos que formam o conjunto seja de “mestres”, “doutores”, “pós-doutores”. Aliás, é no meio destes que o problema se manifesta de forma mais grave, pois que o título se faz acompanhar pela arrogância. Como os personagens da caverna de Platão, cegam, agarrando-se ao suposto domínio de alguma miudeza a que chamam de “objeto de estudo”. Mas, como toda importância precisa da ratificação de outros, criam mecanismos para reciprocidade de reconhecimento e elogios entre iguais. Não, não são intelectuais, e tanto não são que não compreendem, indignam-se com a expressão “silêncio dos intelectuais”, e agitados por esta indignação latem: “Um absurdo! Como silêncio dos intelectuais se existem milhares de publicações científicas, milhares de dissertações, de teses de doutorado!?” Na boca deles, o remoer: artigo científico, pesquisa. Pensam-se intelectuais, mas não passam de meros trabalhadores intelectuais; pensam-se fazendo ciência, pois não sabem que o que fazem, no máximo, é tecnociência. Coitadinhos, podemos chamá-los de otários científicizados. Coitadinhos! Coitadinhos nada, estão bem abancados nas universidades, nos institutos de pesquisa, dando ordens, castrando cérebros de jovens, fabricando otários.

Na elite da elite, os eruditos, tecnicamente aptos à atividade intelectual, mas amiudados na arte de burilar conceitos, de alinhavar pensamento pensado, de trilhar por caminhos abertos. Sabem fazer pesquisa, sabem escrever, mas, embotados, refugam diante da possibilidade do pensar próprio. Refugiados no porto seguro das academias, dos institutos de pesquisa, se preservam pelo domínio vaidoso do saber alheio. Falta-lhes talento. Enquadrados, exigem enquadramento. Diante de situações adversas, resmungam em silêncio. Falta-lhes coragem. Não se aventuram aos riscos dos açoites das ondas do mar. Nisso se despem da condição de intelectuais. Como disse Darcy Ribeiro, “intelectual com medo não presta”.

Os eruditos, enredados nas malhas do pensamento iluminista, só conseguem o enxergar míope. Sabem que os conceitos que burilam se esfarraparam. E se agarram ao pensamento pensado pela força forçada de fé, nua de convicção. Precisam de “um verso novo”, reclamam do “silêncio dos intelectuais”, mas se juntam com os otários cientificizados e banem a todos os que se aventuram pelos caminhos da curiosidade intelectual, condenando-os por não obedecerem aos cânones da ciência. Cientistas, tecnocientistas, assassinos de almas, destituídos de liberdade filosófica.

O intelectual é livre e precisa de liberdade para permanecer na condição de intelectual. Afirma-se no si mesmo de seu próprio pensar. Na angústia de e seu labutar se angustia, desvenda, revela, abre caminhos seguindo pelo revolto do mar turvo. Nesse ir, é jogado na vala dos marginais, dos banidos, dos ridículos. Conhece a fogueira, a tortura, o desemprego, a humilhação. Treme no abandono das terras da solidão. E habita o abandono das terras da solidão porque não pode ter amigos, por não poder se esquivar do dever da crítica ferina, da revelação inclemente.

Não. Não há silêncio dos intelectuais. As vozes deles é que não são ouvidas. Não são ouvidas porque não se cumpliciam com o discurso estabelecido, porque não aceitam o conforto dos assentos laureados pela conivência, pela omissão. Sobram-lhes as frestas dos muros fechados, os subterrâneos.

Voltar
escort bayan
Júpiter.com.br - Esmeraldo Lopes - Todos os direitos reservados