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ENTREVISTA SOBRE PROBLEMÁTICAS DA CAATINGA E DOS CAATINGUEIROS
Esmeraldo Lopes

Entrevista realizada no dia 01 de agosto de 2004, com JOSÉ HUGO FÉLIX BORGES, 59, extensionista rural da EBDA há 28 anos, e chefe da Fazenda do Centro Experimental de Caraíbas.

Entrevistador: Esmeraldo Lopes

Informado, o entrevistado, a respeito do objetivo da entrevista ele começou a se pronunciar:

- A caatinga, principalmente nessa região da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, ela devia ter um estudo mais detalhado do valor forrageiro, do valor energético, do valor medicinal. São vários os aspectos de grande valia da nossa caatinga, mas o que a gente vê é uma degradação da nossa caatinga ultimamente com corte, retirada de lenha, carvão, e até mesmo para venda de madeira para as propriedades rurais, principalmente das áreas irrigadas do são Francisco. Hoje tá uma devastação muito grande.

O que eu tenho observado nesses tempos que eu trabalho na caatinga, nós temos muitas plantas de valor forrageiro que deve ser preservado e multiplicado porque ela tem um valor imensurável na participação da alimentação dos rebanhos da caatinga. A caatinga, ela participa de um sistema de chuva, como é o nosso aqui, que a chuva se concentra em um período muito curto, e a caatinga contribui com a alimentação do rebanho em torno de seis meses, com uma carga animal muito alta. Deveríamos determinar, em determinadas manchas de caatinga, uma carga animal orientada para a exploração forrageira da caatinga. Nós sabemos que o valor forrageiro da caatinga, se manifesta, durante o ano, de acordo com a precipitação e distribuição das chuvas. A caatinga é constituída de três estratos: o estrato herbáceo, que é rasteiro, que nasce e perece todos os anos. A depender da quantidade de chuva e da sua boa distribuição, esse estrato nasce, desenvolve e aumenta consideravelmente a capacidade de suporte, do valor forrageiro da caatinga. Nós temos o estrato arbustivo. Com uma pequena chuva, com uma chuva de 28, 30mm, a depender do período daquela chuva – muitas vezes a gente tem uma chuva rápida, torrencial, a água bate e escorre – o estrato arbustivo e o estrato arbóreo rebrota, se reconstitui. O estrato herbáceo está ao alcance dos animais num período em que ele oferece uma melhor condição de alimentação, que é a sua folhagem verde, início de floração e até de frutificação. Já tem o estrato arbustivo que também oferece diretamente, principalmente os caprinos, alimentação durante esse período. O estrato arbóreo, os animais só vão ter acesso a suas folhas no período seco quando elas... A caatinga, com a sua particularidade de desprender as folhas para resistir ao período de estiagem, então essas folhas caem no chão e os animais tem acesso e não é considerada uma boa alimentação porque elas já estão com um baixo valor nutritivo, mas pelo volume de folhas que cai, muitas vezes a depender do número de animais por hectare, ou seja, a carga animal, ela dá algum suporte que às vezes vai até o final do ano. Então por isso que nós consideramos que a caatinga tem um valor forrageiro bastante compensador, porque nós não temos chuva que dê condição de formar pasto aqui. Os capins que a gente tem por aqui, principalmente o capim africano, o buffel, ele, quando chega no período seco, seca igual ao nosso capim. Ele permanece vivo, mas sua folhagem seca. Então é diferente das regiões que chove constantemente. A caatinga em si, eu considero uma grande contribuição para o homem, principalmente o caprinocultor de nossa região.

- Você falou que existem muitas espécies vegetais de muito valor, mas não falou quais são.

- Oh, Esmeraldo, o pau-rato – a caatingueira – apesar de sua folha não ter uma boa aceitabilidade pelos animais, ela verde, pelo seu alto teor de tamina nas folhas, inibe o consumo animal. Com isso ela tem uma condição de repovoamento das caatingas degradadas. A caatingueira é considera uma planta de boa qualidade em termos de alilmentação. Ela tem 14% de proteína, com uma digestabilidade em torno de 20 a 30%. Você considera uma forrageira de boa qualidade pelo valor protéico, valor energético e o índice de digestibilidade que é a proteína que o animal ingere naquela folha e que é absorvida pelo organismo. Nós temos aí o mata-pasto que é um arbustivo de ciclo curto e que pode ser incluída nas plantas do estrato herbáceo. Ela tem 18%, quase 20% de proteína, alto valor energético e com alto índice de digestibilidade. O que nos falta é um conhecimento técnico-científico para a gente transformar essas plantas em forragem para o período seco, com a prática da conservação que seria a fenação. O mata-pasto, que é muito comum aqui na região pode contribuir muito para a suplementação alimentar do rebanho no período seco. Com o processo de fenação você só utiliza o sol para desidratar essa planta para que ela perca seu teor de umidade em torno de 80, 85% e armazenar para o período seco. Nós temos o pau-de-acauã que é uma leguminosa que nós temos aqui na região, que em função da falta de manejo racional da caatinga ele já está em extinção, mas é uma planta de alto valor nutritivo, talvez superior à leocena, que a gente importou de outros países para cultivar aqui como forrageira. O pau-de-acauã tem mais de 20% de proteína, com 80% de digestibilidade, e é originária da caatinga, com fácil multiplicação, porque ela pode ser multiplicada por semente e por estaquia. Então, se nós cultivássemos ela como uma forrageira ela poderia nos dar um resultado maior que a leocena que nós trouxemos de fora. Inclusive os nossos antepassados tiravam rama para dar ao animal de sela, porque era considerada como se fosse o milho. O animal que comia ele para trabalhar, para caminhar no campo ele dava um resultado melhor. Os enxertos, a própria aroeira... Nós poderíamos utilizar uma parte aérea dessas planta de porte arbóreo e conservar sua folha no seu melhor estado nutricional em forma de feno para suprir as deficiências no período de seca. Se você fizer uma poda racional no período que ela tá oferecendo melhor valor nutritivo e essas folhas que você desidrata, guarda para o período seco, você... Ela é comparável com essas forragens que se compra aí nas casas de ração. São alternativas que o homem da caatinga pode ter para melhorar o manejo animal, para cuidar o do rebanho. Nós temos a umburana, a baraúna, o pau-de-colher, que apesar de ser uma planta de baixo valor protéico, ela é rica em energia, e ela tem uma folhagem que permanece durante o ano. Ela aumenta em teor de fibras, as folhas, e diminui a digestibilidade, mas continua todo o ano com sua folhagem verde. O que poderíamos fazer? Uma multiplicação dessas plantas. Vamos dizer o Juazeiro, ele muda sua folhagem no mês de setembro para outubro. No pico da seca ela tá com uma folhagem verde, em condição de oferecer para os animais. Então é multiplicar essas plantas, aumentar a densidade delas na caatinga para que elas viessem a suprir essa necessidade alimentar do rebanho no período seco. Tem a Turquia. Esta planta tem um alto valor energético e a gente pode também multiplicar, porque no período seco ela está com sua folhagem verde, nas suas melhores condições de alimentação.

Da maneira como você olha a caatinga, como você encara o valor medida da caatinga, a florística para a produção de mel, o valor medicinal, que tem muitas plantas de valor medicinal, etc., ela tem um valor imensurável. No passado nós víamos uma evasão grande do tanino do angico. Lá em Poço de Fora mesmo, esse distrito possuía a maior população de caprinos no município de Curaçá, e Curaçá era considerado o município de maior população caprina da Bahia e do Brasil. Poço de Fora dessa época tinha uma população de angico muito alta, de densidade muito alta. A construção da estrada BR231 facilitou a retirada desse material da região. Por dia saía em torno de dez caminhões de casca de angico. O angico é uma planta que na hora que você corta ou quebra um galha que ele murcha, ela fecha os estômatos e aumenta a concentração de ácido anítico. Fecha os estômatos, fecha os poros de respiração. Aí ela conserva a água, e na hora dessa conservação aumenta a concentração de ácido anítico, o animal vai lá, come e morre. Mas, o angico contribuía na exploração de caprinos com a queda da flor que acontece no período seco: setembro, outubro, novembro. Nesse período é que cai a flor, que é de alto valor nutritivo e o caprino se mantinha nesse período, com uma dieta à base de flor de angico. Com a extração da casca, praticamente acabou o angico. Hoje existe poucas áreas com concentração de angico. Na nossa fazenda a gente ainda tem, porque combate a exploração da casca e ainda temos angico. Quando você corta o angico para tirar madeira, principalmente de agosto para setembro, na hora que chove ele rebrota, e em cada estaca que você corta nascem três, quatro, cinco estacas. Em quinze, vinte anos, ele já dá novamente outra estaca de boa qualidade. Na hora que você tira a casca você impede a circulação da seiva e mata a planta. Com isso nós tivemos uma grande perda na região, diminuiu consideravelmente a capacidade de suporte da nossa região em função da florada do angico, que também é uma planta de alta condição melífera. Normalmente as abelhas migram no período seco por causa de flores, então, nessa época tanto ele dava condições de sobrevivência às abelhas como também a alimentação dos caprinos. Eu digo a você o seguinte: quando a gente olha para a caatinga... O homem caatingueiro olha para a caatingueira como uma planta que não tem nenhum valor forrageiro e que a gente tem os estudos comprovados que é uma planta de valor forrageiro alto, só que o animal não come a folha diretamente no pé, mas se você cortar, desidratar, na hora que você desidrata ela perde o tanino, e na hora que perde o tanino, aumenta a aceitabilidade. A caraibeira, ela também é uma planta que normalmente encontra suas condições vegetativas melhor nas várzeas dos riachos ou em solos de boa qualidade na parte mais alta. A caraibeira tem um valor forrageiro. Ela perde as folhas, os animais pegam. Onde existe um pé de caraibeira sempre tem um animal rondando. Depois vem a floração. Nesse período debaixo da caraibeira sempre tem quatro, cinco, dez cabeças de bode esperando a flor cair. Quando caem as flores, vem as sementes que são de alto valor forrageiro também. Ela oferece uma condição nos ciclo alimentar da caatinga - porque tem as plantas que oferecem essas condições das chuvas, outros no período intermediário e outros no final da seca, que é o caso da caraibeira. O que a gente não vê, talvez por falta de conhecimento dos próprios homens que moram na caatinga, é uma multiplicação dessas plantas. Elas têm uma grande contribuição na sobrevivência do homem da caatinga. O que deveria acontecer é que se fizesse um trabalho de divulgação, as plantas que deveriam ser multiplicadas para aumenta a condição da caatinga.

Você andando pela caatinga, todas as plantas tem valor, todas elas tem uma contribuição. O caroá, por exemplo, ele flora na semana que dá chuva, tanto o caroá como a macambira, então deu a primeira chuva, molhou o solo, com oito até quinze dias começa a floração e essa flor alimenta os caprinos. Nós temos também aquela chamada pau-de-casca, sete cascas – em determinadas regiões ela tem um nome diferente – na primeira chuva, com uma semana ela tá toda florada, com três, quatro dias aquela flor cai no chão e os animais vão lá e comem. A caatinga tem um ciclo de alimentação, principalmente para caprinos, ovinos e sua fauna. Só a gente vivendo no dia-a-dia para entender e também com o acompanhamento dos estudos científicos determinar quais aquelas que devem ser mais preservadas.

Quando eu entrei na extensão rural, há 28 anos atrás, a gente orientava a produção de forragem, você pensava em desmatar uma área totalmente da caatinga e ali você plantar um capim resistente como o capim buffel. Hoje eu já não penso dessa maneira. Eu acho que você tem que fazer uma seleção dentro daquela área, retirar aqueles de menor contribuição forrageiro e jogar a semente de capim buffel para você enriquecer com capim fuffel porque ele suporta a estiagem de nossa região. Ele seca totalmente, mas ele permanece vivo, e quando chove, com oito, dez dias ele rebrota e já tem condições de alimentar ao animais enquanto o estrato herbáceo está em surgimento, somente depois de vinte, trinta dias ele está em condições de alimentar o rebanho. Se você tem uma área raleada, deixando as espécies forrageiras de melhor qualidade que você têm, tirando somente as de menor contribuição e colocar o capim buffel, você tem uma melhor condição de exploração da caatinga.

-Quais são as espécies nativas de melhor qualidade forrageira?

- Eu não posso citar assim a você, porque a gente não tem um estudo completo. Eu tenho apenas a .... Depois eu posso trazer para você, eu tenho lá na Fazenda uma relação que tem umas vinte e tantas que já foram feitas análises bromatológicas. Mas o que a gente vê aí com muita presença, vamos dizer, o pião. Tem duas ou três variedades de pião que ela resiste muito a esse tempo seco, então o que a gente vê – apenas observação sem o estudo científico – a gente acha que ele não contribui para a oferta de forragem para o rebanho. Poderia ser uma das planta eliminadas, como outras plantas que a gente sente que não são de boa qualidade, o velame, por exemplo, o animal não tem assim uma certa aceitabilidade, mas nós não temos uma análise nutricional bromatológica. Por hora a gente elege pouca coisa para ser eliminada. Nós temos análise de caixão, pereiro, aroeira, imbuzeiro, imburana, pau-de-colher, e nessas que a gente têm, somente o pau-de-colher não ultrapassa o índice de 10% em proteína, mas é rico em energia. O que a gente tem acesso a algumas análises nutricionais e bromatológicas, quase todas as plantas da caatinga são de alto valor forrageiro, apenas precisando de um ajuste técnico para saber como a gente conservar, explorar e utilizar no período da seca.

- E outros paus, o carquejo, por exemplo?

- O carquejo... O carquejo é praticamente a planta aonde você chegar e encontrar carquejo, normalmente o caprino se dá bem. Só que o carquejo ele tem um período curto, ele é um arbustivo. A boca do caprino chega ao alcance dele e quando, 60, 90 dias após o período da chuva, o carquejo já não tem mais folhagem verde para oferecer. Normalmente, você pode olhar, onde existe carquejo você conhece a carga animal pelo porte do carquejo. Se é uma região que tem pouco caprino, ele tá mais aberto, mais alto. Se é uma região que tem uma carga animal alta, o carquejo fica pequeno, bem redondinho porque tá sendo muito podado. O carquejo é uma planta que participa muito...

- Dizem que a jurema prejudica a qualidade da carne.

- Eu não vejo por esse lado. A jurema, inclusive, é de alto valor nutritivo, apesar de ter uma baixa digestibilidade, ela é de alto valor protéico, então não vejo nenhuma...

- Já ouvi várias pessoas falando, principalmente ali pelo lado de Uauá. Lá o pessoal atribui a boa qualidade da carne exatamente ao fato dos animais não comerem jurema.

- Rapaz, é a primeira vez que estou ouvindo. É o seguinte: a carne caprina, se você pegar um bode, retalhar naquela região sua lá do Gato, se você não chegar perto, você não distingue se é bode se é carneiro, não é? O bode de Casa Nova, de Remanso, se você vê ele retalhado, de longe já vê a carnona vermelha. Isso aí... A gordura, normalmente é quem dá mais um sabor à carne. Então o animal que se alimenta mais dessas plantas da caatinga, carquejo, jurema e que não tem acesso às gramíneas que contribuem com o valor energético para a formação de gorduras, então a carne fica mais vermelha. O animal que come mais capim, que é o nosso caso lá, então ela tem uma carne mais gordurosa. Tendo uma carne mais gordurosa, o sabor é melhor. A gordura é quem dá um melhor sabor e melhor maciez à carne. A dieta de um animal de Casa Nova para um de Curaçá se diferencia em função do que o animal se alimenta.

- Há uma controvérsia em torno de duas plantas. Uma é a baraúna, que o pessoal diz que é abortiva.

- Rapaz, é o seguinte: normalmente... Nas outras regiões dizem que a semente da baraúna causa a boqueira. Normalmente, a queda dessa flor da baraúna, da semente da baraúna, acontece em um período do ano... que normalmente todos os anos, quando acontece um surto de aborto, coincide com a queda, porque essa queda é no período aonde tá diminuindo a alimentação da caatinga. O caprino, ele tem uma particularidade que é diferente do ovino. Quando a alimentação diminui, a condição dele se alimentar – agora mesmo está esse frio. Aonde existia cabra enxertada com esse frio, normalmente elas botam muito cabrito fora. Quando ele encontra um desses fenômenos: falta de alimento, mudança de temperatura e que, vamos dizer, é de difícil sobrevivência, e o animal está em uma fase de gestação, principalmente na fase fetal que são as últimas oito semanas, normalmente o caprino aborta para sobreviver. É uma maneira de sobrevivência do caprino: jogar o feto fora. Enquanto que o ovino, ele fica com o feto e pode perder suas condições nutricionais, e muitas vezes a ovelha dá cria e não levanta mais porque ela está em estado de anemia profundo, mas o borreguinho nasce. Às vezes essa situação coincide com determinado fator no período da caatinga. Vamos dizer: a semente da baraúna, acontece agora a partir do mês de agosto, por aí, que normalmente é o mês mais frio, e que o problema da boqueira, que é uma virose coincide com esse período. Então o pessoal atribui à boqueira a semente da baraúna. Então naquele período frio as viroses são mais disseminadas. A umidade é maior, a frieza é maior, os ventos. O criador atribui determinado problema da propriedade, ele associa a um fator que acontece normalmente naquela época. Mas com isso também, a gente não descarta a possibilidade, porque nós temos as plantas tóxicas aí, inclusive... Não foi feito estudo no caso da baraúna, mas eu... A minha observação é que deve acontecer esse problema normalmente na época em que decresce consideravelmente o valor nutritivo da caatinga, quando o animal está no período de gestação fetal, que é quando ele exige uma alimentação de melhor qualidade e que a espécie caprina ela expele o feto para poder sobreviver.

- E o pereiro?

- Normalmente... O pereiro ele é abortivo. Até mulher que toma chá de pereiro ela pode abortar. Lá pra vocês tem um pereiro baixo que o animal tem acesso. Normalmente nessa época, se o animal comer a folha do pereiro, em uma quantidade que venha aumentar a toxidez, ele pode abortar. Já na nossa região (Poço de Fora), nós não temos esse problema. O pereiro lá é alto. Normalmente a folha do pereiro cai do mês de agosto para setembro. É considerada uma das plantas de boa qualidade, porque quanto mais tardia é a queda da folha você vai melhorando a condição alimentar da caatinga, que é o ciclo. Ela caindo não tem problema porque ela já perdeu consideravelmente a toxidez. Ela tá ali como uma fibra de baixo valor nutritivo. O pereiro, o pessoal que andava montado, tinha o cuidado de não prender o animal de sela no lugar onde tivesse pereiro porque o animal que comia começava a andar e empererava por um problema de intoxicação.

- O pessoal fala aí que na caatinga muitas árvores e arbustos estão morrendo. Como você avalia essa observação?

- Olhe, o que a gente observa é que nesses períodos de secas, de baixa precipitação... Nós tivemos um período aqui, de 92, 93, que eu andei naquela caatinga da Gruta, ali para o lado de São Bento, na década de 90 foi alta a mortalidade das plantas da caatinga. Calumbi, jurema, angico, imburana, carquejo, marmeleiro, quebra-faca, mas morreu muito mesmo. São plantas, algumas que com um período de chuva, o marmeleiro, o quebra-faca, o carquejo, ela recupera em pouco tempo, se vier uns anos normais de chuva, agora imburana, aroeira, angico, imbuzeiro não recupera porque mesmo que nasça alguma semente o animal não deixa ela crescer.É muita mesa a degradação em função da seca.

- Você falou muito em suporte. Qual é, pela sua visão, pela sua observação... Quantos animais a área de nossa caatinga (Curaçá) suporta por hectare?

- Nós temos um referencial do que é uma UNIDADE ANIMAL. Mundialmente uma unidade animal é reconhecida por uma vaca ou um boi de 450 quilos. Extrapolando para caprinos, de seis a oito cabeças de caprinos representam uma unidade animal. Aonde come uma vaca deverá comer de seis a oito caprinos ou ovinos. Nós temos algumas referências que na caatinga é a média de quinze a vinte e cinco hectares para uma unidade animal sem que esses animais contribuam na degradação da superfície. Então seria o quê? Meio animal, meio caprino ou dois hectares para um caprino. Há quem diga, inclusive, que o caprino é um animal desertificador. Até certo ponto eu acho que sim. Na hora que você bota uma sobrecarga e não tem um certo manejo naquela caatinga, você pode causar uma desertificação, a exemplo agora do ano de 99, se não me engano, que tivemos pouca chuva e no período seco que não existia praticamente nada para o caprino comer, eles começaram a matar as plantas de melhor valor nutritivo comendo a casca. Os animais não acham mais fibra para comer e vai usar da melhor planta que tem lá. Então mais ou menos do tranco até um metro e meio, dois metros algumas plantas estavam toda descascada.

- Você acha que nas condições atuais qual é a capacidade de suporte de nossa caatinga por hectare?

- Rapaz, estudos já foram feitos de que um animal por hectare de caprino vive bem. Acima de dois já não dá.

- Você falou nesse instante que eram dois animais.

- Dois animais, mas isso aí porque, como eu falei, são referências técnicas que a gente tem na literatura, mas alguns estudos já foram feitos aqui na região, aí mesmo nessa Fazenda Piloto e um animal por hectare tá tendo um bom desempenho produtivo e reprodutivo. Acima de dois já cai o desempenho. No campo aberto, no caso do nosso campo, eu acho que não deve pensar acima de um animal por hectare, caprino. De região para região, se você for observar, logo depois de Poço de Fora, vamos dizer, do Esfomeado até chegar ali na Moça Branca, nós temos uma região que eu acredito que talvez seja a pior caatinga que nós temos no Nordeste. O pessoal fala na região de Cabaceira, processo de desertificação, mas essa região aí, aquela região de Chorrochó a Rodelas, eu acho que talvez o processo de desertificação aí seja muito maior que a região de Cabaceira. Eu acho que para cada região, ou para cada mancha de vegetação, cada mancha de solos você podia estratificar o município de Curaçá. No município de Curaçá nós temos condições adversas. Temos faixas de solos de boa qualidade que cortam o município de norte a sul, de forma diagonal, essa é a melhor caatinga. Já a outra parte... Devia ser feito era o seguinte: que cada município fizesse uma estratificação da sua composição florística, de caatinga que lhe desse condição de sobrevivência dos animais. O que passasse daquilo seria prejudicial.

- Como faria isso se o pasto é comum?

- Aí é onde está. Somente com a consciência dos produtores. O que é que a gente vê hoje? Normalmente, as pessoas que tem um melhor poder aquisitivo cercam áreas para dar uma capacidade de suporte melhor de seu rebanho no período seco, e soltam os animais para pastar no período da chuva concorrendo com os outros. Quando chega no período da seca, leva seus animais para o cercado e quem não tem essa condição parte para compra de ração para salvar a criação. Isso é um problema de consciência. Eu acredito que nós estamos longe da consciência dos produtores.

Esse sistema de criação de fundo de pasto, eu acho que já começa a haver uma preocupação dos produtores. Essa preocupação, legalização do fundo de pasto aconteceu na década de 1980 quando De Assis, que era técnico do INTER-BA de UAUÁ, ele saiu para fazer um trabalho de legalização de Euclides da Cunha, e que ele via os pequenos com áreas de cinco, seis, dez tarefas, e que ele muito preocupado com a situação desse pessoal... Eles diziam o seguinte: que antes daquela área ser cercada, todo mundo tinha condição de sobreviver. Depois de cercado, quem planta, se tiver chuva, colhe e sobrevive, quem não tem vai prestar serviço nas outras fazendas. O fundo de pasto é a área de criação em comum. A partir desse momento começou a haver a preocupação da comunidade em não deixar ninguém mais explorar, cortar madeira para vender, corte de lenha. Então, hoje, eles tão preocupados com a preservação dessas áreas, e acredito eu, que eles já devem estar despertando um certo interesse em determinar uma área, uma capacidade de suporte para essas áreas deles.

- Na caatinga, como é que se dá a adaptabilidade do bode e da ovelha?

- A caatinga, nós sabemos que tem a sua formação. A nossa caatinga, lá de Poço de Fora para Curaçá é uma caatinga rala, que o surgimento do estrato herbáceo se constitui na principal fonte de alimento dos animais. O caprino, a vocação dele é comer de cabeça alta. Normalmente ele procura rama. Nessa região nossa, a sobrevivência dele não oferece condições ótimas para a sua sobrevivência. O ovino é um animal que tem o hábito de se alimentar de cabeça baixa, então você tem que saber a condição de sua caatinga para você escolher a espécie que você quer intensificar a sua exploração. Se for uma caatinga com grande quantidade de arbusto, então o caprino vai se adaptar melhor. Se é uma região onde houver a predominância do estrato herbáceo, então você vi ter um melhor desempenho com ovinos.

- Em questão do clima, quem se adapta melhor?

- Todos dois respondem muito bem às questões climáticas. Todo mundo sabe que os primeiros animais vieram com os colonos. Os colonos habitaram primeiro o litoral. Você quando sai do litoral para o sertão, você passa por uma região intermediária, e hoje você vê que estatisticamente, a maior população de caprinos está nessa região. Se essa região é uma região que chove menos e que oferece menor condição em função da alimentação, porque ela tem um rebanho maior do que no Agreste e no Litoral? Aí é onde eu atribuo o fator clima que favoreceu ao desenvolvimento desses animais. Para mim o principal fator é o clima, nessa região nossa, por quê? Porque o caprino é sensível a doenças que se desenvolvem com maior intensidade em regiões úmidas.

- Quantos animais, no mínimo, um criador necessita para se manter com um padrão de vida decente, e quantos hectares ele precisaria dispor para isso?

- A nossa experiência diz é que pra um pequeno produtor ter uma condição de sobrevivência digna, em torno de dois salários por mês, dois a três salários, ele tem que ter uma área, no mínimo, de 200 hectares, pra ter no mínimo 200 matrizes. Com 200 matrizes, se você colocar 1.5 de natalidade por matriz (três cria a cada dois anos), você teria 300 cabeças. Se você usa tecnologia com uma vermifugação periódica, controle de pragas, de doenças e uma alimentação no período seco, é claro que você vai ter uma baixa mortalidade nesse rebanho. Com isso, com 300 cabeças por ano, você vendendo o animal jovem – que o certo é você vender o animal mais cedo para que se dê condição ao criatório - , vamos dizer 300 animais a R$ 30,00, R$ 40,00 por cabeça, vai lhe dar de R$ 9.000,00 a R$ 12.000,00 por ano, então você vai ter de três a quatro salários mínimos por família.

O Bangüê foi desapropriado pelo INCRA, pra assentar, se não me engano, 70 famílias. São 5.400 hectares, se você fizer a conta dá menos de 100 hectares para cada família. Se você for fazer aí uma divisão para que essas famílias venham a sobreviver nessas áreas, dentro de pouco tempo não tem mais ninguém, não. Além de ser uma área pequena aqui no semi-árido, a região árida, sabe que em termos de caatingas e de solos é a mais pobre que tem, então a não ser que parta para uma construção de açude, que tenha condição de uma exploração coletiva de produção de forragem, que se faça um alto investimento em termos de produção de forragem, para que essas pessoas tenham condições de sobreviver, mas se for no sistema tradicional de criação de caprinos e ovinos aqui da região, não dá pra essas famílias sobreviverem.

- No sistema tradicional dá para quantas pessoas sobreviverem aí?

- Se você tiver uma propriedade em condições de melhor qualidade, em uma caatinga ainda sem estar em um estado avançado de degradação, e que esse produtor se proponha a usar tecnologia na exploração, é em torno de 200 hectares para você manter 200 matrizes. Na região de Curaçá, como ela se apresenta, eu já dobraria. Acontece o seguinte: Naquela região, quando chove rebrota a caatinga e surge o estrato herbáceo. Normalmente o estrato herbáceo ele acontece com maior vigor em uma região de caatinga mais rala, então aquela região nossa de Curaçá para Poço de Fora, a caatinga é bem rala e quando chove a gente só vê a caatingueira, que só contribui na alimentação do rebanho quando sua folhagem cai, e quando ela cai é de baixo teor de tanino, mas também é de baixo valor nutritivo. O estrato herbáceo é praticamente composto do capim panasco, que serve de forragem para os animais naquela região. No ano que a chuva não contribui para a formação do estrato herbáceo desse capim panasco, então a região fica praticamente desprovida de alimento. Não existe alternativa a não ser com ração. O que a gente vê nos períodos de seca naquela região, é o pessoal vendendo praticamente o rebanho todo - o que já aconteceu com os bovinos, que já venderam quase todo, e os caprinos e o ovino eles vendem para manter o rebanho bovino ou então para se manter. Eu acho que uma região como essa deveria dobrar a área para 400 hectares, e assim mesmo correndo o risco dessas secas periódicas que a gente tem, de dois três anos, de redução de 50 a 60% do índice pluviométrico aqui da região. Eu fiz um curso de pedologia aí pela EMBRAPA interpretando umas imagens de satélite, o pedólogo, Montalvão, considerou um dos piores solos do Brasil. Ele considerava o solo do Barro Vermelho para a frente, como já uma região de alta desertificação, com afloramento de rochas e que dificilmente é viável a sobrevivência naquela área. Hoje a gente vê o INCRA participando, fazendo alguns projetos de assentamento naquela área. Poderá ser um perigo trazer o pessoal de fora, sem nenhum conhecimento da realidade da região e doar 80 a 100 hectares para cada um. Não vai ter condições de sobrevivência para essas famílias.

- Você falou de seu vaqueiro, da produção... Como é?

- Eu tenho um vaqueiro na área, que dá em torno de 500 hectares - metade cercada -, então eu crio praticamente só ovelha. Todo dia eu venho dizendo a ele que pra mim pagar o salário dele, eu preciso de uma produção de 100 carneiros por ano. O que é isso? São em torno de R$ 3.000,00. Carneiro de R$ 30,00, de nove a 10 quilos dá uma média de R$ 3.000,00 por ano. Ele tem 13 salários mínimos, então da mais ou menos nessa faixa. Pra mim conservar a propriedade com trabalhador, fazendo a conservação das áreas de forragem, limpeza de aguada, conserto de cerca, eu preciso de mais outro trabalhador, então é mais 13 salários no ano, então a necessidade de propriedade já vai para 200 animais e pra ter um outro eu vou precisar produzir acima de 200 animais.

- O governo tem algum estudo que fale sobre essa condição mínima para o produtor sobreviver na caatinga?

- Que eu saiba, não. Se tivesse não estaria caindo na besteira do INCRA estar fazendo esse trabalho, esse assentamento no Bangüê. A gente não sabe se eles vão usar uma tecnologia diferenciada para dar condições de sobrevivência a essas famílias.

- Me descreva, de modo genérico qual é a estrutura de uma unidade produtiva que existe na caatinga.

- A estrutura de uma propriedade média¸ você tem que ter... No lado de alimentação você tem que ter área de caatinga preservada, uma área de caatinga enriquecida com capim buffel, ou mesmo uma área com capim buffel, uma área de palma... Uma caatinga de 200 hectares, você teria que ter mais ou menos a metade distribuída com pastagem, com palmal, com agricultura... Com 200 hectares você tinha que ter pelo menos uns 10 hectares de palmal, de buffel pelo menos uns 50 raleada. Inclusive você deveria pensar em uma área de repouso, pelo menos 20% deixar em repouso pelo menos dois anos consecutivos, que é para o surgimento de outras plantas forrageiras da caatinga que com o animal dentro não tem condições... Nós participamos de um trabalho de preservação de fundo de pasto, uma das coisas que a gente propôs, foi cercar uma área do fundo de pasto e a cada 5 anos você mudar aquela cerca. Basta a ausência dos animais para que ela recupere. Você tem que ter um ponto de água confiável para ela ser suficiente para um período seco. Uma barragem, você tem que ter pelo menos 4 metros de lâmina de água, pra ela encher regularmente todo ano. Além disso, você tem que ter o suporte de uma cacimba, de um poço tubular. Você poderia utilizar a água de poço, de cacimba para uma pequena irrigação. Precisaria da estrutura de currais, apriscos. Um aprisco você nem imagina, principalmente agora, o valor que tem uma instalação dessa. Agora mesmo está acontecendo o nascimento de cabrito e borrego, então você prender a cria e não deixar a cria exposta a esses ventos frios. O animal deve estar protegido desses ventos frios que causam muitos problemas.

Eu acho o seguinte: que cada propriedade... Eu mesmo combati uma certa vez, que veio uma empresa de Salvador fazer um trabalho aqui em Caraíba. Cada propriedade, cada área é uma realidade. Você tem que saber o que você tem dentro daquela propriedade pra você saber programar o que você deve fazer. Na minha propriedade eu tenho na cabeça o que devo fazer. Pra mim produzir forragem na minha propriedade, eu tenho que partir pra um poço artesiano ou uma barragem, pelo menos pra eu produzir forragem todo ano. Eu tenho na Capivara somente o capim nativo. Só há algumas manchas de solo que eu posso aproveitar com capim de planta, capim cultivado, mas eu tenho um sonho de um dia poder cultivar uma área de 5 hectares pra todo ano, no período da chuva eu plantar 5 hectares de milho ou sorgo e na falta da chuva eu fazer uma irrigação de salvação com água da barragem. Muitas vezes você perde o cultivo de milho da região por falta de uma chuva. Com cinco hectares de milho ou de sorgo você pode armazenar 200 toneladas de silagem por ano. Com essas 200 toneladas eu posso suplementar meu rebanho ovino durante seis meses.

Uma casa, você tem que dimensionar uma casa de acordo a sua família. Deve ter sanitário, piso de cimento, rebocada, energia, galpão para fenação.

- Quantos mil, levando em conta que a maioria dos criadores já tem seus rebanhos e a terra, você precisaria para estruturar uma fazenda em padrões modernos?

- Rapaz, tem que fazer um orçamento pra cada uma fazenda. Eu acho que para você estruturar uma fazenda, hoje, uma área em torno de 200 hectares, eu acho que você não gastaria menos de R$ 150.000,00. Eu estou falando em cerca perimetral, cerca divisória, construção de aguada – um poço tubular, hoje, pra você perfurar e instalar, está em torno de R$ 15.000,00 a R$ 20.000,00. Formação do palmal, uma moradia digna, então você tem que pensar em termos de R$ 100.000,00 para cima. É isso que eu acho que o crédito para o pequeno produtor não é viável para você criar. O PRONAF, que é muito falado aí – PROGRAMA NACIONAL DA FAMÍLIA RURAL -, eu acho que na região Sul, aonde já tem seus sítios com pequena produção, produção intensificada em termos de soja, de milho, de mandioca, que chove regularmente, então isso aí seria uma boa, mas aqui na nossa região, principalmente que todas as propriedades são carentes de alguma coisa – de muita coisa -, de água, e pra você fazer água na propriedade é caro, pra você fazer uma barragem de 100 horas de trator, hoje, você gasta R$ 7.000,00, e se você não tiver uma condição que lhe dê uma condição de solo, de ombreira em um determinado riacho, 100 horas não dá pra você fazer uma barragem suficiente para ela armazenar água durante o ano. As barragens, principalmente em Curaçá, que eu tenho experiência, que andei no município todo para localizar barragens... Nós fizemos barragens boas no distrito de Patamuté, com seis, oito e até dez metros de lâmina de água, aí você tem condições de partir para uma pequena irrigação, mas essas barragens elas são de 500 horas para cima. É barragem para R$ 35.000,00, R$ 40.000,00. A água está em primeiro lugar e você tem que ter um ponto de água confiável pra você dispor dessa água o ano todo, em períodos de chuvas normais e também em períodos de chuvas escassas. A cacimba é uma aguada mais viável para consumo animal.

- Você disse que para um camarada ter uma vida digna, tem que ter mais de 200 matrizes, 200 crias por ano para abate, contando com manutenção e etc. Isso daria por volta de R$ 8.000,00 por ano. A estrutura mínima de uma fazenda, hoje, para ser reestruturada nos padrões modernos daria mais de R$ 100.000,00, então o crédito é inviável.

- É inviável, a não ser que aconteça como em outros países que o crédito é fácil e ele tem uma vida toda, 50 anos, para pagar.

- Então você está dizendo que a pecuária na caatinga está inviável.

- Eu acho.

- E o que a gente faz com o povo que está na caatinga?

- Você já está vendo que naturalmente o povo que está na caatinga está correndo para as áreas irrigadas. A caatinga vai continuar sempre com baixa densidade populacional, porque naturalmente, você pode olhar que a mão-de-obra ativa da região de Poço de Fora, de Mundo Novo, de Barro Vermelho, daquelas fazendas que nós tínhamos anteriormente com 50, 100 famílias, hoje resta pouca coisa. Estão correndo tudo para as áreas irrigadas.

- Então essa história de CABRA FORTE, etc., etc., é uma fábula?

- Eles tão tentando levar pelo menos uma condição de vida. Não posso dizer que é fábula, que é conto de fada, mas os programas, hoje, não têm uma certa consistência de dar condições de sobrevivência ao homem da caatinga aqui do semi-árido. A principal expectativa do homem rural de nossa região é a aposentadoria rural. É a única fonte de renda que dá uma certa tranqüilidade de sobrevivência. Você pode olhar que em nossa região, naquelas fazendas, quando o cara chega a 55 anos, eles já tão doido para chegar aos 60. Então, por essa razão você tire o quanto nossa região é difícil. O homem fica torcendo para envelhecer, dormir com 40 anos e acordar com 60, para ter o direito a um salário mínimo. A gente trabalha nesses programas, a gente tá aí brigando, procurando esclarecer, procurando viabilizar dentro do possível a exploração, mas a gente sabe que é difícil.

- Observa-se que em muitos pontos da caatinga está havendo uma urbanização.

- O processo de urbanização no centro da caatinga é pra... Talvez pra atrair benefícios, ou seja, infra-estrutura: iluminação, água. O poder público se preocupa mais quando vê uma aglomeração. Muito embora aquela urbanização no centro, embora eles estejam vivendo em grupo, mas as atividades são rurais. Eles se deslocam até mais um pouco distante de sua propriedade.

- Você acha que essa atividade rural está dando sustentação às necessidades que a vida impõe hoje, de consumo, por exemplo?

- Um pequeno produtor, hoje, não tem renda para sobreviver. Ele está vendendo a mão-de-obra, tem alguém da família com aposentadoria... Apenas as atividades não é uma renda que lhe dê condições, mas é mais uma complementação de renda, muito embora a vida desse pessoal não seja digna.

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