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Heroicização de bandido
Esmeraldo Lopes

É de embasbacar, ver e ouvir certos tipos de coisas. Fecho aqui em uma delas: a heroicização de bandidos. Fecho ainda mais. Deito o olhar, em especial, em um bandido: Lampião.

Não tenho dúvidas: para muitas pessoas, soa como sacrilégio a afirmação de que Lampião era um bandido. Não me estranha que isso ocorra. A distância é fermento de deturpações. É que ela nos trás os fatos sem o clima do acontecer. Não é só a distância. A proximidade mal vista, também nos leva a absurdas distorções. Algumas pessoas são empurradas, seja lá por que motivos ou modos de sentir sejam, a pressupor que a dor ou a alegria do outro é maior que a sua, mesmo que estejam sob a mesma condição. Para quem não tem o senso do nós, a medida das coisas é sempre o eu ou o outro. Quem age sob o signo do outro, se anula no concreto da vida, e vive a fantasiar, se impedindo de ver o chão que pisa. Quem vive sob o signo do eu, anula os outros e só o que conta é o seu próprio sentir. Quem vive sob o signo do nós, vive no bambalear das tormentas que fazem do homem um humano, em um eterno sair e voltar a si, no rápido de um piscar de estrela avistada na fundura do céu.

Lampião sofreu injustiças.

Os coronéis eram cruéis, mas as crueldades que praticavam não diferiam das que hoje são exercidas pelos que detém algum poder. A diferença está em que os coronéis não usavam a máscara do disfarce. O seu poder de mando era garantido pela força da chibata, da castração, da violência alardeada, escancarada. Os mandarins de hoje criaram a armadura do disfarce entrincheirado no discurso, na lei, na ordem. Sofisticaram-se na mentira, mas a madeira continua a deitar no lombo e na alma de gente. A mudança foi só de método, e assim sempre será. Reconheçamos: qualquer ordem será sempre injusta. O homem é incompatível com a justiça, por isso a alimenta no sempre de seus sonhos. Será que suportamos a máxima romana: “seja feita justiça e que o mundo pereça”? Será que somos aptos a viver sob a regra “a cada um a mesma coisa?”, ou “a cada um de acordo com sua competência?” A justiça, no seguir desses dizeres, é serena, fria e cruel. Sua aplicação requer transcendência, conformidade, capacidade de não retroagir diante da dor de punir. “Seja feita a justiça e que o mundo pereça”.

Os coronéis bramiam sem disfarce: “A minha vontade”, diante de uma massa de homens alquebrados, quedados no não ser. Não ser para “viver”. Lampião estava ali, no difuso dessa massa. Ousou viver tomando de empréstimo o bramido dos coronéis: “A minha vontade”. Como os coronéis, “a minha vontade para mim” e que o mundo pereça. Este o lema da tirania, da injustiça absoluta, do bandido. E foi sobre a imensa massa de homens já alquebrados pelos coronéis, que Lampião se lançou com toda a sua gana facinorosa. A desculpa: “É gente dos coronéis”, “É ‘informante’ dos macacos”. E essa gente de vida acocorada, habitando nas profundas da Caatinga, no isolamento dos ermos, submetida, vivendo na bruteza da animalidade, de uma hora para outra, se via apanhada pela cabroeira facinorosa. Lampião no trono sustentado por seus cabras, erguia pose de majestade, esbanjando orgulho pelo poder de “deixar viver e fazer morrer”, diante de pessoas rendidas, sem nenhuma capacidade de reação. E vinham as extorsões, as imposições ditadas para requinte de seu gosto sádico, as humilhações, as castrações, as mortes lentas ou rápidas, mas sempre acompanhadas pelo estardalhaço de risadas. Nas exceções da regra desse proceder, de distante em distante, no acordo do humor momentâneo, Lampião agraciava alguém em aparente atitude benfazeja, presenteando-a com dinheiro roubado, atendendo pedido de vingança contra algum malfeitor que transtornara gente sem força. Mas nem em gesto assim podia haver motivo para consideração da boa atitude, que esta não era praticada por ato de justiça, mas para glorificação de seu feitor e apequenamento do solicitante. É que o “poderoso”, estampa cara de generosidade, quando vê o fraquejado cair a seus pés com pedidos, e orgulhoso, às vezes o atende com satisfação.

Lampião nunca foi contra as atrocidades praticadas pelos coronéis. Se se botava em perseguição a alguns deles, era por motivo de vingança, ou por não haver obtido êxito na obra de extorsão. Ilusão acreditar, ignorância, estupidez pousar verdade no dito: “Lampião, bandido social”, “Lampião, justiceiro”. Nele não havia nenhuma preocupação social. Não questionava a ordem injusta. Nutria-se dela, aliando-se aos coronéis que a ele se aconchegavam, executando seus pedidos sem parada para avaliação. A medida do mundo era o seu bem-estar: “Cangaço é meio de vida”. Não foi isso que ele pronunciou quando tomou ciência da capacidade de combate da Coluna Prestes? Afinal, qual foi mesmo a causa de Lampião?

Não vou falar dos aviltamentos, dos mal-tratos cometidos pelas volantes. Não se esqueça, entretanto, que elas formavam a terceira peça do tripé atormentador da gente impotente.

Lampião era um bandido.

Bandido é todo aquele que se toma como critério do mundo, colocando tudo ao dispor de sua vontade e que mergulha em um imenso viver para si, apenas para si. Um bandido é um homem, mas não é humano. Não pode ser humano e erro é considerá-lo assim.

Agora, Lampião em horoicização. Reflita-se sobre o que é um herói. Um herói se faz por atitudes de abnegação. Transforma o eu e os outros em nós. Desprende-se de si e se lança no mar turvo de uma causa. A sua vida... A vida de um herói, uma doação. Onde Lampião nisso?

“Lampião herói”. É de embasbacar.

Quanto a esses levantadores de estátua a Lampião; quanto a esses “civilizados” de andar faceiro, rosto suave e linguagem polida nos jargões sofisticados e vazios das universidades; quanto a esses “machos mal-acabados” que andam a desfilar nos shopings, nas praças... estampando a imagem de Lampião nas camisas que vestem; quanto àqueles que se desdobram para demonstrar a relevância dos feitos de Lampião, tenho a dizer: Se Lampião os encontrasse, nesse estar de “delicadeza e compreensão”, empurraria o punhal na forquilha das pernas até atingir a goela. Porque, diante dele, a imagem dessas pessoas seria uma afronta.

Finalizando pergunto a esses tipinhos: Por que não aproveitam e rendem homenagens heroicizando os bandidos vivos, tão abundantes e muito mais ferozes que Lampião?

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