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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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NEOGIGOLÔS
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Foi-se o tempo dos gigolôs, dos autênticos gigolôs, daqueles que desenvolviam toda a sua arte na obra de explorar prostitutas. Prostitutas incautas. Muitas nem tão incautas assim, mas tinham de certo os perigos da profissão. Por isso se apoiavam em truculentos galãs de araque. Esses galãs desempenhavam seus papéis de forma surpreendente. Empregavam tapas e afagos na manutenção de seu domínio. Nos momentos que lhes convinha, preenchiam o tédio de suas presas com carinho sob medida. Um carinho grosseiro, evidentemente, mas que as satisfazia. Reservavam para si o direito exclusivo de espancar suas protegidas. Acompanhavam os passos e os pensamentos delas. Como cavalo no lote, afugentavam a intromissão de qualquer outro concorrente. Tanto daquele que vinha como daquele a que elas se ofereciam. Nesta tarefa, iam às tapas, às facadas, à morte. Não se podiam conceder qualquer displicência.

Os gigolôs sabiam-se de pouca dignidade, se é que dignidade fosse algo que merecesse a atenção de suas preocupações. Pois é, essa espécie entrou em extinção. Os exemplares que ainda existem vegetam como resquícios do passado, sem alimentarem nenhum orgulho, contentando-se em lotear prostitutas que perderam ou nunca tiveram brilho nenhum, ponteando esquinas e ruas, com suas silhuetas de fantasmas. A gigolagem se sofisticou. Tomou foro de empresa, e a prostituição se metamorfoseou: massagista, acompanhante, garota de programa, garoto de programa, travesti... Os velhos cabarés foram substituídos por bares para turistas, boates... Essa prostituição mudou a face, a forma ficou a mesma. Um outro personagem surgiu: o gigolô social. Tipo civilizado, intelectualizado, disfarçado em comprometimento, em engajamento político. Nesta, a presa da exploração não é mais a mulher desprotegida. É o pobre, a minoria, o alternativo, o marginalizado, o oprimido: os coitadinhos. E a ecologia? Também! Ela atinge a tudo, a tudo que está coberto por algum tipo de desgraça.

Coitadinhos, isso mesmo. C o i t a d i n h o s, i n j u s t i ç a d o s. É preciso compaixão. O sentimento de culpa se carrega sem se suportar. “É preciso fazer alguma coisa!” Salvar, minorar o sofrimento dessas pobres vítimas. E cidadãos que se julgam da melhor estirpe vão à luta, no empreendimento da salvação do mundo. Alguns, percebendo a imensidão da tarefa que se põem, contentam-se com coisa limitada, e, por estarem comovidos com sinceridade, fazem alguma coisa de resultado não prostituído. Enchem o coração e lavam a alma. Visto que não utilizam trabalho que fazem para obter ganhos para si, merecem consideração respeitosa. Alguns querem até o anonimato. Mas não servem lá desses exemplos todos, porque seus trabalhos mitigam sem resolver, e não apontam direção de solução. Faça-se exceção. Estes não são gigolores.

Falo, aqui, de outra gente. De uma gente estardalhosa, vaidosa, oportunista. Os exemplares dessa gente infestam as Universidades, as chamadas organizações populares, entidades religiosas, partidos políticos... Todo mundo muito respeitoso. O garbo das palavras se lavra em projetos. Projetos copiosos. Neles as fotos dos desdentados, dos que sofrem, dos discriminados, dos aviltados de todos os tipos, da degeneração da natureza, e segue assim, sempre assim. Mas é preciso mais detalhes: número de famintos, de desassistidos, as insuficiências... Adiante as soluções. Em algum lugar o orçamento - bendito orçamento. Orçamento para o cumprimento das ações. As ações são importantes, sabia disso!? Que ações? “Cursos, treinamentos, oficinas, seminários, visitas, intervenções...” Contatar serviço de consultoria... Quem serão os consultores? Ah!, é preciso viajar, incluir em algum lugar as diárias. Prazos? Um cronograma bem detalhado, tudo impecável. Pronto!, a aprovação é quase certa. Se certa, o trabalho. Coitadas das presas.

Lá se vão os salvadores, salvando tudo, salivando a baixa auto-estima das vítimas.E as vítimas acreditando, recebendo alguma coisinha. As presas começam a macaquear os discursos vomitados em suas entranhas. Começam a ver o que não existe, a falar do que não sabem. São levadas para exibição, como demonstração de sucesso do projeto. Resultado: docinhos, renda, queijinho, produtos orgânicos, a crechezinha perdida no horizonte da favela, a cooperativa, o orgulho das presas... A auto-estima delas foi alteada. Cidadãos! Agora são cidadãos. Os ambientes são maquiados, as realidades são falsificadas e viram objetos de visitação. Resultados são estampados em números e muita, mas muita saliva, cuspida das bocas, cuspida de impressoras, cuspida das máquinas fotográficas.

Fim do projeto? Sim. Lá se vão os onguistas, carregando orgulho, de peito cheio e 70% do dinheiro do projeto no bolso. São os novos gigololores, em linguagem moderna e pomposa, neogigolores. Tem que ter o neo. Mas como se trata de uma gente muito séria, muito honrada, não aceita nem o neo. Procura disfarces de nome e se autodenomina feminista, ecologista, voluntário, técnico, e por aí vai, que a lista de nome que se dá é grande. A imagem que se faz e, o pior, acredita: comprometimento, seriedade, competência.

Um ano depois, veja-se o saldo do feito: ruína. As presas clamando por novos predadores. No sucesso, com o domínio do linguajar macaqueado, metamorfoseiam-se em predadores.

Benditas as ONGs. Deus salve todas as ONGs. Como seria a vida sem ONGs?
ONG – Organização Nacional dos Gigolores de pobres e de desgraças. Só uma ou outra, perdida, discriminada, normalmente desapoiada foge a esta denominação.
Tudo o que eu escrevi aqui é segredo. Segredo de Estado. Não contem para eles, não.

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