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POPULAR
Esmeraldo Lopes

Para início, digo e afirmo: o popular é caldo de tumulto. De tumulto resultante das improvisações que o povo faz na refrega da vida, com o único intuito de viver. Como a vida não pára de seguir, o tumulto é a tônica do popular. O que significa isso? Significa que as formas que a vida do povo vai tomando não obedecem à preocupação de nenhum seguir de orientação estética ou de coerência. As coisas se dão a acontecer e entram em emaranhado na lógica das sucessões e dos entrelaçamentos casuais. Nesse vai-que-vai da vida, há o que fica: a borra do caldo do tumulto: costume, moral, tradição, folclore. A forma da borra... Não importa a forma que tome, que ela vai se moldando, se acrescentando, se descarregando pela ordem dos entreveros de cada novo acontecer. E cada acontecer sacudindo a borra, mas ela continuando borra, se diluindo e se assentando sem ordem de previsão segura. Repetição e improviso... Eis aí os dois ingredientes com que se faz o popular. Sua fórmula: improviso de um desejar, de um acontecer, agarrado à repetição. Mas o improviso altera o tom da repetição. Monotonia como fermento de alma. Muda-se o tum-tum-tum, fica a letra; muda-se a letra, fica o tum-tum-tum.

Um povo fechado em si improvisa com pouco variar. Fica a arrodear-se em torno da própria face, com os acontecimentos fazendo remanso na mansidão, se impregnando, pelo bem e pelo mal, na forma que a borra tem, inscrevendo-se em seus contornos. Aí, tudo é popular, tudo se carregando pelo puxado da prisão ditada pela vontade do puro viver. Em tudo por tudo, a luta pela manutenção do mesmo viver, da mesma expressão do viver. Substância do popular: o simples viver, o simples respirar, o simples estar no mundo na forma que o mundo se mostra.

Não importam os motivos, no mais cedo, no mais tarde, vêm as explosões. Tumulto acelerado, e a borra do popular se dilui no caldo. Improviso, improviso, descontrole agarrados à repetição da luta pelo manter-se no mundo. E novas formas, e novos elementos aparecem, mas no olhar cuidadoso da coisa, o que se vê é a velha borra.

No terreno do popular, tudo é necessidade. Onde há transcendência não há popular. O popular está apenas um ponto acima da pura animalidade, porque escravo da necessidade, prisioneiro do imediato. É uma animalidade humana, oscilando entre o fascínio e a atrofia. Estilo, harmonia, estética no popular, pura obra da articulação das combinações fermentadas na escuridão do acaso, que conduzem à feição do grotesco. Objetar-se-á: “E as belezas do folclore?” Folclore, pedaço de borra cristalizada, falseada pela estilização, porque não possui ressonância de vida, pura representação do que já foi.

O popular é filho da pobreza, de qualquer tipo de pobreza, do que rola na altura do chão, do alcançável pelos sentidos do corpo, com penetração rasa da alma. Quando suas expressões, suas formas, seus temperos, nascem de si, de apropriações autônomas, o popular se faz autêntico, porque sem máscara, revelando o seu ser em sua intimidade, se mostrando em suas propriedades tal e qual é. Mas vem que o popular não se agüenta em seu ser próprio, começa a se negar, a enredar pelo caminho da imitação de elementos sem nexo, a apanhar formas de outras formas, promovendo combinações destoantes. Ainda assim, popular, porque intranscendente, agarrado ao império da necessidade. Não mais apenas à necessidade do puro viver, mas também à necessidade do parecer ser. E se veste com a roupagem do ridículo, exibe um gosto forçado, se esconde pelo disfarce e se entorpece no fingimento. Quer ser outra coisa, mas não consegue deixar de ser o que é. Mergulha no vazio estrondoso, sobrevive no lodaçal da vida e acha bom.

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