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PERDÃO
Esmeraldo Lopes

Nascemos, crescemos, vivemos envolvidos pela atmosfera da palavra perdão. Perdão: uma onipresença auditiva imergida na condição humana. Perdão: palavra de dizer fácil em um sem sentido de verdade: “Eu perdôo”; “Perdoe-me”. Um mero abrir e fechar de boca, entremeado por sons que se fazem máscara de disfarce. Esta atitude só sincera em situação de pouca valia dos acontecidos na superfície dos entreveros humanos: dívida pequena, causalidade, ato sem conseqüência de dor funda. Só pode ser perdoado o que pode ser esquecido, apagado. Isso não pode acontecer por determinação de decreto da vontade. Pela vontade, se força, se finge esquecimento; reprime-se, mitiga-se a lembrança. Mas as cicatrizes registrando, inscritas no corpo, na memória, nos lugares... As cicatrizes não se apagam. Um grito silencioso estrondando no íntimo. E vem o sedativo: “Eu já perdoei”; “Eu pedi perdão”. O olhar introspectivo, angustiado, assombrado diante da revelação da face cruel: “Eu sofri”; “Eu fiz sofrer”. O homem diante da condição de sua miséria. O disfarce como necessidade da vida. Não estou falando do disfarce-hipocrisia. Este é artificial, preparado para ludibriar. Nele não há dor, não há culpa. É só dissimulação. Estou falando do disfarce necessário à vida de quem não consegue dissipar, de quem não pode descarregar a dor. Para este, lenitivo na forma de disfarce: a compreensão da fragilidade humana. O encontro do outro em si, a busca do encontro de si no outro. Puro exercício de compreensão, que o grito não pára de estrondar nos labirintos silenciosos das coisas idas.

“É pior sofrer ou cometer injustiça?” Pergunta o filósofo na solidão de seu desterro. De sua consulta, de todos os cantos, uma só resposta: “Não há como nos livrarmos deste tipo de dor”. Segue humildoso, sentindo as dores do mundo, no caminho da compreensão. Sabe que não há como esquecer. Procura suportar-se no equilíbrio precário da vida. Da vida como dor.

O crente se refugia na fé. E da fé explode em soberba. Brada: “Eu perdôo, Deus!”; “Eu peço perdão, Deus!”. Alivia-se. Planta a irresponsabilidade: “Arrependa-se meu filho, que Deus perdoará”. Deus, uma tentativa de o homem fugir de sua condição. Com que direito, Deus, se existisse, poderia perdoar a alguém por ter praticado um ato de injustiça sofrido por mim? De que mesmo valeria o meu perdão, se o infligidor carregaria a consciência do seu ato, se por muito que eu quisesse não poderia esquecê-lo? Mas o crente jura esquecimento. Exercício declarado de hipocrisia, pois que na primeira reincidência de ato nefando pelo perdoado, o “esquecido” volta a ser alegado. E que não reincida, ficará o infeliz, para sempre na mira de desconfiança calada.

Falando de verdade, quem é capaz do perdão? O pai que perdoa o assassino de um filho não estaria se revelando como seu traidor? Santos não existem. Ah, existem os sem amor-próprio, os dementes. É possível que estes sejam capazes do perdão-verdade, pela vida fugaz que têm.

Perdão... A humanidade precisa do perdão para anestesiar a dor de seu viver, para fingir que esquece o que não pode esquecer. Precisa se fazer pelo naufrágio na estupidez, e sonhar com o céu, para suportar a vida na terra.

Perdão... Amortecedor da civilização.

Mil vezes perdão um velho matuto pediu, implorou. Rezou, orou... Mas no silêncio da velhice, no olhar para trás de sua história, em sua mente ainda vem a imagem do passarinho agonizante, sem as pernas que ele cortou. “Não há como obter perdão. Eu fui brutal”. E chora. Não fala, mas no seu calado pronuncia: “Perdão por eu existir”, mas a quem pedir?

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