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BIOGRAFIA
Esmeraldo Lopes

Está na moda. É muita gente querendo ver escrita a própria biografia. Biografia autorizada, é claro, que ninguém é louco de deixar à vontade alheia a seleção dos detalhes que exporão as minúcias da própria vida. Quando alguém, à revelia de um vivente, se põe nesse trabalho, lá vem o problema: ou é capturado e começa a realçar o lado esplêndido da face e a mitigar as máculas do biografado, ou se bota em trabalho inverso. Mas há sempre um ou outro que, ou por tremer diante da possibilidade de alheios investigarem a trajetória de sua vida, ou por não encontrar um entusiasta de sua personalidade, e por se achar um verdadeiro monumento à humanidade, resolve fazer seu auto-retrato em letras corridas. O resultado, em qualquer caso, será sempre santo ou cão.

Autobiografia... Quem é capaz da verdade dos subterrâneos? Talvez alguém sem amor próprio, algum avariado... gente que de tanto se decepcionar, atingiu o vazio da existência. Só estes, exclusivamente estes, são capazes de trazer os subterrâneos à superfície, mas não o fazem porque... porque nisso não vêem sentido nenhum. Autobiografia é superfície, perfume sobre fedor, fabrico de história. Toda autobiografia é um monumento oco que o autor ergue a si mesmo. E na construção desse monumento, ele vai fugindo das bocas-de-lobo, se desviando dos pântanos, procurando e florindo jardins, sempre conservando para si o império da razão, da justiça, da reteza. Mas, para não ficar muito “muitobacanademais”, para o monumento não ficar insosso ao extremo, inscreve lá umas manchinhas, na medida de tempero de atração. E aí, um volume de trezentas, quatrocentas páginas. Diante do contado nele, os santos, se existissem, encolheriam os ombros, achando-se usurpadores de sua condição. De minha parte, digo: se a vida do tal sujeito correspondesse ao escrito, toda ela poderia ser resumida em uma frase: “Nasci, me comportei, enchi latrinas e espero o Reino do Céu”.

O que dizer das biografias? Toda biografia, autorizada ou não, é uma adulteração da trajetória de uma vida. Não há como escapar disso. Não importa a intenção, a proclamação de honestidade do autor. Ele se sabe adúltero, a não ser que seja um débil mental. Se a biografia é autorizada, seu escrevinhador se serviliza. Colhe um fato e o submete ao protagonista. Diante dos fatos comprometedores, recua e quando não recua os floreia. Mesmo que queira ser honesto, o comprometimento com o biografado já lhe retira a possibilidade da crueza e termina tendo como resultado uma apologia. E apologia castrada. Castrada porque é sempre perigoso mexer, deixar que mexam no próprio monturo. Quem faz isso, quem permite isso, acaba deixando vir à luz marcas sombrias da face. A face de distante dos pedestais, cheia de cicatrizes inscritas na refrega da vida, com pouco, com quase nenhum perfume e escasso florido.

A biografia espontânea nasce da determinação de um escrevinhador. Mas na própria determinação já está a sentença, o desfecho: o protagonista é, de antemão, tomado como adorável, ou execrável. Se adorável, a luva suave da mão, a condescendência; se execrável, a dureza do julgamento, da intolerância, da incompreensão. E o oceano de uma existência é encurtado, assumindo a feição de uma pequena lagoa.

Biografia: boca de caverna, superfície de monturo.

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