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VOTO NULO
Esmeraldo Lopes

Cidadão. A primeira vez que ouvi essa palavra ainda era menino. Um senhor bramia: “Eu quero respeito. Eu sou um cidadão”. Falava isso enquanto contava um sucedido dele com o delegado da cidade. De logo nasceu em mim que ser cidadão era uma coisa de muito respeito, afinal um sujeito peitar um delegado com o bradar desse nome e não ficar preso, é porque o nome devia valer muito. Talvez valesse mais que oração forte. Foi aí que nasceu em mim o respeito pela palavra. Eu também queria ser como aquele homem, e como todos os homens que diziam que eram cidadãos. Nisso eu dividi o mundo em dois tipos de gente: cidadãos e não cidadãos. Ficava claro que cidadão era quem fazia as coisas certas, procurando botar respeito nos seus atos, impondo respeito. Não cidadão eram como aqueles bêbados de final de feira, como os ladrões, como os vagabundos que não gozavam de estima nenhuma, nem mesmo a deles próprios. Depois, no mais tarde da vida, aprendi que ser cidadão era algo muito importante, mas que esse direito nos tinha sido tirado, roubado por uma ditadura. Os militares é que valiam, que cidadão não valia nada. Um militar quando passava na rua colhia respeito. Respeito nascido tanto da estupidez popular, como do temor dos avisados. Foi aí que me apresentaram o voto. “O voto é a arma do cidadão”.

Andei caminhando em passeatas, distribui panfletos, participei como pude do movimento estudantil, entrei em partido e, em todos os lugares o mesmo estribilho: “O povo, unido, jamais será vencido”. Eu acreditava no sonho do povo no poder. Lia e lia, e cada vez mais que lia, que assistia a palestras ficava mais convencido dos benefícios da panacéia povo e da eficiência do voto como corretivo dos malefícios políticos e sociais. Povo e cidadão para mim formavam uma sinonímia. E me embalei nesse sonho clamando por direitos iguais. O voto seria a grande arma. Logo que conquistássemos o voto livre seríamos um país livre, de bons governantes, escolhidos pelo crivo do uso pleno da cidadania. Nessa fé entrei em partido, fiz campanha para candidatos “impolutos”, morria por eles, por eles, não, pela causa que eles defendiam, que era a minha causa, a causa do caminho da salvação do país, da dignidade do povo. Nessa fé, em certa ocasião me fiz candidato também.

Já professor, me irritava ouvir dos alunos, do povo a frase: “Todo político calça 44”. Algumas pessoas diziam: “Vou votar nulo”. Quando eu ouvia expressões assim, era como se recebesse um soco na cara. E me botava a argumentar, afinal eu era um pregoeiro da consciência, e um pregoeiro da consciência tinha como dever conscientizar. No silêncio do meu interior eu recebia essas “agressões” com um similar de “Pai, eles não sabem o que fazem”. Depois de tropeços e tropeços, as eleições livres. No abrir das urnas as grandes decepções, no abrir das urnas não. As decepções vinham antes, vinham no período da campanha, com o povo atentando por dinheiro, por isso, por aquilo. Ecoa até hoje em meus ouvidos a expressão de um camarada que me disse: “Você não dá dinheiro pra gente, também seu candidato não terá voto”. Mas o incrível é que nada disso me abalava. A fórmula para a manutenção dessa minha fortaleza era pura burrice.

Revi meus conceitos. O que é um cidadão? Um cidadão é um sujeito que participa da vida da coletividade, que se informa a respeito dos problemas dela, que tem autonomia, que assume a responsabilidade pelas conseqüências de seus atos, que vai à luta independente de benefícios pessoais. Só pode ser cidadão aquele que é capaz de transcender a si, indo além da mesquinharia do aqui e agora. Digo com isso que cidadania é conquista, e conquista individual. Sua conquista e manutenção requerem esforço, enquadramento, responsabilidade, comprometimento efetivo e autônomo com posições políticas, porque a cidadania só pode se manifestar através de atitudes. Aí teríamos o cidadão de fato. Mas no nosso caso não. Qualquer sujeito que tenha dezesseis anos vota e todo aquele que tenha 18 dezoito é cidadão. Cidadão por atribuição. Seja ele ladrão, mijador de rua, ladrão, irresponsável com diploma ou sem diploma, com dinheiro ou sem dinheiro, infrator, enfim, desqualificado do tipo que for, vale tanto quanto o sujeito que se enquadre nas características da cidadania de fato. E aí vem o problema. Enquanto um candidato sério se desgraça para conseguir um mísero voto, pela exposição de sua trajetória, pela apresentação de seus planos, um vagabundo, um corrupto joga sua cartada financeira e colhe duzentos, trezentos e até cinco mil votos em um só lance, se fazendo assim vereador, prefeito, deputado, senador, presidente. Enquanto o país inteiro elege míseros dez ou quinze deputados federais pelo critério da cidadania de fato, centenas são eleitos pelas vias da vagabundagem e da irresponsabilidade acomodada pela cidadania atribuída. E os pilantras de todos os tipos instalam-se no poder maculando e tornando indigna a palavra político. Para se manterem aureolados e acobertados por essa palavra fazem todos os tipos de bandalheira, alimentando e se alimentando da mesma vagabundagem e insanidade popular que os elegeram.

Agora eu ouço aquele grito que me veio na infância ressoar, saindo da boca de todo desqualificado social: “Sou cidadão. Exijo direito, exijo respeito”. E eu o escuto com a mesma estima que dedico ao rolar na rua, embalado pelo sopro do vento, de um pedaço de papel higiênico usado. O termo não abriga mais nenhuma distinção e não carrega nobreza nenhuma. Não passa de uma vulgaridade.

Entendo hoje a lição que meus alunos, que muitos do povo me davam. O que eles estavam me dizendo era: “Não somos cidadãos. Não nos interessa ser cidadãos. Só queremos vantagens, e vantagens pessoais, para gozo no aqui e agora”.

Não. Cidadão não pode ser sinônimo de povo. Povo é uma massa disforme constituída tão-somente por enchedores de barriga e entupidores de latrinas. Como é assim, o que diabo é que eu quero votando? Se meu voto vale tanto quanto o voto do vagabundo, do irresponsável, eu renuncio a minha cidadania. Se todo mundo é cidadão, cidadão eu não quero ser, que eu não sou igual, que eu não quero ser igual e nem ser confundido com a tralha que se alimenta e alimenta a corrupção, que chafurda no quintal dos “políticos” e que se aquieta na omissão, na justificação dos absurdos quando seus líderes se assentam no poder. Por isso eu voto nulo. Como não posso viver sem o reconhecimento do Estado, reivindico apenas a condição de civil.

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