Nem tão distintos: Renato e Zidane brilham no comando com vestiário na mão
Preço médio da gasolina fica praticamente estável na semana, acima de R$ 4 por litro, diz ANP
Volkswagen Polo 1.6 x Fiat Argo 1.3: comparativo
Maranhão possui maior proporção de pessoas em condições de pobreza extrema, segundo IBGE

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
A Promessa e o Santo

Esmeraldo Lopes

Tudo o que está escrito nesta obra é de minha inteira responsabilidade.Verdade que ela foi inspirada, norteada e enredada com base no depoimento de Edenilde Maria de Jesus.E ainda que ela seja a protagonista da história e a narração se desenrole através de sua boca, nenhuma culpa por erro ou por algo do que está escrito, e que, porventura provoque desagrado a alguém, pode lhe ser imputada. E não pode porque ao desenvolver este escrito não fiquei emparedado no seu depoimento. Selecionei, filtrei, editei, alterei, excluí, complementei, suplementei muitas frases. Modifi- quei, criei e acrescentei expressões, situações, cenários, diálogos, pensamentos, expectativas,acontecimentos... e mantive o que me pareceu,con- veniente, necessário, imodificável. Procedi assim com o objetivo de expressar o clima que envolve e dá espírito às personagens e a história.Para tanto recorri a depoimentos complementares, informações avulsas, consultas sobre aspectos pontuais e à minha memória. Fugi de todo tipo de arbitrariedade, esforçando-me para lastrear a narração, a linguagem e os elementos oriundos da imaginação dentro do quadro da realidade visível, palpável, objetiva e do imaginário local. Imaginário germinado no correr da história, formatado e reformatado no confronto com a natureza, no entrechoque das relações sociais, na luta pela sobrevivência e fortemente influenciado por emanações provindas da religião, da tradição, de crenças, e de ocorrências que não podem ser explicadas e compreendidas pela razão. E nesse particular, botei em mira a ideia de que nem sempre a razão alcança a lógica de certos acontecimentos,comportamentos,ações, entendimentos e compreensões.


Descuidos intelectuais têm levado pessoas a inscreverem obras ou situações como as referidas no correr das letras abaixo, no quadro do realismo fantástico ou do surrealismo.Aqui não há nem surrealismo, nem fantás- tico. Só há vida vivida... e sentida. E qualquer interpretação fora disso é devaneio puro. Puro e barato e só pode sair da boca, de escrita, de gente que anda assoprando a palavra,o palavrão feio:“narrativa”.

OPARA

Esmeraldo Lopes

Com OPARA, Esmeraldo Lopes procura registrar a trajetória que formou a história e a sociedade da gente que habita(ou) o Submédio São Francisco ao longo de mais de 400 anos. A história começa com os moradores originais, os índios, e termina no tempo presente, 1997, às portas do novo milênio. O livro impressiona pela constância de violência, destruição, muita dor e humilhações sofridas pelos índios – nosso antepassado mais remoto, vaqueiros, agregados, e, mais recentemente caatingueiros e trabalhadores, em geral.

A certa altura do livro, relata-se o massacre de 500 índios rendidos, promovido pelos portugueses colonizadores. Um fato cruel, longínquo, que o autor traz para o presente neste momento que o Submédio do São Francisco deslumbra-se com inserções no comércio globalizado. Esmeraldo registra momentos como este de nossa história, não como um garimpador de tragédias, mas como um pesquisador e, mais que isso, um cidadão profundamente engajado na vida do seu lugar, que compreende nas informações coletadas em vasta bibliografia, um fio que explica uma boa parte da infelicidade do nosso povo premido num universo de arrogância e hostilidade construído pela elite ao longo do tempo.

Neste OPARA, Esmeraldo conta história com H maiúsculo mesmo. E não o fez por deleite intelectual. Sua vida, desde que retornou à região, em 1982, como sociólogo, é marcada por um empenho crescente em por na ordem do dia discussões e encaminhamentos políticos, sociais, econômicos e culturais, pontos de vistas e interesses do povo simples e marginalizado, a grande maioria. Este livro é prova desse esforço. Ele nasceu de uma constatação óbvia: as elaborações intelectuais acerca do presente e do futuro da região, careciam de um elemento essencial: o passado. Sem ele, continuar-se-iam os discursos diletantes, o compromisso circunstancial com os interesses da nossa gente.

Entre o início e a finalização do livro, lá se foram cinco anos. Finais de semana, férias consumidas em leituras, redações, reflexões solitárias exasperantes, conversas, discussões. Não bastasse conjugar esse esforço com a labuta do dia-a-dia de professor e pai, Esmeraldo ainda bateu-se contra o descaso de prefeitos das cidades da região para com a memória de seus municípios. Os prédios, com nomes que sugerem bibliotecas, não abrigam livros que falem da história da região. Muito da bibliografia consultado só foi possível com a boa vontade de amigos de São Paulo e Recife. Na consulta bibliográfica, o lapidar meticuloso de quem sabe de uma triste verdade: aos índios, vaqueiros, beiradeiros, oprimidos, não foi dada a chance de contar sua parte da história. A finalidade deste OPARA é contar esta HISTÓRIA.

De Frente para Trás: Lembranças de um Caatingueiro

Esmeraldo Lopes

Eu só o conhecia de nome. A primeira vez que ouvi seu nome foi em Araguaína, hoje estado do Tocantins, na época, estado de Goiás. Meu irmão, Elu, que viera a Curaçá por ocasião da Festa dos Vaqueiros, voltara contando sobre ela, e no meio de seu contado aparecia o nome de Zé de Mariá, lembrado pela força de seus aboios. Isso lá pelos anos de 1974. Quando de meu retorno a Curaçá, aqui e ali, ouvia seu nome, mas não passava de um nome, já que nunca me dera a ver a imagem do homem. Os anos rolaram e eu, desde que comecei a procurar gente do lugar para ouvir suas histórias, nunca pautava Zé de Mariá e nem sequer lembrava dele. Somente no ano passado, quando eu estava contribuindo com um detalhe na preparação da Festa dos Vaqueiros é que Jumária, uma sua vizinha, falou que a presença dele seria muito importante, mas que dificilmente ele compareceria, pois se encontrava adoentado. Ela falou que ele gostava muito de contar sobre aspectos de sua vida.

Quando me botei na intenção de fazer um trabalho sobre Caatinga e caatingueiros, o nome de Zé de Mariá veio bem de frente e fui à sua captura, mas ele não estava mais morando em Curaçá. Foi Januário quem me endereçou a sua localização: “Ele está morando na rua Três, no bairro das Olarias, em uma casinha amarela que fica bem no começo do Canal. Eu passo lá e o vejo sentado na porta”. Um dia, me deu que chegara a hora e fui. Calculei mal. A localização e o nome da rua não conferia com as informações dos moradores do lugar. Parei em frente de uma casa onde um senhor estava sentado na porta, perguntei se ele sabia onde era a rua Três. Ele falou que não, mas tão atordoado eu estava que não olhei a cor da casa onde ele estava sentado. Avistei uma casa amarela em uma esquina e para lá me dirigi. Bati e perguntei se ali era a rua e a casa que eu procurava. Nem o número da casa e nem a rua conferia. Mas a senhora perguntou por quem eu procurava. Respondi e ela disse, indicando com o dedo: “Ali. É aquele que está sentado na porta”. Vi-me idiota. Aproximei-me, identifiquei-me e disse o que queria. De pronto convidou-me a entrar e começamos a conversar. Ele se prestimou com animação. Eu perguntando e ele respondendo. De início se botou meio sem jeito, mas foi se soltando, se soltando e nesse se soltar foram sete horas de gravação em quatro rodadas de conversa, fora o tempo de conversa sem registro, mas que fazia parte da compreensão e esclarecimento das coisas. Quando terminava, por esgotamento, a rodada de gravação, marcávamos o próximo encontro e no momento aprazado, já se botava ansioso e esperava, como uma mulher que está vendo passar a hora de dar à luz: “Há muito tempo eu tinha essa ansiedade, de escrever a minha vida, e nunca me dediquei a fazer, mas que eu tinha vontade”. Foi ele quem decidiu que o que se fazia ali era a escrita de um livro e daí para a frente tratou aquela que seria, pela minha intenção, uma simples entrevista em um livro. E assim foi selado um compromisso. De início eu pensara em fazer uma encadernação simples, mas o conteúdo e sua profundidade passaram a pedir mais que isso. Cada sessão durou por volta de duas horas, no final das quais estávamos ambos cansados, chegando ele, às vezes, a dizer: “Vamos parar por hoje que estou esgotado”. Mas enquanto não chegava essa hora, ele ia soltando uma “porra” aqui, outra ali, e a coisa andando. Respondendo e me sondando o tempo todo. Hora dizia: “Ô pergunta boa da porra!”, em outro momento: “Êta pergunta mais sem pé e nem cabeça! Quer comparar Nosso Senhor com Zé Buchudo?” E se alguma pergunta se reportava a questão já respondida ele indagava com força: “Você não me pega em mentira não, caba! Tá entendendo!?”

As palavras iam saindo sem esforço e minha tensão era grande, por saber que a qualidade de uma resposta depende, por comum, da qualidade da concernência da pergunta, convicção que se fortaleceu depois que li no livro O Homem no Vale do São Francisco, de Donald Pierson, a seguinte história: “Clyde Kluckhonhn, durante uma de suas últimas visitas de pesquisa aos Navahos, o seu amigo Bidaga, membro deste grupo ameríndio, finalmente exasperado com a falta de compreensão desse antropólogo bastante competente a respeito de certo aspecto da vida da tribo que procurava esclarecer, repreendeu-o e disse: ‘Há trinta anos venho tentando explicar-lhe estas coisas, mas o senhor nunca me fez as perguntas corretas”. Evidentemente que uma situação dessas deixa qualquer pesquisador nervoso, pois algumas vezes já me frustrei com entrevistas por estar certo que não estava sabendo fazer a pergunta correta. Acredito que uma entrevista exige, além de seriedade, empatia, adequação do momento e do lugar, assim como disposição do entrevistado e a perspicácia do entrevistador. Se este não conhece bem o assunto sobre o qual questiona, é melhor ficar atento e ir se orientando pelo que diz o entrevistado, prestando atenção em cada detalhe, pois nunca se sabe se há uma segunda chance e nunca se deve fazer suposição sobre o dito, quando aquele que diz está ali para esclarecer o seu próprio pensamento e a situação a respeito da qual está falando. No caso de Zé de Mariá, foi uma moleza, até onde percebo. Ele estava sempre à minha espera, e reclamando da minha demora em aparecer. Ele queria se ajudar ao me ajudar, ou como nas palavras dele, “escrever um livro através de suas mãos”. O homem queria parir e eu estava com tempo de maturar o já dito, o que me permitia buscar o preenchimento das lacunas que eu ia encontrando. Para saber mais e me aprofundar no objetivo que embalava minha curiosidade, eu usava o recurso de perguntar até aquilo que aparentemente era óbvio, e não me surpreendi por obter respostas muito distantes do que eu esperava.

Eu recebi muito, muito mais do que esperava. Diante de mim, um homem de 69 anos, machucado pela vida da peleja nas caatingas, carregando no corpo as marcas de sua história sob a forma de cicatrizes que exibe como documento e que, portanto, lhe fazem lembrar, pernas enfraquecidas, passado sofrido, mas vivo, sem ressentimento, olhando para trás com a consciência de que fez o que estava ao seu alcance fazer e que procurou fazer o que fez da melhor forma. “Se hoje eu tô com os nervos das pernas arrombados desse jeito eu penso que foi isso que eu plantei naquela época, e agora tô colhendo”. Mesmo carregando o peso da dureza enfrentada, das pancadas dos paus nas carreiras atrás de boi, não se acha velho. A idade só lhe vem quando, ao falar dos tempos passados, vai se referindo aos companheiros, e ao anteceder seus nomes com o adjetivo de finado, exclama: “Menino! esse povo já morreu quase tudo. Virge Nossa Senhora!” Mas não se deixa parar e se lança para o futuro nas asas de Jaldes, filho adotivo, da turma formada por seus netos e de Mariazinha, sua dedicada esposa.

Não queiram muito, aqueles que lerem esta entrevista. Ela não pode ser caracterizada como a história da vida de Zé de Mariá. A história de um homem não pode caber, nem de longe, em papéis sob o formato de páginas. Sete horas, que seja mil, não podem cobrir o percurso de uma jornada de 69 anos. Nessa estrada tem muito pau, bicho, gente, emoção, ilusão, sonho, experiência, frustração, vontade, alegria, tristeza... Esta entrevista, em verdade, não passa de fragmentos. Por outro lado não se buscou detalhes da vida familiar, se bem que alguns, muito poucos, foram referidos. Como em tudo que retrata a vida humana, muitas coisas não foram ditas propositadamente, por não convir ao entrevistado. Outras me foram ditas, mas com compromisso de silêncio.

Quero finalizar esta apresentação dizendo que talvez seja esta a obra escrita mais recente e mais rara do mundo, pois apenas seis exemplares foram produzidos, e externar meus agradecimentos a Zé de Mariá, por ter me acolhido, tolerado e acreditado.

Dissertação de Mestrado

Esmeraldo Lopes

A questão tratada nesta pesquisa refere-se ao papel da memória coletiva em uma situação de mudança social. O trabalho desenhou-se a partir do estudo de duas coletividades do município de Curaçá, localizado no norte do estado da Bahia, que foram de formas diferenciadas atingidas pelo processo de modernização implementado na região, no início da década de 1960.

Nesta pesquisa, analisou-se a condição de existência em agrupamentos humanos tidos como tradicionais, a partir do esforço de reconstituição de modos e estilos de vida e de trabalho, em um tempo em que, segundos os informantes, “as transformações sociais ocorriam muito lentamente” e seus habitantes desenvolviam uma relação mais estreita com o lugar. Avaliam-se a forma e o impacto da penetração dos objetos e as relações sociais da modernidade nesse meio e, por fim, discute-se a influência da memória coletiva no processo de re-configuração social, no limiar da construção de um novo tempo. O trabalho de campo foi iniciado no mês de janeiro de 2003, e concluído no mês de maio do mesmo ano.

Caminhos de Curaçá

Esmeraldo Lopes

Como viver em um mundo, em um espaço cuja origem e contexto se desconhece? Esse tipo de preocupação sempre perturba aqueles que buscam conhecer suas origens, se situar no tempo, no espaço que ocupam. Mas ela se acentua na medida em que mudanças e novas formas de ser e viver, vão sepultando velhas práticas, costumes, histórias. E, de repente, toda a nossa história passa a jazer nos cemitérios. Nos cemitérios silenciosos que também vão sendo sepultados pelo tempo. E, quando um cemitério ou sepultura é sepultado pelo tempo, toda história se resume a uma frase: “É coisa do outro século. A gente não sabe”. E esse não saber nos distancia de nós. É o nascimento de um mundo erguido sobre outro que, com o correr do tempo, cada vez mais se desconhece.

Foi buscando esse desconhecido que procurei gravar em papel parte daquilo que estava e está sendo sepultado cada vez que um caixão desce à sepultura. Foi essa a preocupação que me conduziu a um esforço de conversar com os mortos, de desenterrar sepulturas, ao rastrear escassos papéis, os passos dos mortos através dos vivos que, de alguma forma, ainda os mantinham vivos em suas memórias. Mas, também segui passos dos vivos, que falaram sobre os tempos que já morreram, sobre os tempos em que vivem e sobre os tempos que virão. A matéria-prima: os velhos. Eles que são os principais depositários de nossa história.

Esse trabalho não foi iniciado por si mesmo. Preocupado com o vazio que desune o passado do presente, elaborei uma proposta de criação de um museu, o Museu Zoo-Parque de Curaçá, e a entreguei ao Prefeito. Este, ao lê-la, queixou-se do fato de não possuir sequer registro fotográfico do distrito sede, das sedes dos demais distritos e povoados. Ansioso por conhecer o município, me propus a tal empreendimento e, logo na primeira viagem, percebi que era muito pouco efetuar apenas registro fotográfico. Sugeri, então, um trabalho mais amplo que compreendesse registro escrito sobre a memória de cada distrito e povoado.

Vozes do Mato

Esmeraldo Lopes

Vozes do Mato é parte da memória de um tempo. É uma memória em memórias de todos aqueles que a fizeram: os já finados e os que ainda respiram neste mundo. Seu objetivo é tão somente registrar parte daquilo que foi e que o vento do tempo parece querer nos esconder; servir como instrumento de rememorização para aqueles que, de alguma forma, entraram em contato com esse tempo ou o vivenciaram; fazer chegar ao jovem descendente do homem do campo alguns aspectos da vida de seus ancestrais e, eventualmente, fornecer pistas a quem se interesse pelo pensamento e estilo de vida do caatingueiro. A estes se dirige.
A realização do presente trabalho foi impulsionada por dois motivos: um de caráter histórico, de redescoberta de identidade e de auto-afirmação cultural (1975); outro, de natureza emocional, em um momento difícil de nossa vida (1986).
Saudosismo? Não fez parte de nossas intenções. Cecília Meireles já nos ensinou que “não se pode resgatar uma tradição interrompida... E repeti-lo seria fazer perdurar um texto ininteligível, mal copiado sem nenhuma eficácia. Letra disforme e espírito perdido”.

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