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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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ESPANTO ESCANDALOSO
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Sem lugar para ingenuidade, só má-fé, estupidez ou demência podem explicar o espanto de brasileiros diante da revelação de atos de corrupção praticada por políticos e por ocupantes de postos elevados na administração de órgãos do Estado no Brasil. Rejeitem-se os argumentos de desinformação, de falta de conscientização, por serem eles de todo incabidos. Incabidos porque os sinais da corrupção se estampam sem silêncio e sem camuflagem. A corrupção é um dos principais fundamentos da política e da administração brasileira, senão o principal. E digo: sem corrupção, a política no Brasil irá a zero e o que se convencionou chamar de cidadão quedará em sentimento de abandono, sentir-se-á traído. Não vou falar dos reflexos do fim da corrupção na economia e nem na vida social e privada. Mas aproveito para dizer que com o fim da corrupção o país passaria por uma séria crise que produziria conseqüências semelhantes às de uma revolução. Teria que ser completamente reestruturado e os brasileiros só se submeteriam ao sacrifício de reaprender a viver debaixo de fustigação. Diante da solidez e da frieza caracterizada pela impessoalidade das instituições refeitas, sentir-se-iam enjeitados, desprotegidos e lamentariam a pena de terem de ser dignos e obrigados a andar nos riscados da lei, de ser forçados a desenvolver competência e, acima de tudo, de se responsabilizar por seus atos. Constrangidos a isso, a tristeza invadiria o espaço de seus sorrisos e o Brasil estamparia a imagem de país depressivo.

Provavelmente o leitor deste escrito achará que sou louco, que estou falando asneira, afinal, como tenho ouvido reiteradas vezes e de mil bocas e canetadas diferentes, “temos que acreditar nas pessoas; temos que acreditar que estamos progredindo; temos que acreditar que a dignidade, que a seriedade é inerente ao ser humano”. Ocorre que no meu pensar está indicado que lugar de quem tem que acreditar, de quem vive de fé, é nas igrejas, tanto faz que seja como fiel ou como pregador. Por isso, antes que decrete a condição e grau de minha loucura, faça uma reflexão colocando em foco o expediente que você utilizou para arranjar e se manter no emprego, para resolver problemas em órgãos públicos, para conseguir promoção, para obter e se manter em situação de conforto, sem conflito, para atingir condição de segurança social e examine os critérios que utiliza para escolher os representantes nas esferas políticas. E se fizer esta reflexão, observando também os procedimentos que vizinhos, colegas, amigos e conhecidos adotam, chegará à conclusão que a corrupção, se pensada em conceito um pouco elástico, está incrustada nos corpos e nas almas dos brasileiros. Para facilitar a compreensão do que digo, considero como corrupção não apenas o ato de subornar ou aceitar suborno, mas também votar ou proceder visando à obtenção de privilégio e a adoção de comportamentos que remetam à cumplicidade com práticas ilícitas. Nisso, tanto faz que o que se vise seja a impunidade, a manutenção da posição ou a condição de não precisar se submeter às regras ou às apreensões da espera em uma fila. Foi mais ou menos correndo por riscado de juízo assim que Milton Santos sentenciou: “A classe média não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar”. A classe dominante está montada em privilégios, a classe média se apropria de parte deles fazendo o jogo dos dominantes contra os pobres, os pobres invejam os que têm privilégios, submetem-se ao que for preciso e rastejam ansiando consegui-los, contentando-se com simulacros. Este estar não é epidêmico, não é pandêmico. É estrutural. Foi construído no seguir da história, em contínuo. Fez-se cultura, e emoldura a personalidade dos brasileiros. Neste estar, a corrupção em berço esplêndido, praticada, aceita, tolerada e até querida. Querida sim, pois se torna objeto de inveja quando materializada e visualizada na imagem de pessoas que são apresentadas como exemplo de sucesso. Mas poder-se-á questionar o dito aqui pela alegação de que estou fundindo corrupção com privilégio. Não. Não estou. No Brasil, devido ao sistema legal proclamado e aos discursos badalados em todos os quadrantes, privilégios decorrem de práticas injustas. Portanto, a existência deles só se sustenta pelas mãos da violência e da corrupção.

O brasileiro que tenta correr nos riscados do direito, sustentando-se em sua situação com base em mérito, vive em estado de agonia. Se possuir boa condição econômica ou social, por não se envolver com o manto de privilégios, por não partilhar a rede de cumplicidade, é visto como inconveniente, como criador de caso, indigno de merecimento de confiança. Por pautar suas ações, seu comportamento pela discrição, pelo cumprimento dos requisitos e formalidades ditadas pelas normas, por não dar carteiradas e por obedecer a ordenamento de filas, é visto como fracassado, como besta-coitado. Se não tiver boa condição econômica ou social, não passará de zé-ninguém.  Viverá como um zumbi, sem respeito, sem estima, com visibilidade de atoleimado. Mas a verdade é que para cada sujeito que perfila o caminho do direito e do mérito, há duzentos, quinhentos, perfilando as trilhas do privilégio. Estes ditam as normas, impõem-se pela truculência, fazem valer a herança histórica deixada por seus ancestrais, o grau de articulação, as relações que possuem, a condição numérica. E a delimitação do nível de privilégio a ser alcançado, conforme a capacidade de truculência, a herança ancestral, o grau de articulação, as relações que possuam. Como a manutenção das posições alcançadas não podem ser garantidas em mansidão, aqueles que as obtém franzem a testa, arregaçam os dentes, rugem e abanam o rabo posicionando-se para briga o tempo todo, resguardando território. Mas se, entretanto, surge ameaça de um ser que estampa garras mais afiadas, aí então, o ser outrora em posição de guerra, amansa, fala fino, esconde o rabo e trilha aviltado no caminho do ordenamento que lhe é dado. E aí é onde está a coisa. Se os que ocupam posições deveras privilegiadas, a gosto ou a contragosto pactuam entre si, é porque a partilha dos recursos e bens que se apossam proporciona tal condição. O problema é que há o povo. E o povo também quer participar do festival. E tem corpo de monstro sem cabeça, é ameaça, precisa ser contido. Então, contenha-se o povo dando a ele acesso a migalhas. Migalhas de privilégios, de bens, de recursos. Aí, a elaboração de políticas públicas contenta-bestas, tolerância de práticas ilegais, uso indevido de espaços públicos, atendimento escolar com “educação” degradada, arremedo de assistência médica, feitura de obras públicas sem plano, com objetivo de agrado, empregos miúdos, agrado de intimidade, de aproximação fingida, permissividade, festa animada por banda-mundiça; e principalmente, participação na corrupção através de algum pegadinho de suas migalhas: gasolina, material de construção, pequenos serviços, contratos irregulares, cesta-básica... Tudo isso lubrificado com vaselina alucinógena embutida no discurso difusor da condição de igualdade. Mas não pára aí. Os afirmados válidos para o correr da vida em anos ordinários, pois de extraordinário, o período de eleição.  Período de eleição, sim, pois na esteira da igualdade, apregoou-se o exercício de cidadania, a existência de democracia. Eleição... o remexido do mundo. Os dominantes discutindo, fazendo combinações, negociando repartilha dos bens e do acesso aos recursos do país, e se dividem por desacordos. Vão à forra na guerra das eleições. E nessa guerra, o voto como presa, a malandragem como arma. Voto como presa, malandragem como arma, porque, na vera, o cidadão é uma ficção. E esse “cidadão”, objeto de disputa astuciosa, de compra clara, de conquista por amedrontamento. Para ganhá-lo, a montagem de parafernália monumental, estruturação de imensas redes de articulação, montagem de aparato material, gasto excessivo de dinheiro, contratação de especialistas, envolvimento de pessoas influentes, negociação de benefício com os classe-média. No teatro da guerra, políticos com prestígio federal, estadual, regional, municipal, pessoas com influência em cidades, em quadras, em ruas, em segmentos sociais, em setores de atividades profissionais, cabos de campanha, “militantes”, motoristas, transportadores, propagandistas... Todos movidos a interesse aberto, a dinheiro, movimentando-se para prear “cidadãos”. Os “cidadãos” se astuciando, jogando o jogo da guerra eleitoral. Para os “cidadãos” de classe média, lance de ocupação de cargos, oferecimento de meios para armarem arapuca pega-propina, abertura de canais junto ao poder, facilitação e ampliação de privilégios; os “cidadãos” dos degraus inferiores ouvindo os lances dos leiloeiros, recolhendo promessas, pegando dinheiro, recebendo oferendas, exigindo a elevação dos lances, entusiasmando-se com promessa de empregos. Fecham negócio com um, com outro, com mais outros, aceitam ofertas de vários, prometem fidelidade a todos. E enquanto os contendores se debatem no cenário de guerra, no envolto da poeira, do frêmito dos leiloeiros, a imprensa em anunciação de cidadania, juízes eleitorais jogam com palavras, brio no processo eleitoral, o ministério público anuncia as punições para infratores, para corruptores. Até que a proclamação dos eleitos. E os eleitos se livram das manchas obtidas na campanha, os “cidadãos” nunca as viram, a justiça comemora a pacificidade do pleito, a lisura do processo. Todos parabenizados, dignificados, louvados. A poeira baixa e tudo volta para o normal. Mas, entrecortando a normalidade, um acidente. Denúncia de corrupção, de desmandos em órgão público. A imprensa se assanha, os “cidadãos” acendem os ouvidos, o falatório se solta sem freio. Imprensa, “cidadãos”, bradam, reclamam punição, querem justiça. E, como a esposa, a noiva, que diante do corpo do amado defunto resolve fazer espetáculo gritando “Ai, meu Deus! Me segurem que eu vou desmaiar!”, exaltam-se em espanto escandaloso, mostram-se indignados, reclamam punição, porque de repente, ficaram dignos demais e ninguém vê em si responsabilidade nenhuma.

11/09/14

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