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TROPAS DE OCUPAÇÃO
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Estrangeiro... Estrangeiro é quem não pertence ao lugar onde está. É estranho ao lugar, o lugar lhe é estranho. Pertencer a um lugar é incorporá-lo e por ele ser incorporado, é conhecê-lo e nele ser reconhecido; é fazer parte de sua paisagem, orientar-se com intimidade em seu espaço, ter noção de sua história, ornar o pensamento com suas imagens, familiarizar-se com seus barulhos, absorver seus cheiros, seus gostos. Depois disso, não importa que o sujeito tenha nascido em outras bandas, em mundo distante. Funde-se e confunde-se com os naturais, e mais que morador, que residente, torna-se habitante. E os habitantes de um lugar andando em passo seguro, por conhecerem os sentidos transportados nos gestos, nas palavras; por conhecerem os segredos dos caminhos; por se vincularem aos outros habitantes por alinhavo de identidade; por partilharem destino; por entenderem dispor de abrigo de proteção, de socorro em caso de infortúnio; por se tornarem íntimos das mesmas dores, dos mesmos sacrifícios, tomando-os como normais, enfrentando-os juntos; por trazerem nos corpos, moldados no ritmo da vida vivida, da vida em viver, inscrições, cicatrizadas ou supurentas, das maldades sofridas, das maldades praticadas No assim, campos, povoados, distritos, cidades, com cara, com jeito, com cheiro de lugar, sendo lugares. Mas eis que por circunstâncias essas, por circunstâncias aquelas, a eclosão de guerra contra inimigo externo, de guerra civil, o pipocar de conflitos internos fermentados no caldo de desarranjos sociais, econômicos, de mudanças abruptas, de mudanças provocadas por ações, por agentes modernizadores.

No avançar vitorioso de tropas de ocupação estrangeiras ou intestinas, nascidas de guerra civil, os defensores, os habitantes do território em conquista entrando em pânico, pondo-se, pelos fatos, pela imaginação, de frente com imagens aterradoras, com o cheiro de fim de mundo. Enquanto o vencedor não sedimenta sua conquista, os vencidos acompanhados pela desestruturação, pelo desespero. As tropas inimigas entrando, abrindo caminho a rajadas de metralhadoras, a ponta de baionetas, atropelando tudo, arrombando portas, estuprando, saqueando, prendendo, fuzilando, sitiando, impondo vontade sem consideração ao existente, sem dar ouvidos a clamor de vencido. O vencido conhece seu destino. O vencedor conhece o destino que os vencidos lhes devotam. Inimigo é inimigo. Inimigo o vencedor, inimigo o vencido. Ambos em caras reconhecidas, sem disfarce. Nenhuma expectativa de consideração, de agrado. Desconfiança recíproca. Inimigos. O invasor tentando despir o vencido de seu ser, impondo-lhe voga, envolvendo-o em agonias, empurrando-o no caminho da capitulação. O lugar do vencido em desfiguração, desfiguração pelo arruinamento das paisagens, pela violação de seus significados, pela desestruturação dos ambientes de intimidade. Mas mesmo seu lugar sendo estrangeirizado, mesmo estranhando o comportamento de conterrâneos, mesmo se vendo forçado a se proteger na desconfiança, mesmo vendo-se visto de cima para baixo ao olhar o olhar imperioso do vencedor, o vencido se agarrando no que resta de si, esforçando-se para preserva a ideia do nós, formada e adquirida no espaço de seu lugar. E se alimenta com a esperança da reconquista, da remontagem do seu lugar, da expurgação das agonias do domínio e da submissão, pela luta ou pela expectativa do trabalho da ferrugem do tempo. Está vivo, debatendo-se, o vencido.

Tropas de ocupação modernizadoras, desfazendo o lugar, reformando os habitantes, impondo-lhes novo ser, depreciando, ridicularizando a história; desprezando os objetos, as técnicas, os recursos, os conhecimentos até então existentes; atropelando os costumes; implantando cultura transplantada, marginalizando os resistentes. E instituições importadas fazendo os ditames da vida, indicando caminhos, redesenhando o espaço. E o lugar, a vida, estrangeirizados, os habitantes alheados, em imagem de gado empurrado pelos caminhos.

Tropas de ocupação, estrangeiras, intestinas, em luta pelo controle do Estado, ordenando-se por comando central, visíveis, previsíveis, agem em bloco, uniformes, com seguir indicado por objetivos. Pelo mesmo modo, tropas de ocupação modernizadoras. Mas eis que no perímetro de um território, na área de atuação de um Estado, nas entranhas de uma nação, o pipocar de conflitos internos fermentados no caldo de desarranjos sociais, econômicos, de mudanças abruptas, ocorridos na esteira de colapso das instituições. Nesse acontecer, o desagasalhar continuado das relações sociais, os habitantes se chocando em desentender, o a vir, turvado. Aí, o lugar se espatifando. A vigência de desregramento social, de apodrecimento institucional, de impotência social, de permissividade. E as pessoas se desvencilhando de responsabilidade coletiva, mergulhando em si e em si ficando, apáticas, isoladas, pasmadas. Terreno para estouro de boiada. Tropas de ocupação: oportunistas, vagabundos, bandidos, corruptos, omissos, coniventes. E os portadores dessas qualidades se compondo em blocos heterogêneos, ora se ajeitando em conluio, ora se atritando, mas sempre em avançar sobre os pontos e posições estratégicas do espaço de toda a sociedade. Nesse avançar, áreas geográficas, ramos de atividades, agências institucionais..., tomadas, funcionando pelo assopro do interesse dos grupos que os assenhorearam. A esperteza oportunista, bandida, adquirindo imagem, condição determinante, agindo sem freios, desmoralizando a ética, sufocando a honestidade, a retidão. A vadiagem com caminho aberto, premiada, avançando sem medida, sem temor. A bandidagem fazendo regra, ditando norma de vida, amedrontando, silenciando. No misturado de tudo isso, a justiça em palerma, tolerando o mal, em meio abraço com ele; a política prenha de vadios, de “espertos”, de bandidos; a economia nutrida com corrupção; a polícia contaminada por tudo, desacreditada, pondo-se em postura de defensora do mundo, mas cometendo arbítrios, torturando, avançando truculenta sobre as pessoas, olhando-as de cima para baixo, tomando-as como suspeitas, inimigas, segurando-se pela posse de armas. Essas tropas de ocupação com comandos diversos, entrecruzando-se pelos caminhos em arranjos e desarranjos provisórios, agindo pela indicação de interesses particulares no agora de cada circunstância, movimentando-se em marcha descompassada, pulverizam a população e têm as pessoas como pasto. Esbandalho. As pessoas a esmo, estrangeiradas, alheadas, impotentes, fingindo-se de cegas, de surdas, de mudas, impondo-se personalidade de omissas, de cúmplices. E fazem isso, algumas, por temor de perderem a “vida”; outras, para se manterem nas posições que ocupam, para ornarem com bens materiais, o espaço destinado à dignidade. E, enquanto se equilibram na vida assim, procuram esperança nos galhos da fé, sonham com o surgimento de força forte para seu amparo seguro, mostram-se prontas para serem moldadas na direção de algum seguir. Estamos no descambo deste caminho.

02-09-14

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