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DEGREDO
Esmeraldo Lopes

A tarde fria, chuvisquenta. A cidade se desanimando na fisionomia desanimada de seus habitantes. O cinza do céu fazendo cobertura ao tédio. Musgos brotando nos pés de parede, se encaminhando por rachaduras, cobrindo o chão nos lugares de pouco pisado. Vou em andar de andante sem curiosidade. Sem atenção de destino, dou-me sentado à mesa de uma barraca de flandres, situada na lateral de uma praça morta.  Ali, o nada se preenchendo com música de banda-chama-merda. Cerveja, cigarro, a memória trabalhando sem direção. Uma frase insiste convocando atenção: “Uma alvorada triste”, título de escrito de Euclides da Cunha. Mas só vem o título, título sem texto. A voz, a face de Brizola pousando: “Povo brasileiro”..., “Vamos acabar com os privilégios dos que massacram o povo brasileiro”. E as vaias: “Izola! Izola!”, em coro de latido pela demência petista. A cena do enterro de Brizola, do enterro do último político que temperava política com emoção, com paixão. “Uma alvorada triste”. E vem o frio da voz espinhenta do analfabeto sem dedo, assoprando frases no tom dos cantados pelas bandas-chama-merda, prometendo solução das coisas do aquém, das coisas do além, querendo devoção, reprimindo crítica. “Uma alvorada triste”: o som do dizer: “A voz do povo é a voz de Deus”. O ver do analfabeto sem dedo se apoiando na elevação da auto-estima dos miseráveis, na obra de miserabilização dos pobres, na gratificação aos oportunistas, na ingenuidade dos incautos, na cobiça dos burgueses, para ganhar eco na voz do povo e se fazer Deus. E estrala em meus ouvidos a voz da militante petista dizendo: “No meio dos inteligentes ele não tem prestígio, mas no meio da pobreza!”...

“Uma alvorada triste”. O chegado da lembrança dos candidatos a presidente da República se desviando de política, se bandeando para assistência social, se fincando no compromisso de remendos acode-acode: mais escolas, mais creche, mais estrada, mais emprego, mais cirurgia, mais bolsa-renda, mais assentamentos, sorriso para casamento gay, atenção aos sem-terra, aos sem-teto, atendimento à ecologia... Brasileiros inexistentes, Brasil ausente... O barco Brasil à deriva, já no despenhadeiro, eles entretidos em tapar os furos do casco, prometendo salvação.

“Uma alvorada triste”. O ecoar da recomendação-cobrança de um colega: “Se você não vota em Dilma, então se alie logo a Collor, para ficar na direita assumida”. Eu, embalançando entre voto em Plínio e voto nulo, direita. Ele, fazendo campanha para Dilma, que apóia Collor, Roseana Sarney e cambada, esquerda.

“Uma alvorada triste”. Os chuviscos, o frio, o anoitecer, a elevação do som da música chama-merda. Acalanto: chega-me o cochicho há muito assoprado em meus ouvidos por João Pescocinho, um doido: “Meu fio, boca calada que os inimigos estão em todo lugar”.

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