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A vingança
Esmeraldo Lopes

Amores profundos sempre terminam em tragédia; amores superficiais em desastre. Que cada um encontre a medida de avaliação da intensidade de um amor. Em verdade, amor profundo só tem vigência de nascimento no tremor de grandes desgraças. Aliás, não é só o amor, tudo o que é sólido, só é sólido porque teve a capacidade de se fazer na desgraça. Não é nela que surgem os grandes amores, nascem e morrem os heróis? Fora das situações penosas, a imitação, o disfarce. E todo mundo procura ser o que idealiza, sem a necessidade de se pôr à prova.

Margarita... Margarita sentava-se à minha mesa à espera do noivo. O seu comportamento era a verdadeira coroação de santificação da virtude feminina. Diante dela, a impressão que eu tinha, é que todos nos transformávamos em paisagem morta, como as cadeiras, a mesa e as garrafas. E assim, até que chegava a chave do seu sonho de amor: o noivo. Ele fazia aquele aceno de benção para todos, e se devotava em atenção plena e exclusiva a ela. Éramos pura paisagem. Quando eles se davam a licença de alguma atenção aos circunstantes, era com tanta solenidade nas palavras e gestos, que ficávamos com um certo ar de sem-graça. Muito antes de anunciarem a data do casamento, ficava clara a sua preparação. Escapava aos nossos ouvidos nomes de padres, referência a igrejas, preparativo da festa... A gente ia juntando as coisas e fazendo a conclusão no sair deles. Entretanto, algo chamou à minha atenção, acho que só à minha: Margarita passara a conduzir junto com os cadernos, livros de iniciação à relação conjugal. Não sei se Felipe fazia atenção naquele tipo de preparação, mas observava-se que a cada dia ele se apresentava em enquadramento maior. A todo convite da gente ele vinha com um “Não posso”, “Minha noiva marcou”...  Vou encurtar a história. O casamento aconteceu logo após a formatura de Margarita. Festa supimpa, em uma chácara, com padre e juiz na certificação do ato, e o prefeito como padrinho.... Nós, os do bar, lá no afastado da elegância dos demais convidados. Recebemos a graça da presença deles por uns dois minutos. Não sei se foi presença ou despedida, que depois dali só ausência.

Outro dia eu estava no bar onde Margarita costumava esperar Felipe. Das pessoas do tempo da presença deles, só eu, que a turma de encontro se desfez. Senti um puxado no pescoço acompanhado pela expressão de uma voz feminina: “Olá, meu brother”. Levantei a cabeça desconhecendo a imagem de cabelo vermelho-paixão, trajando calça santropê e expondo um decote sensualizante. Levantei-me desentendido. Margarita  com um par de dedos esticados nos braços levantados para meu abraço: “Tô no reggae, meu brother”. Perguntei por Felipe. “Aquele filho de uma puta me traiu. Agora sou livre! Ele tá pagando, apaixonado. Tô nem aí”. Eu nunca tinha visto uma situação assim: virar periguete para se vingar do marido, ou do ex. Depois pensei: de qualquer modo há uma coerência nisso: a continuidade da representação.

Emendo aqui a história de Margarita com a de um sujeito que veio em minha direção dizendo: “Não me conhece mais? Eu fui o esposo de... Ela virou sapatão”. Pensei: “Será que ele virou veado para se vingar de...” Mas, logo em seguida o festejo: “Pra mim foi melhor. Ela tinha 35 e eu casei com outra de 19”.

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