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Glória triste
Esmeraldo Lopes

 

Não se trata de história de alguma mulher de nome Glória que se entristeceu. Quero me referir ao um povo que escolheu se fazer na vanglória de vaidade apodrecida. É verdade que a história agiu fazendo-o, mas, quem faz a história? Parta-se do princípio que a vida é feita de escolhas e de suas conseqüências, que se não se age sobre as conseqüências é porque elas expressam o efeito desejado.

O escrito acima é preâmbulo, que o assunto aqui é Bahia. Bahia, não, baiano. Faça-se a distinção: Bahia é um estado, baiano é postura, estado de espírito. Estado de espírito plantado e cultivado em Salvador - Bahia.

Lá nos longe da história, Gregório de Mattos berrava no vazio, o clima de bestialidade do corpo e da alma da gente vivente em Salvador:

“A nossa Sé da Bahia,          
com ser um mapa de festas, 
é um presépio de bestas,       
se não for estrebaria:” (...)

Duzentos anos depois, Luiz dos Santos Vilhena grita nas letras, proclamando a desgraça do assentamento Salvador: fétido, promíscuo, degenerado. Gregório imortalizou-se, envolto na irreverência da alcunha “Boca do Inferno”; Vilhena mofou na escuridão das estantes esquecidas. Nas algazarras das ruas, nos fungados das alcovas, nas esculhambações nos palácios, continuava desfilando a Bahia. Salvador era toda a Bahia. E nesse desfilar, um político, em uma mistura de ira, frustração e gozação, soltou: “Imagine um absurdo... E na Bahia já aconteceu!”. Aconteceu na Bahia da Bahia.

No ir de jeito assim, as coisas nascendo e se afogando no suceder do dia-a-dia. Foi que veio o brado da exaltação da degeneração Bahia. A preguiça, o rebolado das baianas, o gingado dos malandros, descuido, relaxidão e pobreza subindo ao trono nos escritos de Jorge Amado, nos cantos de Caymmi... O mundo entrou a se bestificar na adoração do paraíso da escrotidão. Bahia cartão postal, a população exagerando para se enquadrar nas louvações anunciadas. Novos anunciadores: Caetano, Gil... O desbunde, a turma do arraso fazendo glória, se ampliando. Hotéis, restaurantes... E a Bahia virou arapuca pega-turista. Baiano produto: gentil, subserviente, desafeito a trabalho, “anfitrião”... um ser despersonificado para corresponder à imagem do tipo anunciado. E, de repente, tudo se consagrou no requebrado mirabolante de bundas embaladas nos batuques de timbaus. Timbaus no chão, timbaus nos trio-elétricos. E as músicas... na medida certa para bandas chama-merda. Lavagem, lavagem... Lavagem e merda.

Baiano, “povo que sabe viver”. “Povo feliz”, “irreverente, que mostra a rebeldia mijando e defecando no chão das ruas”; não paga, não cumpre, festeja. Bahia: liberdade, paz, alegria e felicidade. No esquecimento disso, um professor da Bahia, questionado pelo insucesso dos alunos do curso que coordenava, revelou uma constatação: “Baiano só toca berimbau porque o instrumento só tem uma corda”. Os inteleca mamãe áfrica se enfezaram, aturdidos pela queda da máscara. Não resta dúvida, foi um dizer de certeza de ciência, pena que falhou na argumentação. Evocou neurônios como causa. Não, caro professor. O problema não é de neurônio, é de subnutrição cultural, causada pela abundância de ingredientes da baianidade.

“Ó Paí, ó”, homenagem a uma glória triste.

Baiano, eu? Não! Sou da Bahia.   

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