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O SUPERFICIAL
Esmeraldo Lopes

                                                             Há gente de todo tipo, mas o tipo de gente que quero ver cada vez mais distante de mim é aquele que é incapaz da contemplação, da introspecção. Esse tipo está sempre ávido pelo presente e nele se detém e adota permanecer todo o tempo. É incapaz do espanto, de uma parada diante de algo que não seja a dor imediata causada por algum transtorno.

O superficial é reles. Não passa de um corpo animado. A mais estreita aproximação de que é capaz, deixa a vaga de um oceano. Seus sentimentos não vão além da pele, e dele pode-se dizer que é pura pele. É incapaz da gratidão e da compreensão. Vive pela sensação de emoções rasas, passadiças. Por isso detesto todo tipo de gente que se orienta pelo hedonismo.

O superficial é dado à moda, e esse pessoal que gosta a rolar ao sabor do vento, não tem nem passado e nem futuro. Como puro animal, só dispõe do presente. Por isso se dá à liberdade da efemeridade e do ridículo. Só não pode ser igualado a um copo descartável porque um dia poderá remexer no seu próprio monturo.

O homem que se põe um projeto que transcenda a si, que busque algo amplo como a solução ou a compreensão de algum problema da humanidade, pode, aí, encontrar algum resquício de felicidade, exatamente porque nisso se esquece. Mas isso está longe do superficial.

Tédio e felicidade, felicidade e tédio: eis o percorrer incessante do superficial. Assim, porque não consegue sair de si. Mas o que chama de felicidade, o que assim classifica, é pura idiotia.

Outro dia, em uma fila de caixa de mercado, ouvi um mugido genuíno, autêntico, sincero, explodir da boca de um superficial, no anunciar do valor da compra que teria que pagar: “Tudo isso!? A gente só trabalha para fazer bosta”. Uma frase certeira e bestial, que se acompanhou do prazer de poder comprar.

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