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Indignação da indignidade
Esmeraldo Lopes

A rua era um cheio de gente que ia, que vinha, que se enfileirava a espera da abertura das portas dos bancos, que distribuía folhetos com oferta de empréstimo fácil, que punha bugigangas ao olhar dos transeuntes, que botava olho atento na carteira de desprevenidos... Em matéria de gente, ali tudo havia. Mas o comum, que esse é o movimento de todo dia, no mesmo lugar. No assim, do desconexo de acontecimentos sem plano e sem liame, se sucedendo uns aos outros, qualquer ocorrência perdeu pouso para espanto. Tanto, que tanto, que os malfeitores ali, não fazem segredo de palavra, nem encolhem gesto, correndo seus atos às claras e suas conversas saltando aos ouvidos sem pedido de licença. Quem não for da laia que se disfarce no acabrunhamento, na surdez e na cegueira, como forma de condução da vida. Se de um grito estourar: “Filho matou mãe e assou sua língua para aperitivo, depois de tomar cachaça”, ninguém oferece ousadia de atenção esticada. Um ou outro pode ser que sim. Não sei se fui o um, ou o outro, e nem se havia outro. O certo é que o estrondo saltou em meus ouvidos: “Ele precisa saber que ladrão também merece respeito! Merece respeito! E isso eu vou mostrar a ele... vou!”. O reflexo conduziu minha atenção. Quando me dei, estava fitando um sujeito apessoado no trajar, que sacudia as mãos no ritmo do mugir. No que vi, além do camelô indiferente, postando à frente do raivoso, só eu fora atraído por aquele acontecer. Aquela coisa ficou me batendo, batendo... mas entrou a se guardar na gaveta do esquecimento.

Eu estava no tombar de cochilo indefinido, zonzo, com atenção voando. O som da televisão acalentando o meu estar sem rumo. Uma voz ecoou: “Assassinado dentro de casa, na presença dos filhos. Que absurdo! Que absurdo!...” O cochilo sem rumo. De repente, uma voz chorosa: “Eu quero justiça! Eu quero justiça! Ele era bandido, mas também era cidadão. Eu quero justiça”.

Os conceitos se invertem, e só os “civilizados” não têm capacidade de indignação.

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