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POEIRA DO BAGAÇO
Esmeraldo Lopes

Toda época tem seu chic. As pessoas sempre estão a correr atrás do chic plantado à sua frente, e vão assim se macaqueando, no passo que correm atrás da macaqueação. É uma negação total de si. Pelo que vejo, o que há de comum entre as épocas é essa negação. Não se nega apenas a si, nega-se também a cidade, os objetos, a comida...

O colonizado é doentio. E o Brasil é um país de colonizados. Aqui, não tem quem consiga realizar a obra da descolonização. O universitário vomita o pensado do pensador estrangeiro, o rico se afirma no falar das avenidas de países distantes, a cidade menor imita a cidade maior, e o pobre se sofistica na cópia do rico, do nosso rico colonizado, e todo mundo falando coffee break. Pode-se dizer que vivemos o efeito de uma colonização genérica, que não deixa um milímetro de espaço para olharmos para nós, o nós desnudo do chic estrangeiro. Isso faz do Brasil o lugar de maior número de colonizados por metro quadrado no mundo.

Mas eu comecei dizendo que cada época tem seu chic. E o chic brasileiro nunca pode ser o nosso.Tem que ser importado, que colonizado não tolera olhar a face que o faz. Nesse assim, meio buscado, meio que vindo, aqui foi aportado um chic, agasalho de todos os tipos de chic, inaugurando época: o Shoping. Depois desse grande surgimento, cada cidade, para bem merecer esse nome, tem que ter o seu. Se não tiver, seus habitantes se acocoram em sentimento envergonhado, desejando a praça para exposição de macaquices e alimento de sonhado. E o shoping é o centro e a beira.

Para acalanto de frustração de vida sem shoping, uma cidade providenciou um jeito. Nela construíram uma galeria, mas a época do chic galeria já estava sepulta. Cabeça vai, cabeça vem, um destrambelhado atinou que naquilo, o nome shoping cabia como batismo, e soltou a propaganda na expectativa do povo. O povo orgulhoso. Mas no estampar do nome viram que havia desengonço entre a coisa e o chamado que queriam para ela. Foi aí, que surgiu uma idéia: “Põe qualquer nome e no fim bota center”. Pensado e feito, mas o alento do povo ficou quebrado. Mesmo assim... é aquela história... O certo é que a coisa ficou lá, tomada como centro de referência.

Outro dia, um acaso da vida me levou ao qualquercoisa center.  Tomei uma pancada visual. Um feio de dezenas de carroças ocupavam sua lateral. Alguém tirou meu susto: “Os carroceiros estão sendo cadastrados para tirar habilitação de carroceiro”.   Um tumulto se formava entre as carroças. Um sujeito, com cara de classe média, esbravejava com outro, no aproximado de ir às tapas: “Traidor! Traidor! Quer dividir a organização do povo!” Cheguei perto. Ele tomava nota dos nomes, esbravejando para transmudar o tumulto em fila. “O que é isso?”, perguntei. Um carroceiro respondeu: “Ele tá dizendo que a gente tem que se organizar, que só vai poder guiar carroça quem tiver habilitação e for sócio da associação”. E, com tantos jumentos, o perfume do ar era fedor de estrume.

Tomei distância da confusão. Vi que aquele desenho de feiúra transbordava as carroças. Um camelô dividia com eles o espaço, expondo cadeiras, cofres e uma infinidade de “sofisticados” de gosto caído. Na calçada do qualquercoisa center, uma dezena de mototaxi, com aqueles capacetes em primor estético, sustentados no alto de suas cabeças, protestava contra a invasão dos carroceiros por enfearem o espaço. Ao lado deles, mulheres cansadas e abatidas seguravam bandeiras tremulantes pelo batido do vento, dando vida à campanha de um candidato: “as militantes”. Tudo isso formava um espalhafatoso atraindo atenção. E como tudo ali podia acontecer, parou um carro com som estrondoso. É sabido que a potência do som de um carro tem relação direta com o grau de imbecilidade de seu proprietário, mas aquele era arrepiante. O som furava os ouvidos e a música estripava a alma com a voz da cantora que sapecava o refrão: “Ele só quer comer meu... Ele só quer comer meu...” Pois é, esse imbecil ao quadrado elevado ao cubo não foi visto, não foi tomado como causador de nenhuma perturbação. Até algumas mocinhas que seguravam as bandeiras ajudaram o tremular delas com os requebros sexualizados de seus quartos, no balanço da zoada “musical”. Quanto ao qualquercoisa center, lá dentro não havia nem vida e nem morte, só tédio.

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