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Aloprado
Esmeraldo Lopes

Quando eu era menino, lá pelos dez anos, me veio o zumbido do dizer de uma diretora que nunca saiu de meus ouvidos. Sem motivo e com propósitos obscuros, ela, polidamente, pediu licença à professora, adentrou a sala de aula. Falou e falou, mas para mim, só uma coisa ela disse: “Se botarem aqui um cachorro e disserem que ele é o professor, vocês têm que respeitá-lo”. Essa frase zumbiu em meus ouvidos por anos, até que meu juízo fez a sentença: “a diretora era imbecil”. Daí por diante, aprendi que uma autoridade nunca deve ser acolhida em respeito só por estar na posição de autoridade. Apresse-se o passo.

A vaidade é uma necessidade humana. Um ser humano despido de vaidade é um defunto perambulante. Mas há que se distinguir a vaidade que se alimenta dos feitos palpáveis, da vaidade delirante, que nasce e se nutre da auto-apologia.

Quinhentos anos atrás, Miguel de Cervantes criou um personagem para descrever um vaidoso delirante: Dom Quixote de La Mancha. A história é magnífica, feita na medida certa para desmascarar “heróis”. No que pese o ridículo do personagem, ele é terno, amigo, encantador, louco e divertido.

 Um professor, que não é professor, que é professor como o poderia ser o cachorro da “diretora”, não sei se no tempo de menino, ouviu alguns comentário sobre os feitos de Dom Quixote. Ouviu-os aos pedaços e os juntou a seu jeito, compondo uma outra história, para a representação do mesmo personagem, mas um personagem montado sem atino de juízo, onde uma mão ia no lugar da cabeça, a barriga no lugar das coxas...cada parte em lugar estranho e o pensamento girando em imitação de movimento de biruta. E no descabimento de coisa assim, apaixonou-se por ele, e resolveu que seria sua encarnação no mundo real, emprestando-lhe assim seu corpo, tomando emprestado do outro a cabeça. Depois desse exercício despranaviado, andou e desandou na procura de assento para suas presepadas. Onde havia ajuntamento de importância, lá estava ele no aparecer de algum modo. Dizem até que chegou a disputar vaga com um defunto em um velório. Atormentado por um batalhar em vão, na esperança de alguém que lhe desse crédito, fixou-se no sonho de ser diretor. Entrou em campanha, tendo como chamariz de voto a invocação de um sonho que dizia vir do tempo de menino. E suas palavras repicavam em ladainha: “quando eu for diretor”, “porque um diretor tem que...”, “educação de qualidade”, “gestão participativa e transparente”. Como o mundo não tem critério, se fez no sonhado. E um Dom Quixote adulterado se fez imagem fora das representações teatrais. Um Dom Quixote sem ternura, sem encantamento, sem atração, preservando-se apenas a alucinação, mas mal copiada, copiada em desconexo. Apresse-se o passo.

O Dom Quixote adulterado, diretor. E uma reunião com os pais. Seus posicionados em cargos não podiam imaginar. Não lhe haviam comunicado o evento. Ele soube.  De primeiro saber, calculou que estavam a lhe passar as pernas. Mas no maquinar de chefe, proclamou: “Irei lá”. Os chefes subordinados se desesperaram, gritando em silêncio: “ Deus nos acuda!” O certo é que não dava para esconder. Os pais foram chegando. Ele olhando, em traje empetecado. Quando as cabeças dos pais fizeram vulto de multidão, ele se presenciou e se botou a falar. Falou e falou. Era um falar sem nexo. Quando um pai questionou sua ausência no dia-a-dia da escola, ele soltou: “Meus adversários, aqueles que querem me derrubar, dizem que sou ausente. Saibam senhores: Diretor não tem que ficar aqui não. Diretor tem que estar em Brasília, em Brasília.... Todos sabem, um diretor prepotente e  arrogante com eu,  entro em todas as portas dos gabinetes dos deputados. O presidente é meu amigo. Meu amigo pessoal. Levei um queijo de bode para ele. Os seguranças  fizeram atrapalho, mas como sou prepotente e arrogante, o confiei ao porteiro do palácio. Eu sou o diretor. Sou velho.” Bateu nos peitos, e um barulho oco se fez ouvir. Insistiu: “Sou arrogante e prepotente. Tudo o mais que dizem, são gritos da oposição”. Deu boa noite e sumiu. Não houve aplausos e nem vaias, Os pais sempre são silentes. Não foi o fim. As burragens do homem não têm fim. Ele é um saco sem fundo de besteiras.

Duas alunas entram em conflito e foram às vias. Os pais da agredida aparecem, manchados de indignação. Exigem conferência com o Dom Quixote adulterado. Ele anuncia: “Os receberei”. A secretária providencia a recepção. Tudo vai ocorrendo nos conformes. Os pais entram em silêncio. São convidados à sentada. A agredida fala, ele, em pouse doutoral, escuta. Mantém silêncio enquanto houve. No ponto final da jovem, ele corre a mão pela testa e solta: “A gente apanha porque merece. Eu mesmo desço a mão em minhas filhas quando elas merecem”. Os pais se embalançam nas cadeiras, sem ânimo, sem prumo.

Dom Quixote adulterado, ainda diretor, por sentir-se pouco atrativo, resolveu dar o primeiro passo do pós-sonho de menino. Brilhou em uma festa no compasso da música tapioca: “Ta-tá-tapicoca...” O problema é que os membros não encontravam sintonia, e ficou aquela coisa. Uma professora, vendo isso, disse: “O governo fez uma propaganda dizendo que cada escola tem a cara do diretor. É por isso que nossa escola é tão esculhambada”. A gozação que lhe faziam pelo desengonçado e ridículo, ele recebia como medida de sucesso. Acabou? Não. Em uma cerimônia, no ecoar do Hino Nacional Brasileiro, ele saltou no microfone e botou a voz desbragada: “Ouviram do Ipiranga nas estradas/ de um braço esplêndido em berço vil...”. Depois, ao perceber que uma mocinha, que portava o estandarte da escola que ele “dirige”, chamava a atenção do público, rompeu na direção dela e se botou a saracotear ao seu redor. Qualquer dizer a mais terá cor de ficção infeccionada. Paro aqui perguntando: O homem evolui? Se evolui, como explicar esse Dom Quixote adulterado, quinhentos anos depois de Cervantes?

 

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