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O TROFÉU
Esmeraldo Lopes

É verdade que estamos em meio a uma olimpíada, mas o título do escrito não tem relação com nenhum esporte, também não se refere a despojos obtidos pelos vencedores de uma guerra. Retirei-o de ocorrência no comum da vida da ralé.

As cidades eram bem marcadas em termos da ocupação social de seus espaços. Sinalizando o centro, a igreja, a praça, algumas casas de comércio, a moradia das pessoas abonadas pela economia ou puramente pelo prestígio herdado dos antepassados; nas adjacências, a moradias das pessoas mais ou menos, cujo distintivo era o dispor de uma condição de autoprovimento das necessidades, ainda que em insuficiência; nas “pontas de rua”, os mal-ajeitados de casas onde se aboletava a população que garantia a manutenção do corpo no desespero de qualquer fazer, sem termos de nenhuma exigência. Na obra da sobrevivência, disputava entre si, com afã, tapas e xingamentos a migalha surgida, a localização mais conveniente para o desenrolar da faina. No geral, era nomeada pelos moradores dos outros espaços, como “gentinha de ponta de rua”, uma expressão delicada, perto da classificação que se lhe davam em momento de ira: ralé.

Alguns moradores das “pontas de rua” procuravam adotar procedimentos e modos merecedores de elogio, na intenção de se livrar da pecha. Intento que impunha sacrifícios enormes. A vida, no terreno que pisavam, não sorria para requinte de maneiras. Ela era um pendular incessante entre a bruta e a humilhação. Ocupava-se em trabalhos de lavagem de roupa, de carregar água, de transportar mercadorias nas costas, de limpeza de latrinas... Melhor sucedida no meio dela era a mulher que se colocava como serva de casa de algum abonado. Dessa gente não havia de se esperar auto-contenção ou suavidade de tratamento entre suas partes na solução de teimas, dúvidas, o que fosse que cheirasse a conflito. No primeiro dissabor, uma voz se levantava: “seu safado!”, ou “sua rapariga!”. Daí por diante o alarido, a afluência da multidão para fazer público às tapas, aos pontapés, aos puxões de cabelo, acompanhados por palavrões e ornados com gritos em coro: “irrô, irrô!”, da multidão aboletada. Assim, até que alguém se metia a atrapalhar a festa e apartava a briga. Finda a refrega, os contendores tinham por dever soltar bravatas, chamando admiração. Mas a multidão se interessava mesmo era pela gravidade do estrago estampado nos corpos dos lutadores. Daí sairia a proclamação do vencedor.

O suceder dos tempos. Tudo mudou. A ralé está aí, resoluta, expandida, presente em todos os espaços. Digamos mesmo que se instaurou a democracia ralé. E, de repente só há ralé, só ela tem existência, e dita as ordens do seu ser e do seu querer. Todos os espaços sociais fedem a ralé. Ela invadiu os teatros, as universidades, os rádios, tudo. Tudo tem que ter o gosto, o cheiro e o jeito de ralé. Os sociólogos de pouca reflexão dirão que houve um nivelamento social, e me chamarão de pedante, pelo conteúdo do dito aqui. E eu respondo: não houve nivelamento, houve rebaixamento. Mas, mesmo que fosse nivelamento, que serviço prestar-se-ia à humanidade com ele? A única obra que pode nascer de um empreendimento nivelador, é um monumento à imbecilidade. Reconheça-se: ninguém quer ser ralé, só os fracos querem se nivelar. Tudo o que cada homem perseguiu desde o limiar da existência foi a distinção. Assim ontem, assim hoje. A ralé tinha vergonha de ser ralé e tudo o que almejava era sair dessa condição. Hoje não tem mais nem vergonha e nem desejo da conquista de ser. Arrancaram-lhe essa virtude. Indicaram-lhe como objetivo da vida a posse de um par de tênis, de uma camisa da moda, de um carro, de acesso a shows, do ingresso em uma escola, que seja faculdade, e um certificado sem fundo, no propósito de mantê-la em seu estar.E chegamos à borra da vida social como estilo referente de vida, configurado pelos caracteres exteriores, nada mais além disso. E nisso dá no que presenciei: do acomodado da mesa de um restaurante, apreciava o movimento da rua. Uma festa se anunciava pelo barulho atormentador de um aparelho de som. Na direção dele, bandos de jovens descoordenados a transitar, mas bem vestidos. Estudantes, disse alguém. Com pouco, o brotar de minha infância: “Puta!, agora você vai ver, rapariga!” Em meio a uma dezena de jovens e diante de toda a rua, uma mocinha avançou sobre a outra e as duas se encontraram aos safanões. O “irrô”, foi ressuscitado na hora, laureando uma roda humana. As silhuetas das beligerantes se mexiam com violência, entre xingamentos. Mais jovens chegando, chegando e, no rápido do tempo, tornou-se uma multidão. Um pedaço de pano foi ao ar. Alguém se meteu a apaziguar. Entre urros da platéia delirante, algumas vozes: “Deixa, deixa!”. Ouvia-se também: “Quero ver pau!”. Mas a separação estava difícil. Uma das jovens estava nua, da cintura para cima, com a outra agarrada no coes de sua calça. Em contrapartida, a despida havia avançado no cabelo da rival. No puxa de lá e puxa de cá, por poucos segundos, ficaram suspensas no ar. No apartado, a despida erguia um tufo de cabelo na mão: “Toma rapariga, vá se meter a tomar macho de mulher!” E desfilava o tufo, levando-o próximo a face dos presentes. Não se incomodava com a exposição dos seios. A outra, ainda agarrada por um dos apartadores, berrava: “Toma aí sua sem-vergonha. Mostrei seus peitos, agora quero mostrar sua buceta, fila da puta”. Nisso tudo, nenhuma gota de vergonha, de sentimento encolhido, só o aturdido de exaltação e esturro de alegria.

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