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ENCRENCA
Esmeraldo Lopes

Ouvi falar que a palavra encrenca foi inventada pelas putas, para se livrarem de assédios inoportunos. É sabido que cabaré era uma instituição imprescindível em qualquer ajuntamento de casas merecedor do nome de cidade. Ao chegar a uma cidade, o visitante, perguntando ou não, de pronto vinha a ter informação precisa sobre a localização do cabaré. A divulgação dele se fazia por vários meios, sendo a boca do padre e o histerismo das beatas os mais eficientes. Ao condenarem com veemência os pecados da carne, acabavam tornando-se os seus maiores propagandistas. ?Como todo ser normal gosta de putaria, uma simples referência á perdição da carne é o suficiente para a mobilização dos desejos que arrebentam da natureza cega entranhada em nosso corpo. Mas o assunto aqui é “encrenca”.

O cabaré, que seja no singular ou que seja no plural, era um tipo de segundo domicílio obrigatório para os homens adultos, e ambiente de férias para a masturbação de adolescentes. É certo que o adolescente entrava em um cabaré com a mesma postura de um vira-lata que entra em casa alheia: devagarzinho, assuntando atencioso a cara dos presentes, para a certificação da ausência do pai ou de algum vizinho. Qualquer olhar fulminante dirigido a ele era motivo de encolhimento. Passada essa barreira, contava com a compreensão e acolhimento das putas, que ofereciam seus préstimos professoralmente, no antes, no prosseguimento e no depois. Era o tempo em que puta era simplesmente puta, e não essa coisa chamada “profissional do sexo”. O serviço da puta, que o chamado fosse rapariga, se estendia do corpo à alma. Não eram “profissionais do sexo”. O sexo era mais que o sexo, e se bem que houvesse o mote do preço, preço sem governo de tabela, não havia limitação de horário, e nem cláusulas contratuais sobre a natureza dos serviços. Era a puta romântica, portadora do sonho de um amor, flor das noites aventureiras, habitante das casas de fantasias bem fingidas, incrementadas com luz-negra, coqueluche da época em que as conheci e fiz freqüência esporádica. Mas o assunto aqui é “encrenca”. Era esse o termo que as putas usavam quando queriam se livrar de um sujeito inoportuno. Esse termo foi vezeiro na boca das putas litorâneas, acostumadas a lidar com marinheiros. O termo-espantalho que elas usavam no terreiro do meu pisado, era “boi”. Quando uma puta dizia: “Tô de boi”, o sujeito se afastava dela com a mesma intensidade que o vagabundo fugia da polícia. Não sei por que “boi”. Será que é por que boi faz sangue pelo chifrar? Não interessa. O que interessa é que as putas românticas desapareceram sem a lembrança de suas existências em estátuas. Não conheço uma única estátua de puta, pelo menos erguida a uma puta pela condição de puta: uma grande injustiça.

A voz dos padres perdeu o eco e ninguém dá mais ouvido às beatas. As igrejas se dissiparam do ar da graça sagrada lavadora de alma, e da aura que tinham ficou, como resto, a imagem de um Jesus em chagas, no sofrimento solitário da cruz. Os cabarés se extinguiram, engolidos por casas especializadas, sem brilho, puros centros de exploração empresarial de sexo, com determinação de preços em tabelas e ordem mantida por “seguranças”. A putaria se empobreceu, se favelizou na imagem das “profissionais do sexo” decorando as esquinas das cidades, no assanho das periguetes ornadas na estética do ridículo, na dúvida de se saber se o auto-exposto convidativo para sexo em trejeitos femininos é mulher ou macho “mal-acabado” a agredir a paisagem alcançada pelo nosso olhar. Ela, a putaria, perdeu as fronteiras geográficas, sociais, de gênero e se generalizou na vulgaridade, desnuda de sensualidade. E não há mais “encrenca”, não há mais “boi”, só há menstruação, um termo biológico, técnico. Agora a encrenca é sem aspas, como sinônimo de confusão. E é aí que estamos: na confusão.

 Na intimidade aproximada de conversa com uma moça, na partilha de uma cerveja em um bar de bairro, ouvi dela: “Aquelas periguetes tão enchendo o saco, se mostrando demais”. Falei-lhe sem medida de preservação do patrimônio: “Não, elas não são periguetes. Você é periguete”. A moça embalançou o corpo com ira e perguntou: “O que elas são então?” Tive que escarafunchar o dicionário “pós-moderno” para achar o termo certo: “Garotas de programa em trabalho no garimpo sexual”. Ela se interessou na resposta. Pediu-me definição de periguete, e entrou no rosário das várias nomenclaturas estabelecidas para a putaria sem vida. Apertei-me, porque, dar conta de todas as contas do rosário, é encrenca.

Ah, principal característica da periguete: a inconseqüência da prática de sexo sem propósito de sexo. Com toda a pobreza, ainda uma flor, mesmo que murcha, despetalada, mas avistada no deserto das noites sem encanto, sem emoção

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