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Sobreviventes
Esmeraldo Lopes

                                                                      

Tantas são as peripécias perigosas que cercam a vida, que sobre qualquer ser que respire, o termo sobrevivente cai bem. No atacado desse assunto, borboleta, barata ou homem, tem o seu igualável em vida: sobrevivente. Depois, caem em rotulagem com peso e medida igual: morte. Tanto faz um humano como uma cabra. A morte reduz tudo à mesma coisa, e a coisa a que tudo é reduzido é o silêncio da eternidade cega, muda e surda, em um se completar recíproco para a composição do nada.  

A consciência de ser: nossa pena. Uma pena sem propósito nenhum. Tão sem nenhum propósito como o fato de termos nascido, de termos consciência. O ontem pesa sobre nós, o presente flui, o futuro assombra. Somos filhos do absurdo imergido nos assopros do caos

O futuro é o cemitério do homem. E todo aquele que ultrapassou do passado para o presente é um sobrevivente. Aperto o espaço. Vou circunscrever o termo àqueles que atravessaram situações de virulência: guerras, agonias, efeitos prolongados de catástrofes. Só nessas situações... aí a cara humana, sem disfarces. A quem ultrapassa, glórias. Glórias ou vanglória? Todo sobrevivente é um suspeito. Caminhe-se pelo passado de seus passos, consultem os caídos sem vida e ver-se-á: vida regada com omissão, com traição, com o sangue, com a dor... dos outros. Poucos sobrevivem pela resistência da própria dor. Para esses, a sobrevivência não é glória, é o aumento da pena por ter que lembrar ou esquecer, que contar a história. Seus corpos não tombaram, mas suas almas ficaram atoladas no território das desgraças que tiveram que atravessar. Esses já não são suspeitos. São réus confessos que se penitenciam pelos feitos, pelos não-feitos e carregam dívida de tamanho sem fim com os que ficaram para que eles pudessem seguir. Desconfio de todo aquele que acende o olhar e enche a voz com um: “Eu sou um sobrevivente”... No ouvir da frase: “Os covardes nem tentaram, os fracos ficaram no caminho, só os fortes conseguiram”, feita para o enaltecimento dos sobreviventes, provavelmente por eles, meu juízo, indignado e procurando justiça, interroga: “não teriam sido os fracos, aqueles que efetivamente abriram o caminho com sua intrepidez, e a maioria dos que conseguiram, aqueles que se escondiam, negociavam ou se omitiam na hora do perigo?” Não, quase sempre a história não faz bom julgamento. Ela é escrita pelas letras e cores escolhidas pelos que sobreviveram, em rasgo de vaidade. O sobrevivente quer-se afirmar no tempo, mas o tempo é esteira do esquecimento. Nele, o último agasalho, os cemitérios, também morrem.

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