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PURIFICAÇÃO
Esmeraldo Lopes

Não canso de dizer: Nelson Rodrigues é o maior filósofo parido no solo brasileiro: um gênio. É dele o falado que segue:Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina (...) Os idiotas querem ser professores, ministros, presidente. O nosso mundo é dominado pelos idiotas”. O que ele diria hoje? O calariam. Enfiar-lhe-iam muitos processos, nenhum jornal o empregaria e o proclamariam, não mais como tarado, mas como um ser de alta periculosidade pelo seu caráter anti-social. A ele, como consolo, restaria recitar o que recitou o protagonista do filme Lugares Comuns: “Há um país que nos arrasa e um mundo que nos expulsa, um assassino difuso que nos mata todos os dias... sem percebermos”.

Cá no meu silêncio exaltado, ou indignado, chego a uma conclusão: “Estamos vivendo em tempo de purificação”. Há uma ação com propósito higienizador, santificador. Todos devem ser higienizados, santificados. Todos devem efetuar uma limpeza drástica, no corpo e na alma, afastar todo o tipo de mal. Foi decretado o fim de todos os preconceitos, de todas as impurezas, a caça aos pecadores. Inaugurou-se a religião Fundamentalismo das Bestas. De seus cruzados não escapa nada. Cada palavra é examinada nos mínimos detalhes. O termo aluno, diz a idiotia pedagógica, deve ser banido, porque, etimologicamente, aluno “quer dizer sem luz”; a palavra homossexualismo, também está condenada, que o prefixo “ismo” indica doença; menor, pequeno, “que barbaridade!”, são termos que denotam inferioridade; negro, não!, afrodescendente. Assim vai o burrajol. Levado a efeito o que querem os fanáticos dessa religião, essa gente que se faz rebanho de complexados por ser o que diz ter orgulho em ser, instituir-se-á o império do silêncio. Os cruzados... combate às palavras, olho inquisidor nas atitudes. Um sorriso, um olhar curioso, um gesto, a aplicação de um critério... tudo recebe a pecha de discriminação. Nenhuma ação pode se basear em sentimento ou critério que revele a inconveniência, a inconseqüência ou a fraqueza daqueles que a ela estão afetos, para não machucar os coitadinhos. É que os coitadinhos são muito frágeis, sensíveis, afinal, são “civilizados”. Então, mais que tolerar, calar, aceitar, reprimir o sentimento interior de repulsa. Em outras palavras, entrar na ordem da auto-repressão. Mas não combatem apenas uso de palavras e atitudes que consideram degeneradoras. Avançam sobre o nosso corpo. De repente, o fumante foi transformado em um ser abominável que deve ser perseguido a pauladas. A ele é negado, inclusive, o direito de abrir um estabelecimento onde esteja escrito: é permitido fumar. Agora, deram um golpe fulminante na cultura nacional: “Álcool zero para quem dirige”. Onde ficam os encontros de colegas no final de expediente? Quem regará as alegrias nos encontros, nas festas? Saibam esses imbecis que cerveja é uma das maiores instituições de nossa nação, um grande ingrediente de nossa cultural. Com ela, a gente cura raiva, mata o tédio, sela amizades, conhecimentos e solta o verbo alegria em ato. Mas o que querem os adeptos da religião Fundamentalismo das Bestas? Querem tornar saudáveis os corpos matando as almas.

Escrevo para dizer: vivemos uma modalidade de fascismo. O fascismo se vangloria de implantar uma vida sem vida, determinada pelo isolamento, retidão e tédio. Um tipo de regime de pocilga. Todos os seus defensores esturram: “Vida pura! Vida saudável!”

Nunca ouvi falar em conflitos ou acidentes entre os habitantes dos cemitérios. Lá, há sempre de reinar a paz. Aliás, é o único lugar onde a palavra paz encontra acolhida no profundo de sua expressão. Em vida, mesmo que com pouca vida, os viventes humanos sempre estarão ao dispor de riscos e contrariedades. É isto: o assassino difuso está a empreender a obra de nos transformar em estátuas.

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