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O “PERDIDO”
Esmeraldo Lopes

Uma rua como quase todas as ruas de bairro manso: crianças saem de casa sozinhas, rapazes fazem moita em encontros de conversas, moças conversam sem altura nas portas, velhos esperam a sombra do pender do sol para alimentarem o tédio que transportam na vida. Uma diferença com relação às outras ruas: ela começa e termina ao alcance do avistar de um botequim que não gosta de dar pousio a gente estranha. De lá, a vigília, o fluir de verbo, a difusão de assuntos mortos e vivos, de assuntos sem assunto. Mas eu não quero falar do botequim, quero falar da rua. Melhor, também não é da rua que quero falar. Quero falar do “Perdido”. A bem dizer, esse não é o nome dele, que também não sei qual é. Se assim o chamo, é porque desde antes de virar morador dessa rua, ainda nos prolegómenos das observações e contratação do aluguel, me foi informado: “Seu futuro vizinho é um perdido. Não liga para nada e vive de boemia”. Tão logo fiz a mudança, dei com ele no entrar e sair da porta. Sujeito calado, mas com cara de bonachão, não economiza cumprimento de gesto, não bota sentido no movimentar dos outros. Na cabeça, em dia de farra, um chapéu de couro com aba curta. O carro do homem é aquela coisa: “véio”, batido em um lado, batido no outro, expondo machucões na parte dianteira e plástico no lugar do pára-brisa traseiro, o motor barulhando surdo. De longe, dá para se ver que está com o licenciamento, há muito, vencido: uma verdadeira bagaceira. No sendo assim, vêm as pronúncias de suas qualificações: “É um à-toa”; “Não liga pra nada”; “Não incomoda ninguém”; “Só pensa em mulher”. Juntando isso tudo no embolado de uma síntese, deu “Perdido”.  

“Perdido” é um sucesso. O roncado surdo do motor do carro dele, sempre está a avisar: “Aqui vem mulher”. E a vizinhança flerta o interior do automóvel com curiosidade de raios-X, com a certeza de ver o que imagina. Quando ele desce para abrir o portão da casa, os olhares o flecham e encontram um sorriso do tamanho da felicidade, sustentado por um corpo desequilibrado em cima de pernas cambaleantes. O nome mulher, é o bastante, que não aparenta exigência de qualidade. Volto atrás, que qualidade depende do ponto de querença de cada um. E sua querença tem a pista em um ocorrido que sucedeu assim: meia noite, com duas mulheres dentro de casa, uma atrapalhando o negócio dele com a outra, de logo achou solução. Acorreu à casa de um aproximado que estava em solteirice circunstancial: “Falano, vamos lá em casa, que tem uma mulher lá pra você. Ela é um brinco”. Depois de insistência pequena, o aproximado fincou os pés se animando. Ao chegar lá, foi apresentado à dádiva, mas refugou, saindo da situação. “Perdido” o acompanhou indignado: “O quê? É porque ela é feinha? Tá vendo ela feinha assim, mas deixe ela tirar a roupa! Você não sabe o que vai perder. Rapaz, é um bundão!”

Do botequim, os circunstantes vão registrando as façanhas de “Perdido”, na intenção do mesmo querer, mas como são achados e cheios de rebuscados, ficam sem se perder.

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