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DECISÃO OCULTA
Esmeraldo Lopes

  

O fatídico não se anunciava e não podia se anunciar, pelo jeito como as coisas se apresentavam. Pus-me de frente com João Fininho, pelo acaso do achada de uma ossada escavada pelo descambo das águas. O sujeito que se deparou com ela, de logo atinou ser coisa do tempo que gente não pisava nas bandas na terra. Sabia disso pela televisão, pois depois que assistira a algumas reportagens sobre animais pré-históricos, passou a reparar no chão, distinguindo ossos de pedras. E quando avistava ossos fazia o catado, levando-os para casa, dispondo-os na ordem dada pelo supositório de seu pensamento, sobre um girau. Até então, só havia encontrado ossos desconexos uns dos outros. Quando se defrontou com uma ossada que aflorava em vários pontos, decidiu que se tratava de coisa tipo dinossauro. Anunciou o achado à gente conhecida, que também assoprou em meus ouvidos, e lá nos fomos, para satisfação de curiosidade. Como a Caatinga é grande, o sujeito achador procurou ajuda de gente de perto do lugar, para mostrar a sua indicação certa.  Foi aí que conheci João Fininho, um senhor, da idade de meu pai, seu companheiro de campo, nos tempos que se batia o mato do longe ao perto, na procura de ovelha, de gado e do que fosse. O nome era bem apropriado, não o João, mas o Fininho, que era fino e baixo. Complementava-o um sorriso que corria da boca até o olhar, acompanhado pela fala ligeira que respondi o que se lhe perguntava. Dominador do mato de suas redondezas, depois de ouvir as características do lugar, assertou saber onde ele ficava. Com pouco chegamos. A coisa se espalhava em seus restos, em meio a uma paisagem embaladora de pensamento: um serra perto, outra longe, e, entre uma e outra, o mato ralo estendido, no começo do perder das folhas. Um caminha para um lado, outro em outra direção. Silêncio medido pelo ouvir do barulho leve do roçar das folhas, embalançadas pelo vento manso. João Fininho se detém admirando uma parte da ossada, bota as mãos na cintura e solta a voz em pergunta alta: “Há quantos anos o outro século se acabou?”. Para o povo da Caatinga, século não é um período de cem anos, é o tempo dos tempos primeiros, de antes do dilúvio. Houve quem risse da pergunta, mas sua intensidade, a expressão de seu rosto mostrava viagem de pensamento perdido.

A casa de João Fininho era uma casa como qualquer casa de caatingueiro, mas havia nela um quê que chamava a atenção. Ele, um homem, viúvo, de idade alta, morando sozinho, ocupado em labuta com bichos, era de se esperar que sua casa fosse uma daquelas que a gente pedir licença às aranhas, para entrar. Mas não. O trato da malhada já negava essa suposição. E da malhada ao interior da casa, tudo no trato de um ajeitamento de espantar. Nada escapava sem aprumo. Os guinés, as galinhas abastecidos com água e andando na tranqüilidade de papo sem aflição, o papagaio em gaiola asseada, a mesa entoalhada, as panelas brilhando, a cama ajeitada e ele, conversando coisas do tempo das andanças no campo, rememorando casos acontecidos em sua vida. Nada ali inspirava tristeza, abandono, descuido. Por que sim, por que não, dirigi-lhe uma interrogação: “Seu João, cuidar desses bichos dá muito trabalho, o senhor acaba ficando preso aqui. Por que o senhor não se desfaz deles?” Rindo em tom de bom tom ele esclareceu: “Não. Tudo isso aí é herança de minha velha que já morreu. Não posso”.  Naquele semblante de alegria havia felicidade. “O senhor sente solidão?” “Ôooo... E como... Você não pode nem saber o tanto, como é duro ficar aqui sozinho, olhando para as paredes, para esses bichinhos”. Ele me capturara por completo. Carreguei sua presença da hora da saída até alguns dias depois. De vera mesmo, ainda o carrego até hoje, em relâmpago inesperado da lembrança.

João Fininho se empetecou e se pôs à espera do carro. Era dia de pagamento e, como sempre, outros e outros do alcançar do mesmo tempo dele rumaram juntos, se movendo no sacudir das rodas nos catabis procurando a rua. Na rua tudo correu normal. Com o dinheiro no bolso, ele saiu matando os fiados, caçando no juízo as pendências, para não deixar ousadia de fama de sujeito mau pagador. E assim fez até que voltou, chegando em sua casa já no cobrir das sombras da noite. No outro dia não se ouviu o seu grito, nem se viu o seu movimentar. Uma coisa com a outra, mais a casa fechada, e os bichos em fome causou motivo de atrativo de atenção. No altear mais alto do sol, houve quem desse providência de verificação.

João Fininho repousava na ausência eterna. Estava bem vestido, como poucas vezes havia se mostrado, compondo-se sobre a cama trajando terno e sapatos.Em cima um banquinho, ao lado da cama, uma vasilha de inseticida, e na mesa da sala, uma caixa de velas e dinheiro em suficiência para o arranjamento do que fosse necessário à necessidade de seu sepulto. Fim.

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