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JACUBA
Esmeraldo Lopes

                                                                           

Esqueça-se de Cuba, que jacuba não tem nada a ver com ela. Jacuba, no sentido do conhecimento geral do povo que fez rastro pelo mundo da Caatinga até a década de 1960, é um preparado alimentar que consiste na mistura de farinha, água e rapadura. Para os mais pobres, esse preparado era a alimentação que dava a sustança para o desenrolar do dia no trabalho pesado, para os mais ou menos, era a merenda para o adocicado da boca e engano do estômago no correr da tarde. Mas o título também não se refere a essa jacuba. Refere-se a Jacuba, um sujeito adoidado, de cuja existência eu soube pela boca de minha mãe, de minha tia e de outros bem velhos da terra onde nasci. É uma pena que ele tenha morrido, não pelo seu caráter folclórico, mas porque teria muito a ensinar a esses senhores de andar faceiro, de palavreado sofisticado, que estão a se empoleirar nas universidades e nas entidades de pesquisa, dizendo que fazem ciência. Esses senhores se deram a amiudar o olhar, fechando-se no estudo “profundo” das partículas do mundo, sem atentarem na relação delas no complexo de suas existências. E nisso dá que esses tipos, ou tecnocientistas, ao tomarem como objeto de estudo, um aspecto particular de um componente da natureza ou da sociedade, conseguem caminhar para o nada, seguindo o passo da receita medíocre daquilo que chamam de ciência: introdução; material e métodos; resultados; discussão; referências bibliográficas. Passam anos na universidade macaqueando o palavreado técnico, aprendendo as receitas de “investigação científica”, dispondo-se como seguidores de teorias, e depois disso tudo, quando os decretam preparados, correm para o mundo para empacotar algum objeto, ou melhor dizendo, o detalhe de algum objeto. No mais das vezes, não têm a capacidade de articular uma frase sem fazer referência a um teórico, como recurso de legitimidade. Ficam na espreita de algum congresso, e quando têm notícia de um, põem-se na postura de camelôs, entubam os pôsteres, e vão exibir “o resultado” da “pesquisa”, quase sempre feita com o máximo de descompromisso e nenhuma grama de seriedade, mas como o negócio é o cumprimento das formalidades, tudo acaba dando certo, pois sempre rende um pontinho no currículo e por vezes ainda rende um prêmio. Também há os artigos. Não se pode falar com uma pessoa de vida acadêmica ou empoleirada em órgãos de pesquisa que logo vem: “Isso dá um artigo”, “Publiquei um artigo”, “Eu preciso escrever um artigo”, “Quantos artigos você publicou?”. A consonância do conteúdo do artigo com a realidade não importa muito. O que importa é que ele tenha sido aceito por alguma “revista científica”. A coisa chega a tal ponto que outro dia um “pesquisador” afirmou de bom tom, em um programa de televisão, que havia feito tese de doutorado, tomando como objeto os beija-flores e que, após observação, concluiu que eles só pousam nos ninhos; outro declarou, depois de estudos “profundos”, ser alternativa para uma região da Caatinga, o seu reflorestamento com eucalipto, e assim vai. Há aqueles que merecem o nome de pesquisadores, menos pelo que fazem e mais pelo empenho de como fazem. Mas, mesmo esses caem na mesma vala, levados pelo embalo da fragmentação. Assim, um estuda a folha de uma árvore, outro estuda o caule, outro o sistema radicular, há quem dela estude as propriedades químicas, sem, entretanto, nenhum deles chegar à dimensão da árvore. Vem alguém que estuda a árvore, mas não consegue situá-la no complexo natural e humano no qual está inserida, e despreza os estudos específicos de seus detalhes. São vitimas do modelo tecnocientífico vigente, mas não merecem desculpas porque se curvaram à estupidez da imposição institucional. Por esse modelo, Darwin, Galileu, Giordano Bruno não teriam a menor chance de apoio e aplausos. Seus trabalhos seriam reprovados ainda na fase de projeto e serviriam de objeto de zombaria, porque o negócio hoje é recorte, recorte, recorte sem rejunto.

É aqui que entra Jacuba, com seu ensinamento rude. Por certo que se os seguidores do modelo tecnocientífico ouvissem o eco de seus gritos, tomariam outro rumo. O que diziam seus gritos? Uma única frase. E foi tudo o que restou dele. Jacuba não era o seu nome, e de seu nome ninguém tem mais notícia. Era o apelido. Ao ouvi-lo bramia do ódio mais odiento que possa se ter notícia. A rapaziada, conhecendo sua ferocidade, escondia-se nos becos para atazaná-lo. De um lado um gritava: “Farinha!”. Jacuba parava, assuntando a direção do grito. De imediato pipocava de outro beco: “Rapadura!”. Ele desembainhava o facão e se botava em posição de guerra. Com pouco, de outra direção, a voz cortava a rua: “Água!”. Jacuba, com olhos esfogueados, tremulando o facão no ar berrava: “Mistura, filho da puta, mistura que eu quero ver!”. Como saldo de seu desespero, a conclusão: as partes precisam se compor em um todo, para que ganhem algum sentido.

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