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Firmino
Esmeraldo Lopes

Seu nome não interessa. Ele mesmo não dá ligança ao que recebeu no batismo. Um dia deu, mas isso ficou sepultado no atrás dos anos de antes da idade de adulto. Sua entrada nessa idade calhou com a morte da mãe. Veio o silêncio da ausência de queixumes, o se ater apenas a si mesmo sem mais ninguém a lhe assoprar caminho a seguir. Do aqui ia para mais ali, do ali para mais adiante, do mais adiante volta para o ali. Acostumou-se nisso e assim ficou, tomando como agasalho de repouso para sono, para descanso do corpo, o lugar onde estiver. Toma por casa o espaço todo da cidade. Mas a cidade existe aos pedaços, cada um composto por gente que se trata pelo nome, às vezes pelo simples saber do local da morada, pelo que faz, pela família a que pertence. Firmino não tem família, não tem morada e o seu fazer é o simples perambular, tendo como motivo cachaça na garganta. E, ao passar pelos pedaços da cidade carregando sua sombra cambaleante, seu nome vai se alterando no conforme de alguma situação vivida, de algum envolvimento seu em ocorrência de curto tempo, registrada na memória dos freqüentadores de cada lugar: Cagão, Fedorento, Babão, Mijão, Espião... Bebinho, Inchadinho são os nomes que transcendem os pedaços da cidade e as situações, que eles sempre refletem seu estado normal. Bebinho, Inchadinho, nomes coletivos para toda a gente que vegeta no mesmo estado do seu ser. Para Firmino, tanto faz qualquer que seja o nome que se lhes dê. Desconfia-se que ele não saiba mais qual é o seu, aquele que lhe foi dado por sua mãe. Se perguntado, responde: “Você é puliça? Vá pra porra, rapaz, que eu não devo nada a ninguém!”, e despeja no perguntador um olhar ressabiado, fulminante. Embalado pelo lampejo da atenção vazia, começa a zoar, e vem o dono do bar e lhe empurra com a sonoridade do “Sai, sai. Vá andando!”.  Ele tropeça na direção da rua, de punhos armados para briga, prometendo revide: “Sou homem! Sou homem! Você vai ver, filho da puta”. E se vai com seu resmungar na direção de outro bar.

Os meninos...  os menores fogem amedrontados com a presença de Firmino; os maiorzinhos lhe jogam troças e fingem que correm. Ele reage fingindo que os persegue. Assim mais uma vez e mais outra e outra. E ficam nesse vai-e-volta, até que ele parte no seu seguir de rumo qualquer, envaidecido: ainda há quem o veja, ainda há quem o tema. Como sei o seu nome? Não sei. Dei-lhe um. Esse me pareceu apropriado, que ele é um sobrevivente. Faz vinte anos o conheço nesse estar cambaleante, apresentando-se como sombra, na noite ou no dia, em pé ou atirado em sono profundo nas calçadas. Alimentação? ?? As doenças... que elas se desalojem. Quando, do lugar de onde está, avista um cortejo fúnebre, despeja sua deferência, manifestando pesar. Mas o morto é sempre um estranho. Para ele qualquer um é um estranho. A deferência vai para a morte. E depois do assistir respeitoso do cortejo, toma a direção do seu sem rumo, firmando-se no tesouro oculto que garante o seu resistir.

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