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MUITOBACANADEMAIS
Esmeraldo Lopes

Não vou falar de vaidade. Vaidade... todo mundo a tem. Ela nos ajuda a viver. Só os que se isentaram do mundo, pela adoção de vida morta, por abandono de cuidado si, dela se descarregam.  Mas uma coisa é cultivar vaidade, outra é ser muito bacana demais.

Muitobacanademais é tão bacana demais, que se move por via de imaginação estéril. Estéril e transitória, porque dentro dele há um oco, aonde vai botando e tirando, gestos, modos, traços de personalidades que encontra nos outros, e que a seus olhos, assumem ares bacanas demais. E vai se desenhando como se fora uma colcha-de-retalho ambulante, feita com retalhos mal alinhavados, pegados ao léu do olhar imitativo, e pregados sem observância de combinação de posição e de sentido. Retalhos pegos, pregados, abandonados, substituídos em lances de angústia. Isso de acordo com o mais novo imaginar do ser bacana demais em cada agora da vida. O permanente em seu ser: o ridículo de se olhar e se olhar sem se ver, o imitar, o fingir, que o seu ser esvaziado de si, só pode se ver pelo que fantasia verem nele os olhos dos outros, e quando esses lhe faltam, imagina o quadro fantástico como o veriam. Para Muitobacanademais, toda a serventia que os outros podem prestar ao mundo é lhe devotar admiração. Não sacrifica esforço nessa conquista. No caminho dela, se vulgariza, rasteja, trai, sofre, dispõe-se na carne, entrega-se na alma. Isso arremedando amizade, humildade, compreensão, colaboração. Mergulha na lama sem cair. Sem cair? Muitobacanademais sabe-se trapo. E treme, e chora no recôndito do agasalho da intimidade. Não se quer trapo. Conhece-se sem se admitir. Levanta-se na aparência de um ser erguido. Arruma em torno de si objetos que lhe disfarçam. Mira e admira o que mais lhe incomoda: características que julga bacana demais em alguém. Arranja treita de aproximação “sincera” com esse alguém, põe-se a seu dispor, humildoso, sem disfarce de bajulação. Desapercebido, envaidecido, o admirado se relaxa em entrega de amizade. Envolve-se na trama. É capturado.

 Muitobacanademais proclama intimidade de conhecimento dos escondidos na profundeza do admirado. Procura a claridade da iluminação dele. Eleva-se ao expô-lo. Consome-o. Não, não transferiu para si o objeto do anseio. Mas não tem mais o que invejar. O admirado desestabilizado. Desestabilizado pela revelação dos lados ocultos de sua face, da face que não existe. É estripado. Arma: desqualificação fabricada. Fabricada na mesa do comedimento astucioso. E Muitobacanademais vai impiedosamente no seu seguir, desfilando vaidade oca, com suas frustrações eternas e a alma em permanente vazio. Vazio que se esquece, que se glorifica nas circunstâncias da atração forjada das atenções alheias. Elas, o cenário desse ator-farrapo, que avalia o expor da bunda, o movimentar das mãos, o pronunciar das palavras... que em tudo por tudo se gasta na arte de atrair. De atrair se impondo pelas macaquices de macaco desnaturado.

Muitobacanademais não tem sexo, não tem nexo, não tem alma, não tem vida, não tem verdade.

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