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RECUSA
Esmeraldo Lopes

Seu Arcanjo se fez na vida no comum do tipo de viver de qualquer um. No mais que dele se possa dizer, não foi mais, não foi menos que ninguém do seu se topar. Não é exagero dizer que só diferenciava das outras pessoas pelo particular que a vida de cada um encerra: o nome, a altura, a qualidade da pele dos filhos, da esposa; o trabalho com o qual bancou o sustento, o jeito de falar. A vida como entrelaço do mesmo comum da história.  E foi batendo nesse pisado, sem perceber as mudanças lentas do mundo.

O tempo girando, despejando glória no bom suceder dos filhos. Seu Arcanjo se aliviando dos compromissos pesados de ganho para sustento da família. Não fosse isso não suportaria mais, que o corpo perdia arrimo. E isso ele percebia com desgosto, pelo pouco desempenhar do serviço que fazia. Veio o socorro da aposentadoria, a promessa de vida aliviada, de tempo livre para prosa nos bares, nas calçadas. Não. Primeiro teria que se aliviar das reclamações da esposa apontando os reparos precisos da casa. Depois as noras, as filhas acorreram a ele em solicitações. Coisas pequenas, sem compromisso de hora, sem tempo marcado para terminar. A vida se levando nele. De vez em vez uma reclamação de alguém que dizia que ele não dava atenção na palavra que lhe dirigiam. Ele morrendo jurando que aquilo era invenção, que não tinham lhe dito aquilo que diziam. Primeiro os de casa, depois os da rua. Mas os da rua eram poucos, que alguns não faziam mais imagem no mundo e outros se trancavam em suas casas sem atenção em conversa. Só uns ou outros perambulavam sem assunto, sem lugar para assento. O mundo ficando silencioso, as pessoas falando mais baixo, a música tocada em casa, tocada nos bares, nas praças, mais longe. Não reclamava do barulho vindo da noite e nem da zoada do dia. De início os próximos lhe troçavam: “Tá surdo!” Foi assim até que a dúvida não habitou nem mais nele. De pouco em pouco o silêncio lhe veio no todo. Atenção só para a netinha. Ela sabendo disso, sempre se posicionava à sua frente. Fazia-lhe perguntas que ele nunca as respondia, mas achava engraçado ver o movimento de sua boca, a atenção de seu olhar na face dele, os gestos que acompanhavam seus dizeres silenciosos.

Na família, uns se afligindo, outros se apiedando e ele triste. Habitava o mundo do silêncio. Achava-se infeliz e definhava pelo decreto cruel de seu destino. No princípio, acompanhava os lábios das pessoas em adivinho das palavras, botando som nelas pela força da recordação. Mas com o tempo foi perdendo esse alcance, e só restava o silêncio, os gestos mal compreendidos. Fora exilado do mundo posto à sua frente. Voltava-se para o passado, de onde ainda lhe vinha algum som. Pôs-se a idealizar o mundo maravilhoso da sonoridade, das conversas sem sacrifício da comunicação, com gestos insuficientes. O mundo dos sons ganhando mais e mais esplendor. Sentenciava-se: “Sou um infeliz”.

A família deu providência de solução. Enviaram-no para a capital. Lá havia adjutório para a restituição de sua audição, senão no todo, pelo menos em parte. E ele foi embarcado.

No menos de quinze dias, o Seu Arcanjo estava de volta. No aeroporto, pousou o encontro de alegrias. Ele falando, ouvindo, sem deixar escapar sequer um ruído das palavras da netinha. O homem renasceu. Deu a andar na rua, a fazer visitas aos conhecidos, a ouvir rádio, assistir o noticiário da televisão, a procurar conversa. E assim um mês. Depois começou o queixume da música alta, da programação ruim dos rádios, dos mexericos das conversas. Não se agüentando, começou a reclamar das reclamações que lhe faziam. Foi encolhendo, arranjando canto para ficar. E perceberam que as reclamações dele haviam se calado, que agora vivia no seu, sem dar palavra, se negando a escutá-las. O aparelho pulara do ouvido para o bolso. Reinstalara-se, por decisão de livre vontade, no silêncio conhecido, do qual tanto se queixara no calado de sua tristeza. Mas o silêncio não era mais triste. Aprendera a ouvir sem escutar, e o que escutava impedia a profundidade do seu ouvir. E do seu silêncio só saía, na transposição do aparelho do bolso para o ouvido, quando lhe vinha aproximação da última lágrima de vida da vida: sua netinha. A netinha: com mais poucos dedos de vida, esperança morta.

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