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POR MEDO DE ALMA
Esmeraldo Lopes

Alma, terror do povo que se desenrola com vida nas terras do mato. No mato, à noite, tudo inspira pavor: o indiviso das coisas no escuro, o chuá lento do vento nas folhas; as estórias sempre renascidas de assombração, a lembrança dos mortos, os lugares marcados por cruz, o refugar dos animais nos caminhos; noite de lua: o ver confuso da visão nebulosa, os vultos mudando de forma, os lugares conhecidos ficando estranhos... Na noite há os barulhos desconhecidos que a gente não sabe de onde vêm. Almas... Como se esconder das almas? As almas são traquinas e sempre trazem aperreação. Esconderijo contra almas: reza forte, benzedura da casa, purificação com água benta, rosário bento no pescoço. Mas esconderijo fraco, que as almas arranjam, entrada que a gente não pode tapar. Então, se corrigir na conduta. Evitar palavras, atitudes que possam irritar os viventes do mundo do além.

Padre: missa, benção divina: alívio dos mortos, afastamento de encosto, espanto de alma. E o padre vindo rezar missa, fazer benção nas casas. O povo esperando. Esperando para se purificar, para espantar os espantos das noites agoniadas. E a disputa para agasalho do padre em casa. Mas a disputa não é bem disputada, que o merecimento cai na casa de gente de melhor proceder nos ditos da religião.

O padre chegando à tardinha. Padrão branco, com barbas brancas descambadas, vozeirão saindo da boca no dizer palavras merecedoras de atenção atenta. Uma freira na sombra do padre. Novidade. Fazer improviso ligeiro. Desalojar gente do outro quarto, para conforto do sono dos pregadores de Deus.

A Missa. O padre com a roupa de padre. O povo acompanhando os dizeres da boca dele, curiando com os olhos, com o juízo. Mas curiosidade grande é para a freira, aquela mulher dos serviços sagrados.  O padre rezando, as almas boas se confortando, a ruins se afastando, se desencostando. O povo se aliviando das almas e dos pecados. E vem o fim da celebração. As aproximações, o povo se chegando para perto do padre, da freira, procurando conversa de conforto, de palavra bem dada de quem sabe das coisas do além. Eles atentos na atenção do povo.

 Os cuidados, a mesa para a janta exibindo a serventia do melhor. Mistura: carne de carneiro gordo, galinha. Os quartos limpos, com as camas paramentadas com lençóis engomados, purificados com muito sabão. Os objetos da freira em um quarto, os do padre no outro. O casal da casa dormirá na sala, fazendo ruma com filhos.

O padre olha para aquela arrumação. Bota os olhos nos olhos da freira. Ficam em silêncio de palavra. Chega o amolecimento do corpo, o sono. Começa o ajeitar. A dona da casa apresenta o lugar da dormida aos visitantes. O padre quieto, a freira ouvindo, a dona da casa delirando de satisfação pelo privilégio do abrigo. O padre assuntando, se assuntando. Não há mais como prorrogar, não há como explicar. A dormida tem que ser ali. Se não ali, em outro lugar como ali. O desenrolar de sua missão sempre o colocará em situação assim. Este acontecer não será coisa perdida de um dia. Já de pé, procura um jeito na rapidez do pensamento. Diz com a língua enrolada: “Nós dorme junto, no mesmo quarto”. No som desse dizer, a dona da casa se embalança em assombro de ataque. O marido estufa os olhos, os filhos acendem os ouvidos. O silêncio. A freira com o semblante suspenso. O padre completa, com voz serena: “Eu não dorme só. Eu tem medo de alma”.

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