Nem tão distintos: Renato e Zidane brilham no comando com vestiário na mão
Preço médio da gasolina fica praticamente estável na semana, acima de R$ 4 por litro, diz ANP
Volkswagen Polo 1.6 x Fiat Argo 1.3: comparativo
Maranhão possui maior proporção de pessoas em condições de pobreza extrema, segundo IBGE

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
MONUMENTOS
Esmeraldo Lopes

Não é preciso ter atenção, nem conhecimento prévio de causa. Os monumentos nos açoitam, nos botam no seu olhar, no seu contemplar, no seu sentir, no rememorar do propósito do seu existir. São moirões que nos amarram. Às vezes se disfarçam em paisagens, ou em algo que nos distrai, que nos conforta ou nos incomoda, sem que percebamos sua força. E passamos por eles, ou entramos neles sem sentir, que eles nos invadem, e fazem de nós seu berço de eternidade. Também nós nos eternizamos neles. E eles acabam por contar nossa história, por dizer quem somos ao dizermos o que são eles.

Monumento é todo ato, todo símbolo referencial de um grupo: um cemitério, uma igreja, uma pedra, uma árvore, um tipo de árvore, uma comida, uma veste... qualquer objeto; um som, um conjunto de sons, uma história, uma estória, uma celebração, uma solenidade... inútil querer enumerar. Este ato só causaria enfado tedioso. Os monumentos não precisam figurar em nenhum tipo de arrolamento. Os arrolamentos são feitos em um gesto de esforço para que não se esqueçam os esquecidos. 

Os monumentos são vivos. Na sua quietude estática, no seu silêncio aparente, no seu disfarce de coisa morta, eles se põem a registrar o som dos risos, os estampados faciais de satisfação, os lamentos, o descambar de lágrimas, o barulho das pisadas. Do seu ali, impávidos, recolhem, guardando em si, as cargas de emoção, vindas nas ondas de alegrias, de tristezas. Mas, cheios de tantas essas coisas, começam a ressoar, a nos trazer, em comunicação de mistério, o que já não suportam, pelo peso de seus guardados. Agarram nossos olhos, nossas emoções, nossos sentimentos e os temperam com a matéria de nosso nós, para que nunca percamos o gosto de nós, e nos embebem com sua luz. Com a luz da emoção com que foram feitos.

Às vezes, cansados de sua eternidade, se recolhem. E, quando cansam do seu recolhimento, emergem se fazendo vida em nós, nos denunciando a nós mesmos.

Todo lugar se afirma pelos monumentos que tem. Se não tem monumentos não é lugar, não tem história... Nada haverá a testemunhar o que somos, o sentido do que fazemos. E se, mesmo assim fazemos, fazemos por imitação de protocolo.

Estão, agora, a construir um mundo sem monumentos; a escondê-los, onde eles existem; a empreender com perícia a obra de sua destruição. E tudo é simples, transitório, descartável, sem marca, sem rastro. E andam, os construtores, os habitantes desse mundo, sempre em busca do próximo passo, qualquer passo, sem ponto de partida, sem ponto de chegada, insatisfeitos com o tédio do ponto do passo onde estão.

Por que escrevo o que escrevo? Ou de outro modo, por que faço esse refletir?

Por força de consideração, de aplacamento de lembrança, por necessidade de lavagem de sentimento, fui a uma igreja, para solenidade de Missa de Sétimo Dia, em memória de gente de meu afeto. Mesmo me situando na divisa entre ateísmo e o agnosticismo, minha ida não foi um ato protocolar. O que eu queria era uma despedida solene do esvair da vida para o nada. Mas fiquei mais triste porque não aconteceu.

 Uma solenidade em si já é um monumento. Como noticiaram a celebração da Missa dentro de uma Igreja, me botei que ela aconteceria em um monumento. Que decepção. A Igreja não era Igreja, era igreja. Não sei nem se o nome igreja em minúsculo soa bem para fazer sua designação, que aquilo é um barracão. Tudo nela imita o arranjo do provisório, do insignificante, do feio: o sem destaque do local onde foi construída, a pouca altura e a estreiteza das paredes, o acanhamento das portas, a fragilidade do telhado de material precário, os bancos mal construídos, a inexpressividade do altar... Nem as imagens dos santos atraíam atenção. Pensei: a celebração compensará esse ar de vazio. Mas isso não aconteceu. A Missa transcorreu em pura formalidade do nada. Os cânticos, com letras inventadas, não eram nem alegres e nem tristes, a música mal tocada. Os participantes se esforçavam no acompanhamento dos cânticos, mas suas vozes saíam obrigadas. O padre sem força de mensagem. A “solenidade” começou e terminou, com a frustração do não acontecer.

Depois da “solenidade” circulei pelo bairro. Também nele tudo é provisório, improvisado, pobre e feio. Nada, mas nada mesmo tem feição de monumento. Ali nada eleva a vida. Não há onde nossa atenção possa se deter em um momento de atenção, por apreciação, ou por reflexão. Ao contrário, o desarranjo de tudo convida ao exílio nosso olhar, nossa audição, nossos sentidos, e, se lá, há algum tipo de comunhão, algum tipo de sentimento de nós, esse só pode ser alimentado pelo aspecto físico das pessoas. Aquilo não é um bairro, é um acampamento. Aquele bairro como os outros bairros, como a cidade, como quase todas as cidades no tudo assim.

Um dia, faz poucos dias, entrei, pelo não ter o que fazer, na Igreja da cidade onde nasci. A Igreja estava “só”. Sentei-me e me pus a olhar os pedaços das visões de minha infância. Tudo estava no mesmo lugar. O cheiro era o mesmo e a luzinha vermelha continuava acesa. Os santos me olhavam com a atenção de seus semblantes eternos. Caí em silêncio por dentro de mim. E eu já não sabia distinguir o passado do presente. E ali me encontrei com meus bisavós, com meus avós, com a infância de meus pais. Sim. Todos eles botaram as vistas naquele altar, naquelas imagens, se cobriram com aquelas paredes. O assoalho me mostrou os rastros de todos, de todos que um dia foram eu. E suas vozes ecoaram no silêncio profundo, já não sei se do templo ou se de meu interior, e se difundiram pela nave, em todas as direções. Olhei para trás e vi uma velha em profunda oração. Ela orava a Deus, o terço em suas mãos avisava isso. Eu, não. Eu, em minha reflexão, orava à humanidade que sangrava abundante dentro de mim. Extenuado, saí.

Quando saí, andei uns metros de chão e fui topando... Fui topando com o nada da vida sem nada, e lembrei-me da igreja-barracão, do bairro-acampamento, e me veio que as pessoas que se defrontavam comigo estavam muito ocupadas na destruição dos monumentos. Mas elas não sabiam que os destruíam, simplesmente porque não os viam. Não tinham o que dizer, e pelo que ouviam, percebi que também não tinham o que ouvir. Se lhes se dão o estatuto de humanos, é puramente pela forma, que, em essência, estão mais próximos dos animais. Nem isso. Os animais estão profundamente mergulhados no império dos sentidos. Elas, aquelas pessoas, apenas vicejam no embalo dos sentidos mutilados.

No meio do furdunço da bandalheira, mergulhando nela, concluí: um povo que não ergue monumentos a si, que não os cultiva, está em frangalhos. Constatei que de toda a gente que me fez, que ainda me faz, só restam uns poucos contados de adultos, com raros jovens, com raras crianças. Vejo o que restou de toda a minha cidade: a Igreja, o Cemitério, o exílio na Caatinga agonizante.

Voltar | Enviar por e-mail
escort bayan
Júpiter.com.br - Esmeraldo Lopes - Todos os direitos reservados