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Memória
Esmeraldo Lopes

O passado nunca passa. Seus fantasmas é que adormecem. E quando seus fantasmas adormecem temos a impressão de que ele está liquidado, que seus resquícios são marcos inexoráveis de acontecimentos que não nos atingem mais, petrificados, inofensivos, habitando no mundo das vagas e despedaçadas recordações que nos acenam. A imaginação o reconstitui, dá-lhe forma conveniente, folcloriza-o, lendifica-o, acresce, suprime, dissipa-lhe, e até nos esquecemos dele. E aí ele fica mais distante, inexistente. E seus resquícios se perdem sem sentido em nosso conhecer. Mas alguns fantasmas não conseguem dormir. Põem-se em um contínuo cochilar. Os fantasmas acompanham tudo pelos sonhos, no leve sono, tomando por cama os nossos corpos e as sobras da matéria do que restou. De tanto que tanto, um dia eles resolvem se fazer vozes no mundo. Saltam em nós, despertam em nós. Dezenas, milhares, milhões de testemunhas contraditórias. E aí o passado re-volta em revolta. E os significados mortificados das ruínas se reanimam, e retomam as formas indefinidas da vida, e fogem do nosso controle, e nos perturbam, e as certezas se transformam em dúvidas. A história se perde, vira lenda. A vida se unifica na confusão de suas faces infinitas. E tudo volta, e tudo é, e tudo vai. Tudo ao mesmo tempo, pesando sobre nossos ombros, fustigando nossas mentes, doendo em nossos corações.

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