Nem tão distintos: Renato e Zidane brilham no comando com vestiário na mão
Preço médio da gasolina fica praticamente estável na semana, acima de R$ 4 por litro, diz ANP
Volkswagen Polo 1.6 x Fiat Argo 1.3: comparativo
Maranhão possui maior proporção de pessoas em condições de pobreza extrema, segundo IBGE

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
SANTO DE CEMITÉRIO
Esmeraldo Lopes

Os cemitérios, não importam os zelos dos seus tratos, são sempre ruínas. Algumas dessas ruínas explodem em horror, pelo descuido a que são deixadas: restos de caixões, ossos carcomidos, torrões formados pela oleosidade dos corpos decompostos, flandres enferrujados em formato de folhas... tudo isso rolando na flor do chão, pisoteados pelos acompanhantes de enterros. As covas descuidadas, os túmulos rachados, as cruzes quebradas, enferrujadas. Os mortos dali definitivamente mortos, pelo esquecido das lembranças. E, se afloram à terra, nos restos de suas decomposições, o fazem em atitude desesperada de rememoração. Há outras ruínas bem cuidadas, com seus mortos agasalhados, na intenção do descanso eterno: obra de seus vivos mais de perto. Mas com cuidado ou sem cuidado, os cemitérios são sempre ruínas. Ruínas, que como os mortos que agasalham, também morrem. Mas, em abandono ou em cuidado, enquanto não morrem, os cemitérios se irmanam na comunhão da tristeza, na labareda das velas, das velas mal queimadas, no silêncio da solidão, quebrado, aqui e ali, por soluços agônicos explodidos pela dor que se arrebata dentro da alma. E a esse silêncio, e a essa solidão, vez por outra, vem se juntar o silêncio e a solidão contemplativa dos abatidos pela ausência definitiva dos seus. Dos seus só atingíveis pela lembrança, lembrança que se vai amarelecendo na corrosão do tempo.

Por muito que não se queira, os cemitérios são paisagens arruinadas, segregadas. Mas aí habita um ser. Um ser santo. É o Santo de Cemitério. Os santos não existem. Não podem ter vida, é a certeza de minha conclusão. No entanto das coisas, há quem diga que eles existem, por isso lhes colocam lá, para fazerem companhia aos mortos. Então, vou dar vida aos santos. Vou fazer o suposto que eles vivem, portanto que eles sabem, que vêem, que sentem. Que martírio o de Santo de Cemitério. É botado ali, e se funde àquela paisagem tétrica, compondo, decorando túmulos. Como vê, sabe e sente, preso em pedestal, se põe involuntariamente no acompanhar das ocorrências, das ocorrências doloridas. De vez em vez, uma vela ao seu lado lançando-lhes fumaça, depois o vento, o sol, o silêncio, as flores murchando, o tinir das enxadas arrastando chão. Tem que agüentar, ouvir impassível lamentos imerecidos. Alegria de cemitério: o vôo, o canto de pássaros, o zumbido de abelhas, o movimento desordenado das folhas embaladas pelo vento, o ranger dos arranjos de flandres, as risadas dos coveiros... Nunca ouviu falar em alegria lúgubre? Pois é a única alegria possível a Santo de Cemitério. Ornamento, puro ornamento, não se lhes dão atenção, que cuidado de reza encomendada é acudido nas igrejas, com pedidos rogados aos pés de santos bem entronados. E chegam os chorosos em rezas pelos seus mortos; e vêm os sepultantes em seus doídos lacrimejosos; e aparecem curiosos olhando fotografias, contemplando os mistérios da memória, lendo as lápides. O Santo, olhando na intenção de puxar um pouquinho de alguma atenção. Mas nada, como se fosse invisível. Algum ainda tem o conforto de ser abrigado em sepultura de morto de merecimento, pelos passados do correr da vida. Outro é plantado para ornamento de defunto cuja inexistência fez dádiva à existência humana. De um jeito ou de outro, ele lá, sem que lhes ouçam os reclamos, desprezado, tendo que testemunhar os esturros das dores dos que estão no mundo, pagando a pena de sua existência involuntária, penitenciado pelo pecado que não cometeu. Ainda sofre do enjeitamento geral, que ninguém nunca viu ou ouviu falar que algum alguém levasse para sua casa, para o seu oratório um Santo de Cemitério.

Voltar | Enviar por e-mail
escort bayan
Júpiter.com.br - Esmeraldo Lopes - Todos os direitos reservados