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O guardador de tentação
Esmeraldo Lopes

Não é preciso dizer que festa de formatura é a imagem de anacronismo encruado. Não sei mesmo como as pessoas que concluem um curso ainda se dispõem a investimentos emocionais e financeiros na promoção de evento tão sem pé e nem cabeça. O certo é que aos finais de semestre a certeza é certa. Desde dantes saem os formandos à caça de patrocinadores a quem, depois do dinheiro liberado e sacramentado pela vistoria da Comissão de Formatura, fazem as denominações de paraninfo e patrono. Os políticos são os alvos primeiros, depois, se não colar, vêm empresários, se não der certo, a cata do financiador da formatura não se encerra, pois, na lista de sucessão, qualquer sujeito disposto a abrir a carteira serve, independente de sua vida pregressa. O que importa é que haverá solenidade. O diretor, os subalternos institucionais, etc., etc., na mesa, o paraninfo, o patrono, o orador da turma... todo mundo fazendo discurso. Na platéia a angústia, as palmas nas horas de encerramento das falas, a expectativa que o último orador seja o último. Quando se percebe que não é o último, roga-se para que o próximo seja breve, de preferência que abra mão da palavra. Mas como o auditório está cheio, os oradores sempre soltam as cordas vocais forçando situações e têm como garantidos os aplausos, que, de antemão, sabem são protocolares. Mas não importa. Aplausos são sempre aplausos. No meio desse fingimento todo, todo mundo finge que tudo é verdade: o diretor, o paraninfo, o patrono, os familiares dos formandos, os próprios formandos. As roupas reluzentes e os olhos brilhando. É o protocolo. Tudo tem que estar nos enfeites dos conformes.

A debandada para a festa. As mesas do dia-a-dia enfeitadas com toalhas brancas, o arranjo de flores sobre a mesa, a “orquestra” tocando as mesmas músicas da situação, repetida duas vezes a cada ano. Os convidados se vão chegando, localizando-se de acordo com os números marcados nos mapas, até que o ambiente se enche. Uns bebem, outros dançam, alguns vigiam o ambiente com olhos sem muito assunto. Em vários desses eventos me fiz presente. Algumas vezes por imposição da profissão, outras vezes por puro não ter o que fazer, fazendo boca-livre. Livre, não, paga com minha representação. Em todas elas aquele clima tétrico, que nos traz o desejo do inexistir. Todas, não. Houve uma que fugiu ao padrão, mas foi por acaso. Todos estavam naquele sem assunto, alguns já meio bêbados, outros passados, algumas puritanas sóbrias atentas pescando lances de condutas relaxadas, os formados atentos às mãos dos cumprimentadores. Foi aí que aconteceu. Todo mundo olhou. Uns porque estavam de frente, outros porque acompanharam a atenção alheia. O certo é que quando eu também bati com os olhos, a cena já transcorria. As atenções se prendiam em um casal que entrava no recinto da festa. Ele um baixinho, ela um vulcão sexual. O cabelo, os olhos, os peitos, o rosto, as pernas, a pisada, o rebolado sensual... tudo compondo o cenário do fantástico erótico. E lá vem ela vindo. Ela vindo e as cabeças se virando no seu acompanhar. Quando atravessou o frontal de mesa onde eu estava, os olhos meus e dos que estavam a meu lado foram puxados pelo vento de sua passagem. O movimento dos cabelos, a bunda balançando, as costas expostas, os quadris bem desenhados e... e um cheiro de sexo solto no ar, arrepiando os desejos masculinos, inflamando os ciúmes femininos. Os instintos masculinos explodiam libidinosos, desenhando na face de cada homem a aparência imaginada do semblante do cão à cata de pecado. Alguns até corriam, sem perceber, a língua nos beiços. Acordei. Notei o outro elemento do par: um baixinho invocado, empertigado, cara mau-humorada, soltando faísca. Sentaram-se nos cumprimentos dos presentes da mesa dos assentos que tomaram. Ela deslumbrante e querendo mais e mais deslumbre.

Ele enfurnado, passando os olhos no ambiente, tomando a todos como inimigos, intentando afastar os despejos dos olhares desejantes. Mas nessa que nessa, um atrevido. Não é que um atrevido se quedou para chamar a moça para dançar? O baixinho não se fez de civilizado. Pegou antes na mão do camarada, afastando-a com virulência, como se o chamasse para briga. A impressão que me veio foi que subiu um penacho de cabelo do pescoço dele. Depois um outro veio cumprimentar a dama das atenções. O baixinho acompanhou bem a ação do intruso, se interpondo antes da consumação do cumprimento, botando distância com o braço. O seu mal-estar era evidente, como evidente também era a temperatura do seu humor. Meia hora depois ninguém olhava mais frontalmente para o vulcão sexual, só com o canto dos olhos, nos vacilos do baixinho. E o baixinho lá, tenso, vigiando, pronto para a guerra. Pensei: “Eu não ficaria com uma mulher dessa por uma hora. Não suportaria. Esse sujeito é um herói, um herói que eu jamais invejarei”. Mas ele estava lá, firme pagando o preço por namorar o vulcão sexual. Na verdade, pensando bem, eu não sei nem se ele sabia onde estava, nem sei se sabia o que fazia. Onde quer que estivesse, onde quer que ele fosse, não tinha tempo para namorar àquela mulher. Aquilo não era um namoro, era uma tormenta, um trabalho. Trabalho atormentado de guardador de tentação. Que sina!

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