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GÊNERO AMALUCADO - I
Esmeraldo Lopes

Outro dia eu fui a um Congresso de Sociologia e fiquei assustado. Não contei, e nem me dei ao trabalho de pedir o percentual, mas seguramente oitenta por cento dos participantes eram do sexo feminino, já não sei se eram femininas. O restante poderia ser do sexo masculino, se fosse, que nesses dias a gente já não pode identificar o gênero de uma pessoa pela olhada. Apesar da desproporção, não foi ela que me assustou. O que me chocou foi a postura das mulheres, que não sei se eram mulheres, pois a imagem que elas se fazem e apresentam não cabe no meu conceito de mulher. Está aí minha confusão. Mas parece que acham que são mulheres e deduzi isso do fato de proclamarem ao vento: “Agora é a vez das mulheres”. E os homens? A imagem daqueles pobres coitados não se distinguia muito da de uma coruja com frio. Encolhidos, medindo as palavras e cordatos, imitavam seres inofensivos caídos de alguma região do céu, em pleno estado de impotência diante do medo de cometer o mal. Em suas manifestações verbais ou escritas sempre faziam questão de observar o princípio canônico: meninos e meninas, eles e elas, homens e mulheres, os jovens e as jovens, os trabalhadores e as trabalhadoras... E se assim procediam era por pura precaução contra qualquer deslize que se parecesse com uma declaração discriminatória do gênero feminino. O grave disso é que não procediam por disfarce. Já haviam incorporado esse jeito civilizado que os desfigura como homens. Os do Sul modificaram o jeito até ao comer pipoca. Eu disse pipoca. Pegavam os saquinhos, isso mesmo, s a q u i n h o s, assim como denominavam, e mergulhavam com muito estilo três dedinhos, dedinhos como suponho que expressassem se lhes fosse perguntado, e traziam três flocos levando-os à boca com a fineza do mais educado ser feminino. Tive a impressão que se alguém lhes cutucasse com força pelas costas eles soltariam o grito anunciador de surpresa: “Ai, mulher!”

Vendo aquilo, entrei em mim, e lembrei o que meu pai um dia me dissera ao me ver cuidando de um filho: “Só falta arranjar um jeito de botar peito pra dar de mamar”. No ato, e por ter caído parcialmente no conto das mulheres, achei a declaração de meu pai machista, mas não. Ele, através dela, só estava chamando à minha atenção, indicando que na vida, por imposição da natureza, tem que haver divisão, e que assim como os gêneros são diferentes, também são diferentes seus papéis. E foi a partir daí que eu me botei atenção, e mesmo assim, aqui e ali, me deixava cair na lorota das mulheres, e quando isso me acontecia, descobria que sempre feria a minha essência. Decidi-me definitivamente por minha natureza e juro que a vida melhorou. Aprendi a não fazer concessão nessa questão de gênero e quem quiser que urre e tome o caminho dos cafundós.Assim não tenho que pedir desculpas a mim mesmo e passei a orientar-me por um pensamento que depois o vi expresso de forma límpida em um depoimento de Clarice Lispector: “Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro... há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi”. Excluindo a expressão “até” e substituindo o termo defeito, por traço essencial, ela formalizou por escrito o meu sentimento.

Volto às mulheres. Às mulheres? Não sei. Lá no Congresso de Sociologia elas estavam ativamente nas reuniões, discutindo, expondo seus achados científicos. Até aí nada de estranho, a não ser a desproporção numérica de sua composição. Assustadoras eram as expressões faciais, os trejeitos, o impostar da voz, o descuido com a vestimenta. Houve momentos que tive a impressão que se figuravam como peões em final de expediente.

Um colega meu, para quem eu não havia exposto minhas observações, em um dos intervalos, mirando um grupo de mulheres, me confidenciou: “Não são femininas”. Eu as olhei. Não podiam mesmo inspirar nenhuma apetência, nem para as vistas e nem para o desejo. Ele continuou: “Aquela ali eu a conheço. Ô pessoa chata, você precisa ver. É professora de uma Federal, é doutora com uma tese horrível, puxa saco e mandona, mas tem prestígio. O marido é sustentado por ela. É um sofredor, só vive bêbado, também para agüentar uma coisa daquela...”

Numa das sessões do Congresso, uma mulher - ela era vistosa -, ofereceu facilidade para um sujeito que eu havia conhecido lá. Confesso que fiquei chateado, pois o olhar dela, pensava eu que fosse para mim. Não era. Era para ele. O camarada não se fez de difícil. Partiu para cima dela sem reflexão. Logo, logo, os vi em conversa simpática em uma cantina, mas percebi um cheiro de pouca feminilidade nela. “O camarada se arrumou bem arrumado”, pensei. No outro dia encontrei casualmente com ele. Perguntei pelo mulherão. Ele respondeu antes que a pergunta levantasse poeira: “Mulherão!? Era um macho de vagina!” “Como assim, rapaz, não vai dizer que era um travesti cirurgiado”. Ele: “Não, não é isso. Acontece que ela queria me manipular em todo lugar e até na cama, me conduzir. Foi uma luta. Foi uma merda. No fim ela disse que eu era um machista”. E soltou a sentença: “É uma vampira sexual”.

Sempre há luz, nem que seja uma réstia. E a luz apareceu em um corredor, enquanto eu esperava o início de uma sessão. Ela estava lá, esplêndida, despejando beleza e feminilidade. O cheiro de mulher feminina se esparramava sem que fosse percebido pelos civilizados. Trejeitos suaves como movimento de pluma em vento manso. Eu precisava ouvir a voz dela. Sua atenção à minha pergunta forjada foi impressionante. Ela sustentou conversa. Opinou que homem tem que ser homem; que mulher tem que ser mulher; que acha as feministas um horror; que acha os homens educaduzinhos uns nada. Em nenhum momento demonstrou vontade de submissão, nem muito menos de superioridade O que atraia nela não era sexo, não era a forma estética, não era a alma. Era o conjunto disso tudo na explosão feminina de uma mulher. Mas as outras também não são mulheres? Foi aí que brotou em mim a clarividência da necessidade de reforma conceitual da expressão mulher: mulher feminina. O significado do substantivo mulher foi corroído, deturpado, degenerado. É preciso, sempre que ao nos defrontarmos com mulheres que preservem a feminilidade, nomeá-las usando sempre o substantivo “mulher” conjuminado com adjetivo “feminino”. Feminino agora não é mais categorização de gênero, mas a expressão de um modo de ser, do modo de ser mulher-feminina. Ainda há muitas mulheres-femininas, mas é que a maioria delas têm vergonha de assim o ser, e se camuflam, temendo as censuras das feministas. Eu peguei o espelho do Congresso para ver, mas o que vi naquele espelho é o que se vê em todo lugar.

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