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Esperança
Esmeraldo Lopes

Lembro da leitura de um romance. O personagem era um prisioneiro jovem que fora julgado e condenado à morte. Ao narrar sua história ele acabou capturando minhas simpatias e pus-me a seu lado. No término da leitura, entendi que ele fora executado. Fiquei pensativo e triste com aquela morte institucional. A pena de morte sempre me provocou arrepios, não pela morte em si, que a morte a sangue quente, sem preparação, motivada pela raiva, traz consigo a idéia do contingente, e, no mais das contas, quando se pensa que não, já aconteceu. A morte institucional não, ela acontece permeada por um ritual macabro, racionalmente elaborado nos menores pormenores para só matar o corpo depois da morte da alma. O condenado vai acompanhando seu próprio fim, e, passo a passo, encena sua desgraça, por antevisão. Tanto faz se proteste ou não, ele ensaia sua morte várias vezes. A pena de morte é fria como a civilização.

Dizem aqueles que estão acostumados a lidar com a morte, por experiência ou por leitura, que na proximidade dela o moribundo repassa as imagens mais significativas de sua vida, como se estivesse a selecionar o material nobre de sua existência para levar consigo: a última visão. Mas essa situação acontece quando o moribundo já está entregue e insensível, no espaço de breves momentos. O condenado, não. Entre a sentença e a execução da pena se deixa um largo intervalo, como se fora para que ele dispusesse de tempo suficiente para ensaiar. Mas o que interessa aqui não é isto. Estou falando de esperança.

Como o romance era de conteúdo profundo, resolvi fazer uma segunda leitura. Ler uma história quando já se sabe o final quase sempre é desinteressante. Mas, no caso, sabendo do que sucedia, eu estava mais interessado no meio. No prosseguimento dessa releitura dei com um verbo que sugeria que o condenado falava a partir da velhice e que, portanto, havia sobrevivido. A colocação do verbo advinha de um descuido do autor ou de erro do tradutor, pois os verbos postos adiante indicavam outra coisa. Fiquei feliz. Já não tinha tanta certeza de que ele fora executado. A dúvida é o território onde se nutrem a angústia e a esperança. Quando se está certo da certeza, uma pequena margem de dúvida abre toda uma vastidão de esperança ou de agonia. A esperança é isto: a transformação do real em irreal e do irreal em real, a espera do acontecido que a gente quer que seja, a modificação do que foi naquilo que a gente quer que tenha sido. Se temos esperança é simplesmente porque sabemos que o suceder dos acontecimentos não podem ser dirigidos por nossas mãos, que o previsível se desmancha, que embora o absurdo não ande por aí, acontece. Absurdo: uma possibilidade no infinito das impossibilidades, uma impossibilidade na certa possibilidade.

Quem cultiva esperança planta dor. Mesmo que no final o absurdo esperado aconteça, seu grande nutriente foi a angústia da espera. Pior ainda se o absurdo acontecido não foi aquilo que se esperou. Aí a morte daquela esperança, e um vazio e um renascer.

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