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ÚLTIMO CRENTE-FANÁTICO OU A MORTE DO DIABO
Esmeraldo Lopes

Os cruzados - aqueles a que se referem os livros de história - já se foram. Os inquisidores da Santa Inquisição são lembrados pelos atos brutais, e fazem, ainda, os representantes da Igreja Católica quedarem-se de joelhos rogando perdão. Tarde demais. Que o diga a memória deixada por Giordano Bruno e as notícias sobre multidões de pessoas cujos corpos foram assados em nome da fé, na carreira pela purificação do mundo. Ninguém, nem mesmo o papa poderia se considerar seguro o suficiente. Qualquer suspeita, qualquer denúncia poderia levar aos mais doídos gritos e maus-tratos nas masmorras sagradas da Igreja. Dizem que este tempo já foi. Será que foi? O diabo, dizem, continua aí. Só que agora, pelo que escuto, se transformou em dois. Um diabo, o velho, velhíssimo Lúcifer, contraponto de Deus. O outro, um diabo ateisado, contra quem os igrejeiros de todos os tipos não dão muita importância. O nome desse diabo é Preconceito. Não falarei da perseguição a esse, agora. Falo apenas das batalhas contra Lúcifer.

“O diabo é forte porque não existe”, disse Guimarães Rosa. Por que não existe, um bota um rabo, outro bota um par de chifres e mais outro, outra coisa, e assim, cria-se um ser tão poderoso que nem mesmo a possibilidade de uma imaginação infinita poderia alcançar-lhe no todo. Desse jeito, fez-se e faz-se todo dia o espantalho da vida. Diante da idéia que se faz dele, os olhos se esbugalham, o espírito se atormenta e o crente fica ali, encolhido, tremuloso como um rato lançado num abrigo de serpentes. Penitência!, penitência!, purificação da alma. Guerra ao diabo, na luta pela purificação do mundo. Eis que é necessário salvar o mundo, salvar as almas. Salvação que se alcança pela purificação dos atos, dos pensamentos, dos sentimentos. Nada de “mau” é permitido. O relâmpago de um desejo fortuito tem que ser purgado pela penitência dura, planejada, estipulada, eliminadora do ser gente. A evangelização, a difusão de um pensamento único. Não importa o homem, importa Deus. E dizem, no claro de suas palavras: “Em nome de Deus faça-se ovelha e engorde o rebanho do Senhor. Tudo o que não é ovelha é agente-penetrado pelos agentes de Lúcifer”. Se resistem, devem ser extirpados, pensam e querem. No íntimo, desejam a volta das masmorras e o acender de novas fogueiras. Se não o fazem no agora, é porque se calculam sem força. Na busca de forças lançam-se sobre os desesperados, sobre os que não agüentam a solidão da vida, sobre os vencidos e agoniados. Nessa marcha, engordam as fileiras de infortunados, que se esperançam e enchem os templos, e gemem, e deliram: beber é danação, fumar é danação, dançar é danação, desejar é danação, pensar é danação, sexo é danação, enfim, viver é danação e, portanto, deseje-se a morte, a morte da vida em vida.

Batalha feroz. O crente-fanático olhando-se no pecado cometido por ele mesmo, culpa o mundo, o mundo contaminado pelo diabo, vê-se vítima da danação. Busca a purificação do mundo, para se purificar. Vai ao exorcismo advertindo, ameaçando, desejando mal a quem não lhe dá ouvido. À este, as labaredas eternas do inferno, com fedor de carne de gente assada. Já é a corporificação do diabo. E no afã dessa luta, um impulso da natureza, um desejo pecaminoso em seu próprio corpo: danação! Aferra-se ainda mais e esbraveja nas praças, nos templos, onde quer que haja gente: “O Dia vai chegar” – espragueja. Se pudesse faria logo o fim. Começaria pela liquidação dos endiabrados evidentes, depois se poria na espreita identificadora dos abrigos ocultos do diabo e os eliminaria um a um. E, assim, iria até o penúltimo ser. De tanto que tanto, quando último, dar-se-ia conta que o diabo ainda teria por abrigo o seu próprio corpo, e para concluir sua obra se suicidaria.

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