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OS OLHOS DOS RETRATOS
Esmeraldo Lopes

Gosto de fotografia. Não de qualquer fotografia. Gosto mesmo daquelas fotografias que falam, mas que falam sem invenção. As fotografias posadas são sempre feias, inexpressivas. Agridem pelo vazio da superficialidade. No desgastar do tempo, entretanto, mesmo algumas fotos superficiais, quanto mais perdem o brilho, se desbotam, mais revelam a profundidade dos retratados. Assim também são os retratos. Não importa que tenham sido tirados em lambe-lambe ou em Foto categorizado: são sempre destituídos de pretensões artísticas.

Desde faz muito tempo, quando eu olhava uma foto antiga, sentia o cheiro da morte. Pensava: “Todos já morreram, viraram moradores de cemitério”. Esta é a mesma sensação que me vem hoje. Olho-as e fico tentando imaginar os sonhos que pousavam naqueles olhos e as emoções que os faziam vida. Não é imaginação, os olhos querem comunicar.

Alguns índios se arredam quando vêem jeito de lhes tirarem uma foto. Acreditam que suas almas serão roubadas nelas. Esse pensar não é muito sem razão. Outro dia... Não houve propósito. Tudo começou com um grilo que incomodava de dentro de um arquivo velho. Investi com o intento de desalojá-lo. A gaveta saiu destrambelhada. Dela se despejaram várias fichas de ex-alunos meus. Os olhares dos retratos deles caíram sobre mim, me invadindo a alma, reluzindo no claro todos os brilhos ocultados numa gaveta, mergulhados no escuro, sem anunciação, sem poderem anunciar-se. Eram olhares de meninos. Tinham catorze, quinze, dezesseis anos, mas já se haviam passado mais de dez. A lembrança se invadiu em mim. Mas não havia lembrança especial, era uma lembrança em bloco, de um tempo, do tempo que eles faziam a paisagem de minha vida. E fiquei mirando, sendo mirado, procurando um reencontro naqueles olhares. Olhares de confiança, de conquista, de despertar no mundo. Posso dizer: senti o cheiro da esperança que os acompanhava. O que eles queriam me dizer? Onde estariam agora? Será que ainda se carregam do brilho iluminado pela esperança na conquista do futuro? Não interessa. Os olhos que me olhavam naquelas fotos continuavam com a idade do tempo delas. Exprimiam as almas dos mesmos meninos, presas naqueles olhares, paradas, clamando continuidade da vida.

Quando uma máquina fotográfica me mira, acompanho-me de assombro. Que olhos me olharão do futuro? O que pensarão os olhos que me olharão? Dirão como eu: “Esse já é morador de cemitério”. Observarão minha roupa, meu jeito, os aspectos do fundo da fotografia e depois de algum espiar, largarão a foto para o lado e dirão: “Esse era o jeito de antigamente”. E me devolverão a alguma gaveta de pouca freqüência, até que as traças me façam o segundo sepultamento, desta vez definitivo. Talvez seja com medo dos julgamentos futuros, do segundo sepultamento, que eu não fuja, mas evite fotografia. Mas quando acontece de minha imagem ser tragada, me vejo no distante desbotado do tempo. Carrego-me de nostalgia. Outro dia fiz a foto mais triste de minha vida. Sim, eu a queria. Foi num cemitério. Eu posei diante de uma sepultura, com cuidado para não deixar escapar quatro fotos testamenteiras estampadas no túmulo: ali, três irmãos e minha mãe. Sim, ali eu estava novamente com eles, e os olhos deles me viam, se trocavam com os meus, até me sorriam. Uma delas fora de minha lavra, acho, mas isso não faz diferença. O importante é que ao tirar aquela foto eu não imaginava que um dia fosse-a servir para ali, mas foi o que foi. Quando me fui, meu corpo caminhou se arrastando sem querer ir. Senti que minha alma tinha ficado mais um pouco, presa, agarrada nos liames daqueles olhares, tão bem meus.

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