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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
Sobre caatingueiros e ladrões de bode
Esmeraldo Lopes

A seca é o maior problema dos caatingueiros, mas ele é incorporado como fatalidade. Diante dela os caatingueiros quedam-se. No máximo procuram nos escassos recursos das caatingas, refrigerar os animais que podem. Em outras palavras, e usando suas próprias expressões, buscam “arremediar” os efeitos da seca, na certeza de pouco sucesso. Sobra-lhes, ao final do período, o comentário contabilizador, um queixume sem força, e um conforto pelo que sobrou: a semente para o futuro. Com essa semente e com a ajuda dos céus, em três, cinco anos, o rebanho comido pela inclemência do tempo se reporá. De quinhentas cabeças volta-se para duzentas e de duzentas, vai-se para quinhentas. É assim e assim sempre será. Não há sentimento de culpa e nem arrependimento por não terem vendido os bodes velhos, de dois, três e até cinco anos, que acabaram devorados pela seca. A seca e o verde são entidades do tempo. As carcaças encontradas no mato incorporaram-se à paisagem, como monumentos que se renovam em cada período rúim. Deus dá, Deus tira. Ponto final. A perda de animais provocada por predadores causa lamentos. Neste caso, embrenham-se os caatingueiros no mato para matar o facinoroso predador. Vale tudo: arataca, arapuca, veneno, espingarda armada, caçadas específicas, prêmio para o matador do bicho destruidor. Mas o prejuízo causado foi causado, e tão logo os predadores são eliminados, encerra-se o assunto.

A mortandade por bicheira tem parentesco com o tempo. Já se pauta como certa. Não tem jeito. É resultado do um casamento fatal de moscas, morcegos, ferimentos, umbigos das crias umedecidos e dos paridouros da criação prenha pretuberante. Só resta mais um pouco de atenção, para que as perdas não sejam além daquilo que já esperam.

Os extravios dos animais do pasto também são certos. A falta de comida e os instintos dos bichos os levam para longe. Saem das vistas dos donos. Nesta ida sem rumo podem morrer, mas sempre haverá a esperança de, um dia, um outro caatingueiro trazer ao endereço da habitação o animal sumido. Pode acontecer também, de um dia o encontrar preso em seu chiqueiro, colocado por alguém que o viu fora do pasto e o repôs a seu dono. Neste caso fez um favor-obrigação, que assim é que é. Se nunca mais aparecer, não apareceu e o tempo o porá no esquecimento. O espantalho dos caatingueiros é a figura do ladrão de bode. Para eles, esse é o ser mais abominável do reino animal. Se um indivíduo, por “necessidade”, colhe o bode de alguém para suprir sua fome, recebe a alcunha de ladrão de bode, e se bem que não julguem necessário e nem achem correto que seja aplicado castigo extenuante sobre ele, sempre será tratado com desconfiança, mas o toleram, se o fato não se repetir com insistência. O ladrão de bode que abominam sem perdão é aquele que rouba animais para vender. Consideram-no o maior bandido, contra o qual qualquer pena ainda será pequena. Como dizem: “ladrão de bode é a maior praga do mundo”. Alimentam-se da certeza de que “este é inevitável”. A perda de um bode por roubo será lamentada para o sempre de toda a vida do roubado. Ao falar-se a expressão ladrão de bode, dois mil ouvidos em mil caatingueiros se esticam e os olhos se acendem, fulminantes. E àquele a quem a expressão se reporta estará desgraçado para todo um sempre.

Mas o ladrão de bode que os caatingueiros conheciam pertenciam a seu mundo. Tinham endereço certo e fincava-se no meio de suas relações. Podia ser o filho desencaminhado de um pai honroso, de um vizinho a quem se tinha alguma consideração. A própria família adjutorava na obra de sua punição. As próprias vitimas do roubo, por vezes, se juntavam para arranjar o numerário suficiente para pagar as passagens para o infeliz se desterrasse. Mas nem sempre as coisas corriam sem tanta tormenta. Ao ladrão de bode contumaz aplicava-se pena que ia além do degradante. O prejudicado, quando tinha um certo poderio, colocava o sujeito em uma estrada e o conduzia, tocando-o, até uma cidade distante, anunciando pelos caminhos a má reputação daquela imagem de gente. Por outras vezes, quando a coisa parava nos amparos do delegado, além dos suplícios físicos, levados a efeito pela palmatória e pela aplicação de surras com relhos, costumava-se cortar os botões da braguilha do acusado, pendurar-lhe as peles do animais roubados no seu corpo e punham-lhe a desfilar pala rua exibindo-as com uma das mãos, gritando: “Esta pele era de uma cabra de Fulano, esta outra era de um carneiro de Cicrano...”. Enquanto isto, com a outra mão, segurava o cós da calça, evitando “expor as vergonhas” do corpo, ao mesmo tempo que não podia camuflar a dor envergonhada da alma. Em suas profundidades, também achava aquilo certo. Penava-se como fracassado, não era bandido. O que é de supor: o desgraçado olhava o povo sem ver, vendo-se ladrão de bode. O povo assistia a isso, em um misto de comiseração e cumplicidade com a pena. Havia quem não quisesse ver a tormenta, mas exigia punição, afinal, se viciar não tem jeito. A família do culposo, calada, triste, impotente, lavava-se com as lágrimas da vergonha pelo ato que se lhe estendia. Mas nenhum sujeito bem situado foi submetido a tal castigo, embora alguns destes tenham aumentado seus rebanhos a partir da prática gatunhesca. Neste caso, só os cochichos, o falatório acautelado: “Cachorro gordo, só com carne de carneiro alheio”.

Agora não é mais assim. O ladrão de bode continua existindo, mas está se associando com bandidos, virando bandido também. Estes agem com estardalhaço de ameaças armadas. Ao invés de duas, três cabrinhas, carregam todo um chiqueiro, toda a criação que encontram em um amalhador. Os caatingueiros, encolhidos espremem-se dentro de casa, desviam-se nos caminhos, temendo pela vida. A raiva que sentem se reprime pelo medo. Sabem que os bandidos que roubam bode contam com a cumplicidade das leis, das autoridades. Do passado, só restou a má fama do ato e a revolta com eco fraco, que não ultrapassa seu mundo. Sem contarem com os costumes, com as leis, com as autoridades, os caatingueiros estão aprendendo a prática de remediarem a situação fazendo cotas para pagarem a pistoleiros, com o fito de porem fim na questão. Assim, emigrou para as caatingas um personagem da cidade grande: o presunto. Um presunto com nome, com cara. A família se disfarça, proclamando seu ente inocente. Quando a notícia se espalha, os caatingueiros fingem ignorância. Num ato de vingança, proclamam a justeza do ocorrido. E sentem-se aliviados, mas por um tempo.

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