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ANTÔNIO PRECISA VIVER
Esmeraldo Lopes

A rua está em movimento. Uns andam no cumprimento dos seus quês. Outros, sem quê nenhum, perambulam com os olhos na busca de sentido. No bar da praça, a música no ritmo do gosto do povo, cervejas viajando pelas gargantas. Cada mesa uma nação, algumas nações de um sozinho, mas há algumas nações emitindo espalhafatos vocais que entrecruzam o compasso da melodia repetitiva. Olhares pescam com atenção declarada, com atenção disfarçada. Não há distração. Há tédio, ansiedade, desalento. Os camelôs caminham, de nação em nação, fazendo seus oferecimentos, na intenção de ao menos alguma atenção. Mexem-se sem ânimo, sem destaque, sem palavras, limitando-se a exibir os produtos despejados em seus corpos. Corpos descuidados, mal vestidos, mal calçados, mal asseados. Os vendedores de amendoins, de espetinhos fazendo suas propagandas: “Três é dois real”. Os garçons trazendo “mais uma”, limpando cadeiras e mesas com o mesmo pano, rigorosamente pendurado no ombro. Indo e vindo, atravessando as fronteiras do ambiente, vendedores de sorte milionária, pedintes, engraxates. O sol andando, forçando as nações a se refugiarem. Um menino. Um menino, lá vem. Vem deixando um papel sobre as mesas das nações. Deixa e passa, sem palavra. No papel: Antônio tem câncer. Tem apenas três anos e seis meses e precisa de tratamento que é muito caro. ANTÔNIO PRECISA VIVER. Não foi feito a esmo. Tem autenticação de instituições financeiras, filantrópicas, comerciais. É resultado de um patrocínio caritativo. Antônio existe mesmo. No verso está a foto. Antônio tem olhos mortos. Não tem cabelo. O rosto é crispado. O leito mostra o desalinho dos panos que lhe rodeiam. Num canto da foto aparece o pedaço de uma parede suja, furada.

O menino continua fazendo seus despachos, mecanicamente. A bermuda descamba no corpo e deixa aparecer um pedaço da cueca. As banhas saltam pelos lados, e lá vem no relaxo de seu andar. Dessa vez fala. Reaproxima-se, se faz perceber por um toque no ombro do aproximado: “Eu preciso pegar”. O aproximado não lhe faz atenção, mas o olha, no mesmo ritmo que lhe retira o olhar. Aqui, ali, uma moeda. O menino agradece com educação ensaiada. O papel borrou-se de cerveja, de resto de comida. Ele o recolhe, limpa-o na camisa, continua sua missão. Não é triste e nem alegre. Some.

Antônio precisa viver. Sempre viverá. Tem o dom da permanência. Prolifera sob mil disfarces. Vive na desgraça, se alimenta da desgraça, da desgraça que lhe fez desgraça, e não sabe outro viver. Antônio é alimento da piedade, é medida de progresso alheio, é meio de sobrevivência dos seus. Antônio não pode morrer. É que a desgraça-miséria sempre precisa da miséria para proliferar. Em si mesmo, Antônio é só sua dor irremediável, devorante no corpo, alma anestesiada. É a cara estampada da miséria, sem o disfarce das misérias de todos que fazem nação neste bar, de todos que dele se apiedam, de todos que promovem seu martírio.

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