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ESPANTALHO
Esmeraldo Lopes

As nuvens sem destino, agarrando-se e desagarrando-se, fazendo ora uma cobertura grossa, ora um rareado de manchas esfumaçadas. No meio delas, de instante em instante, o sol saltando luz na terra. O mato, acinzentado, no esticar dos olhos, emendava-se com o céu. E ali, ao lado, na beira da estrada, um espantalho, espelho da agonia, engraçadamente mostrado, para puxar a admiração de quem passasse. Era uma vaca. Cabeça para o alto, pescoço esticado, rabo solto no ar, em pé... com posição de carreira, só não berrava. Parada, seca em cumbuco. Estava morta. Uma obra de gaiato em zombaria. Mas o povo parava para se admirar e... - Deu uma “parasita!” - Não, foi um colapso. - Ela vinha correndo, aí olhou para o céu e deu taquicardíaco. O dono da vaca passava calado, sem ver graça na vadiagem. No silêncio da tristeza se aguentava, não se aparecia. A marca só de número, na perna dela, não dava destino de seu curral. A vaca, pobre vaca, poderia ser de qualquer um daquele lugar. No golpe rasteiro da vista, levada mais longe, outras havia também assim, derramadas sem vida no chão. Ao seguir de qualquer rumo, cangaços, ossadas, bichos em desalinho, bezerros fracos, chiqueiros vazios, pessoas em devagar. O puxar da lembrança podia trazer imagem como a daquele homem, na noite, dançando em sombras, sapecando mandacaru. Suado, mal vestido, solitário, alumiado pelas labaredas avermelhadas da fogueira, arrudiado pelo gado remelento que tocava sem afino os seus chocalhos, esperando comida. Rir de quê? Talvez rir da admiração do que viam fosse um sinal de ainda ser. Talvez fosse aquela vaca um espelho onde cada um pudesse se ver espantalho. De qualquer jeito, o gaiato, o que quer que seja, que tenha sido seu pensamento, ao botar de pé aquele cumbuco, levantou um monumento a cada um.

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