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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
RÉQUIEM
Esmeraldo Lopes

                                                                                          Esmeraldo Lopes

                  Adaptação de texto originalmente escrito para

                 cerimônia familiar.

Onde o início de nosso começo? Em algum ponto da eternidade passada. E daqui para lá, rastros, imagens, lembranças se apagando, esvaindo-se, desaparecendo do assunto do mundo até sumirem e entrarem na eternidade de esquecimento profundo.

Na vida construímos, sonhamos, vencemos, amamos, destruímos, sofremos, iludimo-nos... Nesse trajeto, longo ou curto, fazemos rastros, deixamos impressões, nos marcamos, marcamos, somos marcados. Fazemo-nos testemunhas de nós e dos outros, e os outros se fazem nossas testemunhas. E já não somos apenas o que queremos. Existem os outros a dizer quem somos, e não somos sem eles, e eles não são sem nós. Ligamo-nos pelos encontros, pelos desencontros, e nisso nasce um infinito, berço para infinitas recordações. O filósofo Albert Camus disse: “Se vivêssemos um só dia, ainda assim teríamos recordações para toda a eternidade.” Para toda a eternidade... A eternidade!... Somos tão depressa! Não podemos alcançá-la. Civilizações, mundos, até os cemitérios morrem e somem por completo sem deixar vestígios. Nossa eternidade nesse mundo, se a queremos, ainda que em sua efemeridade, joguemos para o mais distante possível o esquecimento profundo de nosso existir. “A grande derrota, no fundo, é esquecer...”, concluiu o escritor Louis-Ferdnand Céline.  Para sermos justos conosco, com os que vivem ou viveram conosco, com nossos antepassados, com a história, temos que lembrar, sem passar por cima de nada. Só assim podemos ser justos e encontrarmos a nós mesmos e nos vermos e nos compreendermos. Mas ser justo é tão difícil!, tão dispendioso! E se falta força para revelar a verdade? Temos que encará-la e sofrer diante dela, mas não mintamos para nós mesmos - e não nos desculpemos com farsa! Autocrítica, autocrítica, autocrítica e dor. Cientifiquemo-nos: o arrependimento não anula o passado, apenas reconhece um erro. Pior, muito pior que a dor da verdade é o vácuo do esquecimento. “Feliz o destino da inocente vestal, esquecida pelo mundo que ela esqueceu, brilho eterno de uma mente sem lembranças!” “...esquecida pelo mundo que ela esqueceu...” Foi o poeta  Alexander Pope quem disse, mas é possível não ter lembrança e existir como humano? De outro modo: é possível existir no esquecimento?  O esquecimento é a negação, adulteração da própria trajetória, do próprio existir. É também um modo de assassinar, de impingir morte cruel e de condenar àqueles que são esquecidos: Não és nada, não serás nada, não fostes nada, não valeste nada, não tiveste a menor importância. Esquecer é apagar o passado. É lançarmos nossos antepassados no espaço vazio do silêncio eterno... e embarcarmos juntos. Sem a lembrança, somos apenas vulto na insignificância do instante, meros animais. E se queremos ser para além do instante, da animalidade, cultivemo-nos nos que vivem conosco, nos que vieram de nós, e cultivemos, principalmente, nossos mortos, pois neles a nossa origem e o elo de nossa ligação. E só podemos cultivar nossos mortos pela memória. E, através dela, eles despertando dentro de nós, dando-nos as pistas para sabermos quem somos, mostrando-nos do que fomos feitos, proporcionando lastro para o seguir das gerações futuras.

Nossos mortos... Pensamos que os colocamos dentro de tumbas em cemitérios, mas antes disso - bem antes! -, eles deram início à obra de se sepultar em nós. De começo transferiram sua matéria para nossos corpos, imprimindo-nos seus traços ocultos, suas características aparentes e se inscrevendo em nossa estrutura física. Depois, devagarzinho, de modo inconsciente e também com propósito consciente, sem percebermos, a cada momento do convívio conosco, foram se passando para nós, guardando-se em nossas mentes, grudando-se em nossos gestos, fixando-se em nossas lembranças, semeando-se em nossos jeitos de pensar... e de ser. E nos ensinaram a falar como falavam. Colocaram em nossa língua a canção de seus sotaques. Alimentaram e embalaram nossas curiosidades, nossas emoções, despertaram nossos temores, contando-nos histórias acontecidas, supostas, imaginadas. Empurram-nos para seguirmos pelos caminhos que caminhavam e que, supunham, levasse-nos à vida reta! Muitos desses caminhos herdados de seus antepassados, outros abertos pelo andar de seus passos e pelos passos dos que viveram no tempo de seu viver. De mansinho, botaram tempero em nossos gostos e em nossos desgostos, e nos fizeram aprender a sorrir, a chorar, a sonhar, a aguentar dor, a ter esperança... Disseram-nos, mostraram-nos, mas nem sempre os ouvimos, nem sempre enxergamos o que nos expunham. Por vezes só fingíamos lhes dar atenção ou os desdenhávamos ou os desprezávamos. Não percebíamos nossa estupidez ou não procurávamos evitá-la ou não conseguíamos não sermos estúpidos. Eles também no mesmo... e nos atingindo em marcha ininterrupta com dureza, crueldade, aspereza, indiferença, ternura, alegria,  tristeza, serenidade, compreensão... Nós no envolto deles, no cenário, compondo o panorama, atuando em cada situação. E em cada situação, assim como eles, nós em sentimento de vida e de momento perpétuo. Em verdade, nessas ocasiões, eles não eram “eles”, todos éramos nós. A morte fora de conta. Não morreríamos nunca! A vida, as situações, em eterno presente. Presente preso dentro de quadro imóvel como as imagens dos retratos ou como cenas de filmes.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac… incessante, procurando o infinito. O tempo não tem preguiça, nem cansa, não atrasa, não adianta, não tem pressa. É monótono, estável, cego, surdo!... não tem coração. Não precisa de elogio, não liga para sorriso, nem para contrariedade, nem para choro, nem para aplauso... O tempo não liga para nada... caminha, caminha... Para onde vai? Não nos responde. Contentemo-nos com nossas suposições. Nós engolidos por ele, navegando nele, mas ele... Ele não nos vê. E, dentro do tempo, nosso ponto de surgimento, e a vir, em um acontecer inevitável, o nosso desaparecimento. Nosso desaparecimento... Quando? Como? A grande angústia seria esse saber. Que o digam os condenados à morte pela justiça, pois a estes foram informados os detalhes do cumprimento da sentença horrenda e conhecem a angústia inclemente alimentada pelo ouvir ininterrupto do tic-tac contínuo do tempo andando em seus passos mudos na direção do dia e da hora marcados para as suas execuções. Mas nós temos a graça da ignorância da data, da circunstância; temos a graça da imaginação, da capacidade de criação e da alteração do sentido das coisas. Não suportaríamos ouvir o barulho da contagem regressiva do tempo sob a regência da morte em espreita e nem o conhecimento dos detalhes da maneira de ser do nosso fim. Afastamos a morte para longe: “Um dia.”; colocamo-na na gaveta do esquecimento forçado: “Não vou ficar lembrando disso!”, dizemos. Criamos a eternidade de momentos e, agarrados à esperança, conseguimos vislumbrarmos o futuro, eliminando dele o enxergar de nosso desaparecimento. E ao invés de nos aturdirmos com o tic-tac que nos empurra rumo ao encontro de nosso destino final, damos-lhe outros significados, e enchemo-lo de sonhos, desejando, por vezes, que ele, o tic-tac, se apresse: “Eu vou crescer logo, aí...”, “O tempo vai passar ligeiro e eu...” E até nos despedimos do passado sorrindo e cantando: “Adeus, ano velho! Feliz ano novo!...” E mesmo aos que, entre nós, com base em todos os critérios da razão e em todas as evidências, foram desenganados de prosseguir neste mundo, ainda resta o recurso da esperança de um milagre. E o milagre, sempre esperado... e às vezes acontece. E quando acontece, a vida ganha da morte. No registro dessa vitória, contam-se minuto, hora, dia... “Um dia a mais!”, apelo de quem agoniza. E, se consegue, ele vai desejar outra hora e outro dia. Isso, quase sempre, menos quando a morte se instala carregada de dor insuportável. Contra a morte, qualquer ganho é incomensurável, diante de sua impassibilidade: ela não sorri, não chora, não se vinga, não se apiedada, não concede. E, sem falta, virá. Virá rápida, calçada “com suas sandálias de silêncio” ou no embalo amedrontador do som de trovão ou na rapidez muda de raio de relâmpago ou caminhando em passo lento... lento... se anunciando serena ou carregando carga pesada de dor, de aflição, para realizar sua obra.

A morte... O terrível da morte: “Não estarei mais aqui e tudo continuará sem mim, depois de mim. E não sei o que serei e se serei e onde estarei.” Haverá onde estar?... Silêncio? Escuridão? Claridade? Barulho ensurdecedor? “Sono sem sonho?”, como o filósofo Sócrates chegou a supor? Morte: vale de mistério aterrador.

Quando pessoas queridas morrem a gente participa do funeral. Se estiver ausente, pode participar também, mas pela imaginação carregada de sentimento, de lembranças. E pensa-se que o funeral se encerra com o sepultamento. Então se diz que ele foi realizado no dia tal. Mas, não. Nesse dia, o morto colocado em uma sepultura. Sepultamento de queridos é empreendimento para obra longa. E às vezes abarca toda a vida. De fato o morto lá na sepultura, mas remoendo por dentro da gente o sentimento recrudescente de um vazio..., e um silêncio!... Então, a gente fica quieta, parada, se procurando, querendo se recolher do mundo. Aí a pessoa querida, falecida, vem habitar dentro de cada um que está assim, para nos fazer companhia e nos acalentar. E fica nos levando pelos lugares onde a gente viveu, falando em nossos ouvidos, se mostrando, mostrando imagens das coisas acontecidas. Isso nos alenta, mas também dolore. As recordações das coisas boas nos lançam na placidez de sorriso interior: as recordações desagradáveis nos deitam no remorso diante de uma constatação: “o passado não pode ser corrigido”. Devagarzinho, a pessoa querida, falecida, se desabitando de nós, deixando-nos só lembranças. A gente leva tempo para aprender a se acostumar com a ausência, com o vazio deixado por ela, mas consegue! Consegue, mas o sepultamento continua! E cada vez que sentimos falta do falecido querido, percebemos que há um novo sepultar, e que a gente vai se sepultando também... de pedaço em pedaço. E luzes perdendo brilho, espaços se esvaziando, alegrias desvanecendo, sorriso ficando sem graça.

Entre lágrimas e suspiros de impotência prestamos as últimas homenagens a nossos mortos. E os acompanhamos na condução de sua derradeira jornada até o cemitério onde jazem. O acompanhamento de jornada assim, quantas vezes já o fizemos? De tanto fazer, de tanto assistir, de tanto acompanhar a morte, começamos a nos acostumar com ela, a pegar sua intimidade e até a imaginar o nosso próprio trajeto final. Aí, pensamos ouvindo, solene, calados, nossa voz: “Nesse dia, todos que me acompanharem voltarão, mas eu ficarei, como ficará, daqui a pouco, quem agora acompanhamos. Ficarei sozinho...” E passamos a encarar o cemitério como ambiente familiar, cheio de parentes, de amigos, de conhecidos. Nele, recordações saltando na gente: “Aqui fulano, ali cicrano, lembra dele? Minha mãe, meus avós, nesta sepultura.” Os mortos reavivados pelas lembranças, reavivando-se pelas inscrições, pelas imagens dos retratos exibidas nos túmulos. E vão brotando, falando de si, contando história, fazendo-nos perguntar. Mas há mortos que emudeceram e desapareceram entrando na eternidade do esquecimento profundo, rápido. Rápido demais, sem deixar resquício... e nem poeira. E seus descendentes vivem, mas vivem sem história, como folhas desprendidas de ramos, de ramos que não sabem de que galho caíram. São os mortos sem monumento.

Cemitério... monturo?, depósito de mortos? Não! Cidade de memória, monumento abrigo de monumentos. Monumento... marco de recordação carregado de significados, avivando lembranças, histórias, colocando-nos no presente do passado, trazendo o passado para o presente. Monumento... Não importa a forma, tanto faz se em imagem, registro em papel, objeto, edificação. Sepultura, monumento, casa de memória, templo de mortos.

Cidade de memória... No seu caminho seguiremos. Lá, uma multidão nos espera para habitar com ela pelo sempre do sempre. Aguarda-nos sem pressa em repouso tranqüilo... no leito do Templo dos mortos.

Onde o início de nosso fim? O início de nosso fim em algum ponto da eternidade futura, a partir da abertura do portal do esquecimento. Daí em diante, rastros, imagens, lembranças se apagando, esvaindo-se, desaparecendo do assunto do mundo... até sumirem e entrarem em esquecimento pleno. Silêncio profundo viajando pelo tempo. E a eternidade do futuro sem a lembrança de nós.

 

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