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FELIZES
Esmeraldo Lopes

Faz alguns anos, emprestei um livro a uma colega recomendando, em especial, a leitura de um conto. No passar de tempo curto ela mo devolveu ao som de protesto veemente, indignado: “Não gosto de nada que evoque tristeza. Não sei por que tem gente que se presta a escrever, a falar, a ouvir, a ler coisas tristes. Procuro alegria. Só quero saber do que me deixa feliz. Sou feliz!” Parei. O pensamento suspenso, procurando compreensão. Não encontrei. Mesmo sem me botar na deliberação de continuar em busca, minha mente, por conta própria, não me deu sossego de esquecimento. E quando não a mente, a luz de algum relâmpago da realidade me trazendo, vivo, o protesto. Na claridade de um deles, observei a garçonete que me servia com a concentração presa à televisão do restaurante. Ela lacrimejava ao acompanhar uma cena do encontro de um casal de namorados que há muito não se via, por impedimento de proibição. E quando desprendeu os olhos da televisão, falei-lhe: “Você está chorando, mas é só um filme, invenção. Não fique assim!” Ela: “Eu sei, mas a vida é tão dura, tem tanto sofrimento. Por isso a gente precisa de fantasia... dessas coisas para ter esperança, para continuar vivendo.” Míria disse isso com tempero de profundidade na voz, com serenidade na face. Seu dizer, sua expressão... e o que tivesse mais a falar daria uma crônica, um conto, uma peça de teatro, um romance..., uma obra carregada de vida, com tudo que a vida não pode deixar de conter: dor, alegria, tristeza, decepção, conquista, esperança, derrota... Minha colega, entretanto, aconselharia o artífice que se propusesse a fazer obra se referindo a alguma faceta da vida de Míria a não tocar em aspectos que impliquem tristeza. E a obra começaria e terminaria no encontro feliz. E aí, excluir-se-iam, da história de Míria, suas aflições, suas inquietações em torno do futuro do filho e das condições de existência que o envolvem; omitir-se-ia as marcas em seu corpo, as cicatrizes em sua alma deixadas por seus amores idos, por esperanças vencidas, mortas; não se levaria em conta as humilhações sofridas, as amarguras, as derrotas, seus sentimentos de culpa, seu temor diante do a vir... Por certo, ao concluso da obra, Míria, a que é Míria, não estaria nela. E com essa obra na mão, algum feliz escorregaria os olhos em seus parágrafos procurando erro de grafia, erro gramatical ou assunto para encher o coração com sonhos iluminados por ilusões falsificadas. É, poderia lê-la no completo, como modo de comer o tempo ou a jogaria sobre as pernas e reclamaria do calor ou do frio, dos dias que passam lentos ou rápidos ou do filho que ainda não retornou ou...

Bem, os felizes podem encher o tempo com qualquer coisa desde que elas estejam depuradas das tormentas da vida. Não!, erro! Eles até gostam de saber das tormentas da vida... nos outros! Mas elas devem ser apresentadas assim: como ato de culpa, de castigo, de expiação de pecado, de vingança, de injustiça alheia, como sina, como resultante da irresponsabilidade de quem as sofre. Entretanto, tudo isso mostrado, avistado, com floreio. Floreio na medida de não os fazer se sentir coparticipantes, corresponsáveis pelas dores que emanam das tormentas. E olham o mundo evitando enxergar sua alma, procurando manter a atenção dos olhos, dos ouvidos, nos adereços. E ocultam, adornam ou se desviam das marcas de sofrimento. Vêem sorriso onde há lágrimas, põem face de alegria na tristeza...

Os felizes comungam o sofrimento alheio? Procuram essa comunhão, mas a querem tão-somente na medida de compaixão abstrata, suficiente para reclamar gesto de caridade, provocar catarse, enlevo o bastante para se representarem à semelhança dos que mergulham a alma em sentimento de condolência pelo martírio de Jesus na cruz. Depois... se põem em paz. E conseguem paz porque se enclausuram em universo particular habitado por si, pelos parentes próximos bem próximos; resumem suas preocupações, suas sensibilidades apenas ao que atinge diretamente a si e aos seus; e imunizam suas consciências, suas emoções, contra tudo que geme fora. E de alguma janela de seu universo, assistem, indiferentes ou com curiosidade estrangeira, o desenrolar da trama da vida no mundo exterior. No mundo exterior, o problema, a responsabilidade pelas ocorrências ruins. E elas sempre no outro e do outro. O outro sempre o culpado, o algoz. Mas, apesar de todos os recursos de autoproteção, felizes sem conseguir escapar dos ecos dos gemidos, da imagem angustiada dos injustiçados, dos sofredores. Contudo, não se abalam. Transformam os injustiçados, os sofredores em marcos de heroísmo, de resistência e os pintam com cores de exaltação: “Bravos que suportam os sacrifícios”; “Apesar das dificuldades, resistem!”; “Tem a habilidade de driblar as adversidades”; “Vive na miséria, mas mantém a integridade moral. É um exemplo”; “Morreu barbaramente torturado, mas será recompensado no céu”; “... suportou todas as humilhações.” A injustiça, o sofrimento, recursos de glorificação... e até de santificação.

O injustiçado, o martirizado, recebendo as cargas da desgraça no corpo, acossado na alma, esturrando agonia, com a consciência amortecida pelos sopapos da dor. Os felizes vendo, ouvindo, sabendo do acontecer funesto, mas calados!... ou o apoiando ou o reprovando em murmúrio. Desfecho: vivo, o martirizado encolhido num canto, quieto, aniquilado, tentando não reouvir os próprios gritos; esforçando-se para expulsar dos ouvidos, de suas visões, as gaitadas prazerosas de seus algozes; buscando cura para as feridas do corpo, da mente, se esforçando para fugir de si, alimentando a esperança de adormecer as lembranças, de cair no esquecimento dos outros. E, só por ainda existir, testemunha cruel, documento probatório de injustiça acontecida. Os felizes se defendendo dele pelo silêncio, sufocando a memória, apiedando-se dele ou afirmando a inexorabilidade ou a fatalidade ou a justeza do corrido. Mas todos eles sem perder alerta, prontos para taparem os ouvidos, para declararem louco, mentiroso, o martirizado, se este ousar publicar o mapa de seu vale de dores. Se morto... Morto, o martirizado perde a marca testemunhal de sua imagem, sua sombra some, seus murmúrios cessam. Desaparece no esquecimento ou...

O vento batendo novo, sorrisos de crianças alegrando a vida, o cantar dos pássaros, o pipocar de botões de flores nos jardins, a ignorância dos jovens, dos chegantes sobre os sucedidos do atrás. O passado aquietado, ajeitado no desenho de conveniência para o sossego dos felizes. Eles sem receio de sobressalto. Mas eis que na mansidão do tempo explode conversa comprovada detalhando os suplícios de defunto martirizado: o esfolar de suas unhas, as alicatadas em sua língua, as surras, sua submissão a maus-tratos todos...; as palavras de suas súplicas desesperadas, sem força, inúteis; a descrição de seu ser impotente esparramado no chão, esvaindo-se... Mas a notícia pior: “Ficou provado: ele era inocente!” A consciência pesando, a culpa revoando. As conversas avolumando, intensificando os suplícios praticados. Os ouvintes esbugalhando os olhos, franzindo a testa, ouvindo os gritos do finado castigado, escutando o ressoar de sua voz sem som, enxergando sua face ensangüentada, seus olhos sem brilho, a silhueta de seu corpo encolhido. Apiedam-se. E rezam por sua alma. Suplicam perdão pelos atos praticados pelos algozes, às vezes, por seu próprio                                                       silêncio. Perdão... Os felizes têm o perdão!...

Um dia, uma semana, um mês, um ano... Ninguém sabe como, nem de onde, nem de quem surgiu, mas uma verdade campeia anunciando que o defunto martirizado tomou prumo de santidade. O suplício o depurou dos pecados, santificou-o. E ele está obrando milagres. E vão aparecendo beneficiários... e os milagres feitos. Rogos de “valei-me!” ao santificado acompanhados de promessa saindo de boca aqui, de boca ali.  O povo abrindo estrada no caminho de sua cova. E a cova coberta e recoberta por flores, chuviscada e rastejada por lágrimas de velas, arrodeada de ex-votos. Santo. Os santos são clementes, perdoam seus malfazejos, transformam o calvário em caminho de ascensão ao céu. Os felizes em paz. Eles sempre tem paz e dormem sem atribulação.

Ocorre de algum feliz se infelicitar com o sofrimento alheio. A revolta explode dentro dele e o atiça na obra de correção do mundo em atendimento a convocação de causa justa. E, à sombra dela, curva-se a auscultando, recebe revelações, determinações. A Causa é justa e em seu nome tudo é permitido, tudo deve ser feito, tudo deve ser aplaudido, nenhum perdão pode ser concedido. Convicto, o feliz anuncia a vinda da felicidade geral escorrendo no fio da espada que ergue. Suas palavras são polidas com fogo e sangue e carregam verdades inquestionáveis, inexoráveis, sagradas. Através delas, dita as leis do a vir. Quer o mundo sob seu governo. Determina quem morrerá, quem viverá. Define e impõe a forma reta de viver, o destino de cada um. Decreta a abolição do sofrimento, da infelicidade. Aí, ai de nós! Todos nós proibidos de sofrimento, condenados... condenados à felicidade. E uma Míria emudecerá, não terá mais razão para dizer que a vida é dura, que há dor no mundo. E se ela sentir necessidade de chorar que chore... mas aprenda a chorar sorrindo! Para não contrariar a Causa. Amém, amém, amém...

11-11-17

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